Cinematógrafo na Casa 149 exibe “O ato de matar” na quinta-feira, dia 27/4

Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killing é “uma das mais chocantes obras sobre a representação do Mal na sociedade contemporânea”. A sessão, seguida de conversa, acontece na quinta, dia 27 de abril, às 20h, na Casa 149 (orla do Rio Vermelho, praia da Paciência). Entrada Franca.

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Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killingé “uma das mais chocantes obras sobre a representação do Mal na sociedade contemporânea”. A sessão, seguida de conversa, acontece na quinta, dia 27 de abril, às 20h, na Casa 149 (orla do Rio Vermelho, praia da Paciência). Entrada Franca.

Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killing (Dinamarca, Noruega, Reino Unido, 2012) – ou ‘O ato de matar’, um filme perturbador e formalmente atípico, revela os horrores da ditadura Indonésia, que executou um massacre de comunistas através de milícias paramilitares. Os indivíduos que participaram dessas milícias não responderam por seus crimes: ao contrário, são considerados heróis nacionais pelo regime ainda “vitorioso” e, no filme, esses homens não apenas narram com orgulho os assassinatos e torturas que cometeram, mas reencenam tais crimes, colaborando com a direção das cenas em que eles atuam, inspirados pelos filmes…

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Cinematógrafo na Casa 149 exibe “O Abraço da Serpente”

Participe do Cinematógrafo na Casa 149.

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A proposta da iniciativa é apresentar filmes de variadas temáticas, formas e gêneros, mas que, como eixo comum, dialoguem com diversas questões contemporâneas.

O Cinematógrafo na Casa 149 realiza uma série de encontros mensais, com exibição de filmes seguidas de rodas de conversas, que acontecerão até dezembro de 2017. As sessões acontecem toda última quinta-feira do mês, na Casa 149, galeria de arte e espaço cultural que fica no Rio Vermelho, na Rua da Paciência (orla), em Salvador.

A proposta é apresentar filmes de variadas temáticas, formas e gêneros, mas que, como eixo comum, dialoguem com diversas questões contemporâneas. A dupla Camele Queiroz e Fabricio Ramos assumem a curadoria. Os filmes que serão exibidos serão divulgados a cada mês em nossas redes.

MARÇO 2017

O filme deste mês será “O Abraço da Serpente”, dirigido pelo colombiano Ciro Guerra.

Confira a breve nota dos curadores Fabricio e Camele sobre o…

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Cinema: eis o debate que me interessa

“Retomada atual dos filmes documentários supre a carência de inventividade do cinema contemporâneo”. O texto de Rancière, de 2005, é mais atual agora (Acesse o texto na Folha).

O autor menciona, como exemplos de cinemas que rompem a partilha geopolítica do mundo cinematográfico entre Europa e América, a extraordinária vitalidade do cinema produzido no Extremo Oriente e a retomada da ficção documentária.

Mas, depois, menciona precisamente cineastas europeus — Chris Marker e Van der Keuken — como aqueles que revitalizam o cinema expressando “o parentesco enigmático dos traços da história e das formas artísticas”. É acertado. São cineastas que rompem verdadeiramente essa partilha dominante, juntando arte e história.

Mas talvez, em outras latitudes ocidentais, esse “parentesco enigmático dos traços da história e das formas artísticas” faça outras exigências. Porque aqui as histórias são outras e, portanto, as ficções são outras. Os traços — tanto da história quanto da arte (e especialmente do cinema) — são outros.

Não obstante o “sucesso” de filmes brasileiros recentes e sobrevalorizados (cujo exemplo maior é “Aquarius”), o cinema de maior potência de inventividade por aqui (virá, já vem vindo) é aquele que se interessa mais pelas pessoas e tudo o que isso implica, do que pela forma (que é um meio de expressão e não um fim a ser “obedecido”); que se interessa mais pelos problemas humanos do que pela mise en scène. Um cinema que não tenta transmitir suas ideias ao público, mas que mostra ao público a vida mesma, para que o público (as pessoas) descubra e invente, por si mesmo, as maneiras de apreciá-la e julgá-la, recriando — a partir do filme e junto com suas vivências pessoais — suas próprias ideias. (Trata-se, inclusive, de um cinema mais “barato” e, portanto, mais viável em termos de condições de produção). É aí que se inicia o rompimento de uma outra partilha dominante: a das medições e agenciamentos do cinema.

Retorno a Rancière: o fenômeno de cinemas assim não significa “algum retorno significativo, em tempos de ‘crise de arte’, bem como de crise econômica e social, da representação direta da realidade e do engajamento nos conflitos contemporâneos”. Não. Seria simplório e confuso ver por esse ângulo, concordo com Rancière. A importância que assume tal fenômeno se deve, bem por outro ângulo, ao interesse renovado pelos recursos ficcionais próprios à arte cinematográfica que ele mobiliza e intensifica, recursos que, paradoxalmente, os filmes de ficção têm mobilizado muito pouco.

Segue artigo de Jaques de Rancière para a Folha (2005), que faz parte das suas “crônicas dos tempos consensuais”, um bloco de textos curtos de jornal sobre arte, política, filosofia. Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs13129803.htm

Cinematógrafo na CASA 149

A proposta é realizar uma série de encontros mensais, com exibição de filmes seguidas de rodas de conversas, que acontecerão de janeiro a dezembro de 2017. As sessões acontecerão toda última quinta…

Fonte: Cinematógrafo na CASA 149

Assista o curta “Regulamentação da profissão de vaqueiro”, de Camele Queiroz e Fabricio Ramos

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O documentário “Regulamentação da Profissão de Vaqueiro”, dirigido por Camele e Fabricio, acompanha a viagem dos vaqueiros da Bahia a Brasília. Os diretores foram honrados com a presença, devidamente autorizada, de canções de Elomar na trilha sonora do filme.

Filme na íntegra:

Vaqueiros CRTAZ arte 3 defSINOPSE:

Em setembro de 2013, vaqueiros de diferentes regiões do sertão nordestino viajaram a Brasília para acompanhar, no Plenário do Senado Federal, a votação do Projeto de Lei que dispõe sobre a regulamentação da profissão de vaqueiro no país. O registro, dirigido por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, é uma memória da viagem.

Brasil l HD l Cor l 2013

SOBRE O FILME

Captura de tela 2013-10-02 às 19.00.30A convite do antropólogo Washington Queiroz, os realizadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz embarcaram num ônibus junto com trinta e dois vaqueiros vindos de diferentes regiões do sertão da Bahia. A comitiva seguiu para Brasília, rumo ao Plenário do Senado Federal, para acompanhar a…

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nota sobre “Francofonia”, de Alexandr Sokurov

Captura de Tela 2016-08-21 às 12.10.14“Francofonia” (2016) é uma elegia à Europa, já foi dito por aí na imprensa.

O filme de Sokurov, na forma de um comentário despretensioso e subjetivo, nos relembra toda a civilização e barbárie moderna para pensar a relação entre museus e poder na Europa, expressando meio que um pequeno inventário das sensibilidades através do encontro, mediado pelo Louvre e seu simbolismo, de dois personagens que compactuam o respeito aos museus da Europa, mas que se encontram sob o signo da dominação política e militar: o aristocrata à serviço da máquina nazista e o republicano à serviço do funcionalismo público francês. Ambos profundamente ligados à história da Arte, mas movidos muito mais pelo amor à “civilização” que, não obstante a imposição de mais uma guerra brutal, produz suas memoráveis maravilhas.

Civilização que o russo Sokurov, que começa o filme mostrando Tolstoi e Tchekov, a um só tempo celebra e execra. No belo “Arca Russa” ele exaltou o Hermitage e, se lembramos disso, compreendemos o choque do diretor oscilando entre o fascínio pela cultura europeia e a denúncia da barbárie nazista contra a Rússia, que vitimou milhões de russos no cerco a Leningrado, a mesma São Petersburgo do Hermitage, a mesma cidade que nasceu do ímpeto fáustico de uma Rússia imperial que preambulou a história europeia e mundial do século XX com a revolução bolchevique. Na guerra, respeito à França (invadida e ocupada), mas destruição à Rússia, esse oriente, esse bolchevismo, essa não-europa.

Não gostei, dramaticamente falando, das inserções dos personagens performáticos de Napoleão e da Marianne, ambos representando a República Francesa de forma delirante e excessivamente caricatural. Talvez tais recursos narrativos tenham advindo da necessidade do diretor de personificar a História, porém com menos êxito do que o personagem do comandante de uma navio (que fala com Sokurov de forma instável pela internet) que transporta obras de arte em contêineres enquanto enfrenta uma tempestade absurda.

Sem citar o poeta russo, Sokurov nos ilustra o mar agitado da História, cuja civilização e barbárie engendrou os maravilhosos museus de seus filmes, instituições que sobreviveram às tantas guerras travadas naquela Europa. Em “Francofonia”, entretanto, o destino do navio que leva as obras de arte naqueles mares agitados não é conclusivo. Sokurov nos deixa em suspenso, sem um “fim da história”, mas em meio a uma enorme ameaça.

MUROS na Semana de Fotografia da Bahia

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O filme, que relaciona Brasil e Palestina enquanto acompanha o fotógrafo Rogério Ferrari por favelas de Salvador, passa no dia 4/8 (quinta-feira), às 18h.

MUROS 4MUROS (25min, 2015), filme de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, participa da programação da Semana de Fotografia da Bahia, que acontece na CAIXA Cultural Salvador, entre os dias 2 e 6 de agosto, com uma programação de oficinas, conferências, filmes e lançamento de livros para o público de todas as idades.

O filme, que relaciona Brasil e Palestina enquanto acompanha o fotógrafo Rogério Ferrari por favelas de Salvador, passa no dia 4/8 (quinta-feira), às 18h.

Com o tema “Narrativas Visuais e Fronteiras entre Arte e Documental”, a Semana de Fotografia da Bahia acontecerá na Caixa Cultural, que fica na Av. Carlos Gomes, em Salvador. A programação conta com oficinas gratuitas e vai destacar o papel das mulheres na fotografia, com diversas fotógrafas à frente das…

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nota sobre “Güeros” (2014), filme do mexicano Alonso Ruiz Palacios

Três personagens, marcados pela apatia e pelo tédio, percorrem a Cidade do México em busca de um roqueiro mexicano obscuro, desconhecido e prestes a morrer, mas que teria feito “Bob Dylan chorar”. Com atmosfera de comédia sensível e com fluidez narrativa e dramática, Güeros (2014), debute do diretor mexicano Alonso Ruiz Palacios, desdobra a relação entre Cinema e experiência, compondo um poema visual a cada tomada e revelando um feliz domínio estilístico da linguagem do cinema.

Na trama, o menino do interior Tomás, por causa de seu comportamento que a sua mãe, cansada, já não consegue controlar, é mandado para uma temporada na casa do irmão mais velho Federico, na Cidade do México. Federico, apelidado sugestivamente de Sombra, vive confinado com o amigo Santos, ambos universitários, num apartamento escuro, claustrofóbico e sujo. Ao saberem que Epigmenio Cruz, o roqueiro que marcou a infância dos irmãos, está à beira da morte, resolvem visitá-lo para que ele autografe a fita cassete que Tomás não se cansa de ouvir. O modo como a Cidade do México é percorrida pelos personagens revela as escolhas do diretor, que infiltra aspectos sociais, económicos, políticos e geográficos, tornando esses aspectos, junto com os ruídos e os enquadramentos, elementos estruturais da Poética do filme.

Captura de Tela 2016-06-25 às 14.59.02Rodado em Preto e Branco e inteiramente em formato 4:3, as primeiras sequências já capturam pelo ritmo dinâmico e inventivo. Mas momentos pontuais do filme marcam pela força expressiva e de narratividade: a crise de pânico de Sombra, que é mostrada com eficácia, simplicidade e beleza, e o seu monólogo sobre o cinema mexicano que manifesta uma autocrítica, mas mais ainda, uma visão política sobre a função do cinema.

¡Puto cine mexicano! Agarran unos pinches pordioseros y filman en blanco y negro y dicen que ya están haciendo cine de arte. Y los chingados directores, no conformes con la humillación de la Conquista, todavía van al Viejo Continente y le dicen a los críticos franceses que nuestro país no es más que un nido de marranos, rotos, diabéticos, agachados, ratoneros, fraudulentos, traicioneros, malacopa, putañeros, acomplejados y precoces”.

Sombra e Santos representam jovens de uma geração deslocada das grandes lutas políticas de seu tempo. Mas não são personagens politicamente alienados nem ideologicamente orientados. A ideologia não se revela só pela vontade, dirão alguns que, apressadamente, acusarão o filme de carregar uma mensagem crítica demais à esquerda. Mas, embora o filme não passe ao largo das questões políticas (tem as cenas de assembleias estudantis e de ocupações universitárias mais bem executadas que já vi), incumbe Sombra, poeta, sensível, amante e com crises de pânico, de assumir outras lutas que, para ele, são mais fundamentais naquele momento. Lutas íntimas, que emprestam à sua personalidade o drama da existência desesperada e inútil, ao ponto de temer a loucura, mas capaz de amar, sorrir e enfrentar o mundo. Se Sombra não se identifica com os jargões e com os conflitos dos estudantes grevistas, a sua própria existência transcende o conformismo da contestação daqueles jovens revolucionários impregnados de chavões e ideias de esquerda do século 20 (o filme é ambientado nos anos 1999-2000, no período de greves da UNAM – Universidade Nacional do México). Para Sombra, Ana, a quem ele ama e que é uma das lideranças dos movimentos estudantis, contesta um mundo sem deixar de pertencer ao mundo contestado.

Em Güeros, a crítica política dirigida à esquerda é provocadora, mas é tangencial. A crítica política maior que o filme transmite ataca a violência sistêmica difusa que transforma os jovens, as suas subjetividades, em sombras obrigadas a enfrentar a vida mesma, a vida – como diria Pasolini – existencial, direta, concreta, dramática, corpórea, das pessoas que vivem os impactos das realidades sociais injustas, o “mundo cultural” no interior do qual se exprimem física e existencialmente milhões de pessoas marginalizadas, excluídas, estigmatizadas, social e espiritualmente. Por isso, no filme, jamais ouvimos a música do roqueiro Epigmenio Cruz, que impacta imediatamente todos os personagens que a ouvem e que “poderia ter revolucionado o rock mexicano”, mas a pressentimos sob nossos próprios tons.

Captura de Tela 2016-06-25 às 15.00.12O filme, portanto, participa de um inventário de sensibilidade crítica que, no cinema brasileiro atual, é inexistente. Güeros acerta ao realizar com eficácia a conjunção de tensões estéticas e tensões emocionais, tensões próprias das linguagens artísticas, sem incorrer em experimentalismos formais injustificados, ao passo que logra, com simplicidade narrativa, revelar as nuances individuais de um grupo de jovens, e especialmente de Sombra, sem escorregar em propensões narcísicas.

Em tempo, o longa-metragem ganhou o prêmio de Melhor Filme Estreante em Berlim e o Melhor Filme Latino-Americano em San Sebastian. Por aqui, foi exibido no Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, em 2015.

A Mostra Cine Odé – Cinema no Terreiro apresenta suas últimas sessões: dias 2 e 3 de JULHO

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No sábado, dia 2 de julho, um dos destaques será o curta “As Cruzes e os Credos”, filmado em grande parte no próprio Terreiro de Odé. Confira a programação completa.

Captura de Tela 2016-02-12 às 13.57.38A última edição do Cine Odé – Cinema no Terreiro, que seria em junho, será no início de julho: dias 2 e 3 de julho (sábado e domingo, respectivamente), sempre às 17h.

A Mostra acontece no Terreiro de Odé em Ilhéus/Ba. Fundado por Pai Pedro Faria em 1942, o terreiro fica no Bairro Alto do Basílio. O Cine Odé, que começou em janeiro e se encerra nesta última sessão, tem a  proposta de tornar o Terreiro de Odé um espaço cultural voltado para o cinema, promovendo sessões mensais gratuitas que estimulam a valorização e o conhecimento das culturas religiosas brasileiras de matrizes africanas e indígenas. Os realizadores e curadores da mostra são Fabrício Ramos e Camele Queiroz

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nota sobre “O Abraço da Serpente”: a selva que é um mistério e um mundo

“O Abraço da Serpente” (2016), filme dirigido pelo colombiano Ciro Guerra, é um filme sobre extinção no sentido em que essa palavra se liga às palavras destruição e extermínio, tanto de corpos quanto das identidades indígenas das culturas amazônicas. Mas o filme é também sobre um choque cultural profundo entre o branco e o índio mediado pela selva. A selva que é um mistério e um mundo.

Baseado nos diários de dois exploradores europeus, os segredos e os mistérios amazônicos compõem um leitmotiv inusual: entre o passado e o presente, a jornada em busca de uma planta com propriedades místicas, um explorador pioneiro e febril em busca da cura, um outro explorador em busca das descobertas do antecessor e de suas próprias autodescobertas, um xamã a guiar a experiência fora do tempo e percorrendo uma espacialidade mágica, misteriosa e exuberante, porém sem as cores da selva. A proposta estética do diretor Ciro Guerra e do diretor de fotografia David Gallegos nos revela um mundo em preto e branco para que, explicam eles, as cores da floresta não desloquem a potência do filme. Realmente, a fotografia em preto e branco não deixa que a exuberância da selva nos arrebate de forma predominantemente visual, embora o filme seja visualmente impressionante!

Se em alguns momentos me remeteu diretamente a Fitzcarraldo e noutros ao Coração das Trevas, o que mais me atraiu nesse filme, além de uma forte identificação simbólica pessoal que não cabe mencionar aqui, foi a sua relação — a relação “colombiana” — com a selva amazônica.

Captura de Tela 2016-06-07 às 12.43.04O Brasil se mantém de costas viradas para a vastidão da América amazônica, em todos os sentidos. As FARC ocupam uma grande área das selvas do sudeste colombiano, impactando a geopolítica da região amazônica e o cenário político da Colômbia. Sintomaticamente, vem da Colômbia esse filme que ignora os Estados (“vocês são colombianos?” Perguntam uns caras armados ao índio que chega numa missão: “eu não sei”, ele responde) e situa a selva para além de sua geografia: ela alcança uma dimensão cósmica crescente no filme.

Já para o Brasil (incluindo a nós, brasileiros, tão deslocados do Brasil), o que é a Amazônia? Belo Monte está lá a responder na volta grande do Xingu o que sempre soubemos e fizemos. Não à toa os filmes feitos no Brasil que têm despertado maior interesse da crítica e do público (e de Cannes) refletem sobre especulação imobiliária e ascensão da classe C. Abordam um Brasil urbano se submetendo às narrativas superficiais do momento político e social que se impõe nas grandes cidades, sem ousar muito mais do que o que permite o politicamente correto e os anseios de uma classe média que quer ficar bem na fita.

O Abraço da Serpente, narrativamente, suscita ressalvas críticas: mostra uma temporalidade confusa e evoca de passagem — embora cruamente — uma ampla variedade de temas que participam das tragédias históricas e sociais amazônicas (as missões católicas, a exploração do homem branco e do “colombiano civilizado”, o extrativismo econômico), incorrendo em alguns excessos dramáticos para compensar a abordagem rápida de tais questões. Mas pode-se ver tais excessos como parte consciente da proposta do filme que recorre a suspensões perceptivas, licenças poéticas, em suma, à ousadia formal.

O que fica do filme (que também teve seus dez minutos de aplausos em Cannes na sua vez, e teve sucesso também em seu país, ficando mais de 11 semanas em cartaz na Colômbia) é a forma como ele nos fala, não da Amazônia, mas de algo profundo em nós, de um lugar de uma perda que buscamos preencher e que o filme recoloca de forma intensa: um lugar profundamente sul-americano.