“O Sacrifício”, último filme de Andrei Tarkovski, passa nesta quarta (27) na Saladearte da UFBA

Cinematógrafo na Saladearte

Último trabalho do diretor russo Andrei Tarkovski, “O Sacrifício”, de 1986, encerra o ciclo do Cine Cineasta dedicado ao diretor. Sessão especial nesta quarta (27), às 19h20, na Saladearte da UFBA.

maxresdefault

No ciclo Tarkovski do Cinematógrafo – Cine Cineasta, cujo encerramento acontecerá nesta quarta (27/11) com a exibição do último filme do diretor, pudemos conhecer a obra completa de um dos maiores criadores da arte cinematográfica.

“O Sacrifício”, lançado em 1986 poucos meses antes da morte do diretor, foi chamado de sua súmula testamental. Em Tarkovski, vida e arte se entrelaçam e a obra do diretor expressa isso com integridade.

Sobre a narrativa de “O Sacrifício”, nas palavras do próprio Tarkovski, em seu livro “Esculpir o Tempo”:

“Alexander, um ator que abandonou os palcos, está perpetuamente esmagado pela depressão. Tudo enche-o de cansaço: as pressões da mudança, a discórdia na família,  e sua percepção instintiva da ameaça representada pelo…

Ver o post original 326 mais palavras

“A Ponte das Artes” no Cinematógrafo em Foco (sexta, 23)

Cinematógrafo na Saladearte

Sessão inaugural do Cinematógrafo em Foco apresenta a belíssima obra de Eugène Green, sexta, dia 23, às 19h30, na Saladearte Cinema da Ufba.

images-w1280

O Cinema de Eugène Green e “A Ponte das Artes”

“A Ponte das Artes” arrebata e o faz, paradoxalmente, com sutileza e equilíbrio! E nos arrebata não somente pelo que nos oferece enquanto “cinema”, mas sobretudo pela “energia” dramática e estética que Eugène Green consegue nos transmitir, e não só transmitir, mas atingir como um raio luminoso que atravessa o nosso espírito e ilumina o coração.

Estadunidense que escolheu se tornar europeu, mais precisamente, buscar nas línguas latinas algo que, para ele, inexistia nas línguas de matriz anglo-saxã, Green refugiou-se, por assim dizer, na França. Tendo se dedicado por décadas ao Teatro e ao estudo profundo do período Barroco, ele realizou seu primeiro filme já quase aos 54 anos de idade, em 2001 e, desde então, vem…

Ver o post original 811 mais palavras

O Cinema nacional não precisa de proteção estatal

Em uns dois ou três artigos de opinião publicados nos jornais como reação aos ataques de Bolsonaro ao cinema nacional, percebi a recorrência da expressão “proteção estatal” como reivindicação de cineastas e produtores.

A expressão é ambígua e perigosa: remete mais a dependência e controle estatal da cultura e do cinema, do que a reconhecimento e desenvolvimento de um setor cultural e econômico.

Outro equívoco recorrente dos chamados agentes do setor é a ênfase no discurso ‘economicista’, que recorre aos índices do mercado audiovisual como justificação do investimento público no setor. O maior prejudicado por esse discurso é justamente o cinema nacional!

Isso porque os números do setor se baseiam mais nos players de alcance global que atuam no nosso mercado ou em produções pontuais que concentram a bilheteria de filmes nacionais, do que nos números do chamado cinema autoral ou cultural ou independente, cujo mercado é insustentável sem auxílio estatal.

Políticas públicas de estímulo são necessárias justamente para apoiar um setor estratégico que o mercado, por si só, não sustenta.

A importância do cinema é atestada por sua história cultural e econômica no mundo inteiro. E no mundo inteiro governos de esquerda ou de direita consideraram que era responsabilidade do Estado e uma boa política pública estimular o cinema de seus respectivos países, vendo-o como um recurso estratégico.

Para estabelecer um diálogo com a sociedade e, por tabela, com o atual governo, é preciso pôr em pauta esses e mais um ponto principal:

De onde vem o dinheiro das políticas públicas de fomento do cinema? Atualmente, do Fundo Setorial de Audiovisual. Um Fundo cuja inteligência reside em não impactar os cofres do estado, pois ele é constituído pelas atividades da própria cadeia produtiva do setor. Quanto maiores forem as receitas dessa cadeia produtiva, mais recursos recebe o FSA para reinvestir no próprio setor e estimulá-lo, buscando associar resultados tanto no plano econômico quanto no plano cultural e artístico.

O Governo atual não sabe disso, nem a sociedade em geral tem demonstrado interesse no cinema nacional. Mas o que cabe ao Estado não é “proteger o cinema nacional”, mas o papel de gestão de conflitos e de regulação de mercado do setor, preparando assim, sem ingerências ideológicas típicas de regimes autoritários, o terreno para emergência e fortalecimento de um cinema diversificado que reflita a própria diversidade da sociedade brasileira. Nesse bojo é que entram as políticas de fomento à cadeia produtiva.

Aos agentes do setor, por seu turno, cabe ampliar esforços para a democratização e descentralização das receitas e melhoramento, nesse sentido, dos instrumentos de acesso aos recursos públicos. Quando cineastas se manifestam em causa própria exigindo proteção do Estado sem se preocupar com a atenção do público e da sociedade, recomendando-se a si mesmos em suas trincheiras e clubismos eleitorais e ideológicos, fazem um desserviço ao cinema nacional.

A economia do setor vem crescendo a cada ano no país, e a produção de cinema autoral também, muito por conta das políticas públicas da última década. E há exemplos de políticas de sucesso implementadas em outros países a serem seguidos e adaptados às dimensões e características próprias de nosso mercado.

Mas se depender do discurso leviano que tem aparecido na imprensa em defesa do cinema nacional, os cineastas e produtores vão passar a reivindicar proteção estatal contra a ausência de público, isto é, contra o desapreço e o desinteresse da sociedade brasileira – e o governo reflete isso da pior forma – pelo cinema feito no país.

É preciso que o debate nesse campo assuma novos contornos. E importa destacar que, no interior mesmo do universo de agentes do setor audiovisual, há conflitos de interesses e paradigmas conflitantes sobre cultura e sobre o que é o cinema e suas relações com o mercado e a sociedade. Do contrário, a “defesa do cinema nacional” se converteria em lobby corporativista.

Não à toa, assim essa defesa tem sido vista por grande parte da população. O desafio é mudar isso, não reivindicando “proteção estatal” para o cinema, mas demonstrando de todo modo possível a importância cultural do cinema junto à sua relevância econômica e social.

Manifestações de ordem cultural e artística não são meramente um campo produtivo entre outros. Eu tenho visto o impacto disso todos os dias. Um impacto real nos encontros Cinematógrafo que temos feito em Salvador e também como realizador de filmes independentes. Temos caminhos, árduos e belos, a um só tempo. Não é essa a graça?

Fabricio Silva Ramos, 40, é cineasta (co-diretor e produtor do longa Quarto Camarim, 2017), Mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e idealizador e curador das Ações Cinematógrafo no Circuito de Cinema Saladearte, em Salvador, Bahia.

Agosto é o mês de aniversário do CinematograFinho: confira a programação especial e concorra a ingressos

Citar

Em parceria com o Circuito Saladearte e com a Escola Via Magia, o CinematograFinho promove sessões de filmes muito especiais, criteriosamente selecionados pelos curadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Infos em:

via Agosto é o mês de aniversário do CinematograFinho: confira a programação especial e concorra a ingressos

Um lampejo de segundo do Quarto Camarim

Citar

via Um lampejo de segundo do Quarto Camarim

Curta metragem “Muros” será exibido no Al Janiah, em São Paulo, em 24 de maio

Citar

via Curta metragem “Muros” será exibido no Al Janiah, em São Paulo, em 24 de maio

“Quarto Camarim”, filme que mostra o reencontro delicado entre uma sobrinha e sua tia, estreia em 3 de abril na Saladearte da UFBA

Uma sobrinha busca reencontrar seu tio depois de 27 anos sem qualquer contato. Seu tio agora vive em São Paulo, é performer e cabeleireira, e convoca a diretora Camele Queiroz para dentro do filme. Com Luma Kalil.

Pré-estreia do Filme “Quarto Camarim”, de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, com a presença dos diretores, seguida de conversa com o público.

Ingressos já à venda em qualquer sala do Circuito Saladearte.

O filme segue em cartaz a partir do dia 4 de abril (quinta), na Saladearte da Ufba.

BAHIADOC

Depois de vinte e sete anos sem contato, a diretora baiana Camele Queiroz reencontra sua tia Luma, que é travesti, trabalha como cabeleireira e vive em São Paulo

QC card 4

Dramas familiares e conflitos sobre aceitação são temas que aparecem em “Quarto Camarim”, primeiro longa metragem dos diretores baianos Camele Queiroz e Fabricio Ramos. O filme mostra o processo de reaproximação entre a própria diretora e a sua tia, de quem ela não tinha notícias desde muito pequena: “eu me lembro do salão de meu tio Roniel”, diz a diretora, “que na verdade funcionava num quarto da casa de minha avó Aurora, em Feira de Santana”.

O seu “tio” da infância agora se chama Luma Kalil. Ela continua trabalhando como cabeleireira, mas também faz performances dublando canções de grandes estrelas e vive em São Paulo há vários anos, depois de ter passado por várias cidades do país.

O filme se…

Ver o post original 492 mais palavras

Cinematógrafo Double Bill (23/2): “The Doors” e “Velvet Goldmine”

Cinematógrafo na Saladearte

O Rock como Pátria* é o mote da sessão especial de fevereiro do Cinematógrafo na Saladearte: um ingresso para ver dois filmes!

the-doors-live-at-the-isle-of-wight-web-730-optimisedEntre a Vontade de potência e a potência do Falso (dos curadores):

Jim Morrison, no show do The Doors “Live At The Isle Of Wight Festival 1970”, canta “sem mexer um músculo”, como se o Dionísio estivesse acorrentado. Entretanto, a performance do grupo, musicalmente impecável, e a atmosfera de uma agressividade contida que Morrison transmite, olhos fechados, o rosto barbudo sugerindo um ar de jovem profeta, e ainda a solitária luz vermelha que ilumina precariamente o palco e que inspira, por sua cor sanguínea que oscila nas sombras que a contrastam, um sentimento de conflito entre luz e sombra, entre a paixão que parece ter perdido o fogo mas insiste em sua brasa – “Light my Fire” é o grito que ecoa antecipando o clamor “This is the…

Ver o post original 865 mais palavras

Cinematógrafo de janeiro (sáb, 26): “O vento nos levará”, de Abbas Kiarostami

Cinematógrafo de janeiro: “O Vento nos Levará”. Dia 26/1.

Cinematógrafo na Saladearte

CARD JANEIRO 2019.png

Para Abbas Kiarostami, um filme não deve se limitar a ilustrar um roteiro nem representar uma coisa; deve ser um acontecimento. Mas, em seus filmes, o princípio da incerteza, típico de filmes documentais, cumpre uma função fundamental na proposta estética do diretor, que oscila entre a realidade e o artifício. O acontecimento não se traduz num fato, portanto, nem numa obra fechada em si mesma. Trata-se, antes, de uma busca, de uma espera, de um filme sempre incompleto, não por lhe faltar algo propriamente, mas por oferecer tantas coisas que nos escapam para serem por nós recriadas.

Em “O Vento nos Levará” (Irã, Fra, 1999), uma equipe de filmagem, da qual só veremos o diretor, vai a um vilarejo para registrar o ritual fúnebre da senhora Malek, mas a morte da anciã demora de acontecer. O filme transcorre nessa espera que, esteticamente, se expressa pelo minimalismo e pela transcendência…

Ver o post original 291 mais palavras

nota: “ROMA”, de Alfonso Cuarón

Captura de Tela 2018-12-17 às 17.42.07

De início, um início que se prolonga por quase toda a primeira hora do filme, o artificialismo das imagens gera desconfiança e a beleza dos cuidadosos planos e enquadramentos se sobrepõe a qualquer possível encanto que a homenagem ao neorrealismo italiano poderia oferecer. É o próprio diretor e roteirista do filme, Cuarón, que, pela primeira vez na sua carreira, dirige também a Fotografia. Se, por um lado, essa onipresença diretiva harmoniza a ideia da obra imaginada com a estética que a realiza, por outro, aciona a tentação do preciosismo imagético.

É então que um acontecimento, enfim, dispara o drama. E esse drama, sensível, discreto e profundo, é o de Cleo. Desde o início a sua imagem protagoniza o filme. Mas só depois é que a sua presença se torna realmente dramática.

Cleo, saída de um vilarejo rural, é empregada doméstica de uma família mexicana de classe média do DF. O tema é o do abandono: homens abandonam as mulheres, a própria família, o filme (a narrativa de Cuarón é autobiográfica). As mulheres sofrem, mas vivem e enfrentam seus dramas, assumem seus respectivos cotidianos: por fora, rotinas e responsabilidades práticas; por dentro, toda a sensibilidade do mundo.

O drama de Cleo se dá em paralelo ao processo de abandono e separação conjugal de sua “patroa”. Mas desta, o filme, embora a mostre quase tanto quanto mostra Cleo, não nos permite uma aproximação. É Cleo, em seu murmúrio, sua escassez de palavras, sua contida vontade de alegria e desejo que transborda aqui e ali, sua inocência que se perde, sua dor e sua culpa, sua amizade… é Cleo que se comunica conosco, que nos dá a ver vislumbres de seu mundo, que nos revela o seu afastamento de “nós” ao mesmo tempo que nos afirma que não há nenhuma distância entre a sensibilidade essencial de mulheres ou homens separados por barreiras de classes, ou modos de pensar, ou pelo vendaval da história. Cleo atesta a sua igualdade a partir de sua abissal diferença.

E o filme de Cuarón nos conquista. Emociona. Impacta. Sua estética se transforma sutilmente, visita elementos poéticos (como o incêndio), fortemente dramáticos (como o homem violento que mata simbolicamente a filha prestes a nascer), e narrativos, como o vínculo que germina entre as mulheres tão distantes entre si, tão próximas num momento de tensão. Um momento único em que Cleo revela diretamente um sentimento seu, na praia, cercada pelas crianças que ela ajuda a cuidar e cujas vidas ela acabara de salvar. Na cena, um singelo heroísmo, num instante, dá lugar ao desabafo trágico, ao sentimento culminante que revela Cleo como a protagonista, êxito do roteiro, mais discreta, profunda e simples.

A “ROMA” da Cidade do México (bairro nobre do DF que empresta o nome ao filme) implica em outros contornos em relação àquela Roma do neorrealismo. E Cuarón, dirimindo ao longo do filme o esplendor visual sem nunca abrir mão da beleza, realiza um filme fundamentalmente latinoamericano, mas que se situa nas brechas que conectam diferentes mundos, nos níveis individuais e sociais. Diferenças de mundos que se mostram ficcionais assim que um encontro real entre duas pessoas, as duas mulheres, se verifica por conta das exigências da vida.