Cinematógrafo Double Bill (23/2): “The Doors” e “Velvet Goldmine”

O Rock como Pátria* é o mote da sessão especial de fevereiro do Cinematógrafo na Saladearte: um ingresso para ver dois filmes!

the-doors-live-at-the-isle-of-wight-web-730-optimisedEntre a Vontade de potência e a potência do Falso (dos curadores):

Jim Morrison, no show do The Doors “Live At The Isle Of Wight Festival 1970”, canta “sem mexer um músculo”, como se o Dionísio estivesse acorrentado. Entretanto, a performance do grupo, musicalmente impecável, e a atmosfera de uma agressividade contida que Morrison transmite, olhos fechados, o rosto barbudo sugerindo um ar de jovem profeta, e ainda a solitária luz vermelha que ilumina precariamente o palco e que inspira, por sua cor sanguínea que oscila nas sombras que a contrastam, um sentimento de conflito entre luz e sombra, entre a paixão que parece ter perdido o fogo mas insiste em sua brasa – “Light my Fire” é o grito que ecoa antecipando o clamor “This is the…

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Cinematógrafo de janeiro (sáb, 26): “O vento nos levará”, de Abbas Kiarostami

Cinematógrafo de janeiro: “O Vento nos Levará”. Dia 26/1.

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Para Abbas Kiarostami, um filme não deve se limitar a ilustrar um roteiro nem representar uma coisa; deve ser um acontecimento. Mas, em seus filmes, o princípio da incerteza, típico de filmes documentais, cumpre uma função fundamental na proposta estética do diretor, que oscila entre a realidade e o artifício. O acontecimento não se traduz num fato, portanto, nem numa obra fechada em si mesma. Trata-se, antes, de uma busca, de uma espera, de um filme sempre incompleto, não por lhe faltar algo propriamente, mas por oferecer tantas coisas que nos escapam para serem por nós recriadas.

Em “O Vento nos Levará” (Irã, Fra, 1999), uma equipe de filmagem, da qual só veremos o diretor, vai a um vilarejo para registrar o ritual fúnebre da senhora Malek, mas a morte da anciã demora de acontecer. O filme transcorre nessa espera que, esteticamente, se expressa pelo minimalismo e pela transcendência…

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nota: “ROMA”, de Alfonso Cuarón

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De início, um início que se prolonga por quase toda a primeira hora do filme, o artificialismo das imagens gera desconfiança e a beleza dos cuidadosos planos e enquadramentos se sobrepõe a qualquer possível encanto que a homenagem ao neorrealismo italiano poderia oferecer. É o próprio diretor e roteirista do filme, Cuarón, que, pela primeira vez na sua carreira, dirige também a Fotografia. Se, por um lado, essa onipresença diretiva harmoniza a ideia da obra imaginada com a estética que a realiza, por outro, aciona a tentação do preciosismo imagético.

É então que um acontecimento, enfim, dispara o drama. E esse drama, sensível, discreto e profundo, é o de Cleo. Desde o início a sua imagem protagoniza o filme. Mas só depois é que a sua presença se torna realmente dramática.

Cleo, saída de um vilarejo rural, é empregada doméstica de uma família mexicana de classe média do DF. O tema é o do abandono: homens abandonam as mulheres, a própria família, o filme (a narrativa de Cuarón é autobiográfica). As mulheres sofrem, mas vivem e enfrentam seus dramas, assumem seus respectivos cotidianos: por fora, rotinas e responsabilidades práticas; por dentro, toda a sensibilidade do mundo.

O drama de Cleo se dá em paralelo ao processo de abandono e separação conjugal de sua “patroa”. Mas desta, o filme, embora a mostre quase tanto quanto mostra Cleo, não nos permite uma aproximação. É Cleo, em seu murmúrio, sua escassez de palavras, sua contida vontade de alegria e desejo que transborda aqui e ali, sua inocência que se perde, sua dor e sua culpa, sua amizade… é Cleo que se comunica conosco, que nos dá a ver vislumbres de seu mundo, que nos revela o seu afastamento de “nós” ao mesmo tempo que nos afirma que não há nenhuma distância entre a sensibilidade essencial de mulheres ou homens separados por barreiras de classes, ou modos de pensar, ou pelo vendaval da história. Cleo atesta a sua igualdade a partir de sua abissal diferença.

E o filme de Cuarón nos conquista. Emociona. Impacta. Sua estética se transforma sutilmente, visita elementos poéticos (como o incêndio), fortemente dramáticos (como o homem violento que mata simbolicamente a filha prestes a nascer), e narrativos, como o vínculo que germina entre as mulheres tão distantes entre si, tão próximas num momento de tensão. Um momento único em que Cleo revela diretamente um sentimento seu, na praia, cercada pelas crianças que ela ajuda a cuidar e cujas vidas ela acabara de salvar. Na cena, um singelo heroísmo, num instante, dá lugar ao desabafo trágico, ao sentimento culminante que revela Cleo como a protagonista, êxito do roteiro, mais discreta, profunda e simples.

A “ROMA” da Cidade do México (bairro nobre do DF que empresta o nome ao filme) implica em outros contornos em relação àquela Roma do neorrealismo. E Cuarón, dirimindo ao longo do filme o esplendor visual sem nunca abrir mão da beleza, realiza um filme fundamentalmente latinoamericano, mas que se situa nas brechas que conectam diferentes mundos, nos níveis individuais e sociais. Diferenças de mundos que se mostram ficcionais assim que um encontro real entre duas pessoas, as duas mulheres, se verifica por conta das exigências da vida.

“Quarto Camarim” na Itália: o longa participa do Festival Omovies, em Nápoles

Depois de passar por diferentes festivais de cinema nas três Américas, Quarto Camarim desembarca na Europa: o filme participa da Mostra Oficial do 11º OMOVIES, Festival Internacional de cinema dedicado a temas e questões LGBTQ+.

Quarto Camarim

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Depois de passar por diferentes festivais de cinema nas três Américas, Quarto Camarimdesembarca na Europa: o filme participa da Mostra Oficial do 11º OMOVIES, Festival Internacional de cinema dedicado a temas e questões LGBTQ+.

Captura de Tela 2018-12-06 às 19.02.47Quarto Camarim passa no dia 11 de dezembro no Rainbow Center Napoli, via Antonio Genovesi 36 Napoli – Ingresso gratuito. Confira a programação no site do Omovies.it!

O filme narra a aproximação entre uma sobrinha, a diretora do filme, e sua tia Luma, depois de vinte e sete anos sem contato. Ambas protagonizam o filme, cada uma a sua maneira, cientes das tensões e aproximações que uma relação emergente tão delicada implica.

Quarto Camarim é o primeiro longa dos cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Entre abril e maio de 2018, o filme foi apresentado em cinemas culturais de 13 capitais brasileiras, pela Sessão Abraccine, iniciativa da Associação Brasileira de Críticas de Cinema para…

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Pequena analogia entre “Museu” (2018) e “Gueros” (2014), filmes de Alonso Ruizpalacios

Se em “Gueros”, o debute do diretor (em longas), a Cidade do México estrutura a Poética do filme, em “Museo”, a geografia é expandida e a história do passado do país, desde antes da Conquista, se cruza com o presente da trama, através de um jogo de desvios de significações: a história do povo maia e seus artefatos, subtraídos de suas tumbas e templos, são confinados ao Museu de antropologia; enquanto a história moderna, o “processo civilizatório”, saem das escolas e academias para retornar às paisagens de ruínas de uma civilização dizimada.

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Gael García Bernal, em “Museo”

Em “Gueros”, jovens de uma geração deslocada das grandes lutas políticas de seu tempo perambulam pelas ruas da Cidade do México em busca, talvez, de suas próprias identidades; em “Museo”, jovens perambulam pelo México, de Yucatán a Acapulco, em busca de um sentido para as suas vidas insignificantes.

Em “Gueros”, mitificavam e foram atrás de Epigmenio Cruz, um roqueiro mexicano obscuro, desconhecido e prestes a morrer, mas que teria feito “Bob Dylan chorar”. Em “Museo”, é Sherazada o mito a ser buscado. Ambos os mitos pessoas decadentes, mais imaginárias do que reais. Ambos os mitos não dão a mínima.

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Os jovens de “Gueros”

Ruizpalacios infiltra aspectos sociais, económicos, políticos e históricos em seus filmes. Sabe filmar imprimindo um ritmo dinâmico e inventivo, com simplicidade narrativa e sensibilidade crítica. Se incorre em “cacoetes de festival” aqui e ali, isso não compromete em nada a poética de seus filmes.

Aliás, esses cacoetes emprestam aos filmes uma atmosfera que mistura o pop, o comercial e o kitsch com uma boa dose de reflexão sobre a morte, a vida e a arte nisso tudo. Boa combinação.

Em tempo, gosto mais de “Gueros”. E o desfecho de “Museo” não está a altura do filme que nos conduziu até ali…

Cinematógrafo de novembro (sáb, 24/11): “La Lengua de las Mariposas”, um drama sensível sobre descoberta, amizade e a tragédia do fascismo

Nossa nota sobre o filme do Cinematógrafo deste mês “La Lengua de las Mariposas” (dia 24, sáb, no Cinema do Museu).

“La Lengua de las Mariposas” narra a relação de amizade entre um menino e seu professor que é considerado inimigo do emergente regime fascista. A sessão acontece no sábado (24) às 16h30, na Saladearte – Cinema do Museu (Corredor da Vitória, Salvador)

Nota dos curadores do Cinematógrafo, Camele Queiroz e Fabricio Ramos:

MV5BZTAwNzQ1MTktZDRmMi00OTZjLWJmNjctMGM3ZTQxNjNlYTA4XkEyXkFqcGdeQXVyMTA0MjU0Ng@@._V1_“Esses jovens fascistas não nasceram para ser fascistas”, respondeu Pasolini a Italo Calvino, em uma polêmica sobre os jovens infelizes em que o escritor teria dito: “Os jovens fascistas de hoje não conheço nem espero ter ocasião de conhecê-los”. Para Pasolini, ao contrário, talvez “uma simples experiência diversa na sua vida, apenas um simples encontro, tivesse bastado para que seu destino fosse outro”. Em “La Lengua de las Mariposas” (Espanha, 1999), filme de José Luís Cuerda, Moncho (Manuel Lozano), um menino de sete anos, tem um primeiro encontro desses com um velho professor, Don Gregorio (Fernando Fernán-Gomes)…

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“Quarto Camarim” participa de festivais de cinema em Salvador e em Nápoles, na Itália

Quarto Camarim participa da mostra competitiva baiana do XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, e da Mostra Oficial do 11º Omovies, que acontece em Nápoles, na Itália.

 

O primeiro longa de Camele Queiroz e Fabricio Ramos mostra a reaproximação de uma sobrinha – a própria diretora – com a sua tia Luma, depois de 27 anos sem qualquer contato. Para os diretores, trata-se de um filme proposta, que conjuga a vida mesma e a criação cinematográfica, o que resultou numa obra que abrange temas políticos, familiares e sobre o próprio fazer cinema.

Em novembro, “Quarto Camarim” participa da Mostra Baiana do XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, e em dezembro, da Mostra Oficial do 11º Omovies, que acontece em Nápoles, na Itália.

Em Salvador, as sessões do Panorama contarão com a presença dos diretores:

Dia 18/11 (domingo) às 17h30 – na Sala 2 do Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha.

Dia 20/11 (terça) às 19h10 – na Sala Walter da Silveira – Biblioteca Pública dos Barris.

TRAJETÓRIA

O longa participou de festivais internacionais (Canadá, Venezuela, República Dominicana e Itália) e de mostras no Brasil, além de ter sido escolhido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema para compor a 3a. Sessão Abraccine, que promoveu – entre março e abril de 2018 – exibições do filme em cinemas culturais de 13 capitais do país, seguidas de debates com críticos e convidados especiais.

Cinematógrafo homenageia Isao Takahata exibindo o dilacerante e sensível “Túmulo dos Vagalumes”

“Túmulo dos Vagalumes” completa 30 anos no ano da morte de seu diretor, que morreu em abril deste ano. O Cinematógrafo homenageia Takahata na sessão do dia 3 de novembro (sáb), às 16h30, na Saladearte Cinema do Museu.

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Em abril deste ano, o mundo da animação perdeu uma de suas mentes mais brilhantes que deixou como legado inúmeras obras que vêm marcando gerações. Isao Takahata foi um dos gênios criadores do gigante Studio Ghibli, ao lado de Hayao Miyazaki.

O Cinematógrafo apresenta o dilacerante “Túmulo dos Vagalumes”, realizando uma dupla homenagem: no ano da morte do diretor, a sessão exibe o filme que completa trinta anos em 2018.

Lançado, portanto, em 1988, “Túmulo dos Vagalumes” narra a história de duas crianças japonesas que, no fim da segunda guerra mundial, tentam desesperada e esperançosamente, sobreviver numa cidade assolada pelos constantes bombardeios aéreos e pela miséria que toda guerra traz…

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Cinematógrafo de setembro (sáb, 29) exibe “Doze Homens e uma Sentença”, de Sidney Lumet

O clássico de 1957 põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico. Sessão dia 29/9, às 16h30, na Saladerte — Cinema do Museu.

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Nota dos curadores: “Doze homens e uma sentença” (1957)

O que chamamos modernidade coincide, sintomaticamente, com a era das ideologias. No tempo das ideologias “é preciso decidir-se sobre o assassinato”, como refletiu Albert Camus. Não sobre o assassinato passional, individual. Mas sobre o assassinato institucionalizado, estatal, legal. Se matar passa a ter razões, inclusive razões de estado, é preciso assumir as consequências e buscar responder claramente à questão sobre o fundamento dessas razões, pois todos nós tomamos parte nela.

Em “Doze Homens e uma Sentença” (1957), o primeiro filme do profícuo diretor estadunidense Sidney Lumet, doze homens são convocados pelo Tribunal do Júri para decidir o destino de um jovem de dezoito anos, acusado de um crime hediondo: matar o próprio pai. Há uma regra básica para o veredito: os doze homens devem determinar, por unanimidade, se o jovem é culpado ou inocente. Em caso de dúvidas ou discordância entre eles, prevalecerá a presunção de inocência. Logo no início, o juiz adverte sobre a enorme responsabilidade que os jurados estão assumindo, lembrando a gravidade da pena a ser aplicada no caso de condenação: a pena de morte.

Para muito além da questão jurídica institucional que se instala à primeira vista, “Doze Homens e uma Sentença”, originalmente uma peça feita para a televisão escrita por Reginald Rose e dirigida por Franklin Schaffner (foi ao ar em 1954 nos EUA), põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico que atuam no nível individual e no das interações humanas. O que está em jogo quando se tem a responsabilidade de julgar o valor da vida do outro, respaldado pelo manto da legalidade e pela reivindicação de valores humanistas? No filme, amparados no discurso da responsabilidade cidadã, os jurados substanciam seus julgamentos, de forma consciente ou não, de boa vontade ou não, a partir de seus próprios preconceitos, interesses pessoais e até traumas individuais, que emergem de um substrato social e cultural carregado de racismo, xenofobia e moralismo. Cabe ao jurado 8, interpretado soberbamente por Henry Fonda, pôr em questão as certezas impensadas que resultam de automatismos apressados, e trazer para o primeiro plano a responsabilidade da reflexão para a tomada de decisões vitais em nome da sociedade.

Uma outra frente de discussão pode ser, paralelamente, acionada pelo filme: em tempos do que Tom Zé chamou de “Tribunal do Facebook”, o filme de 1957 pode ser visto em modo de analogia com a era dos ambientes digitais e os frequentes ímpetos de denuncismo, moralismo e embates políticos polarizados que grassam nas redes sociais, e que não raro descambam para dinâmicas acusatórias, de linguagem punitivista e, no limite, para linchamentos virtuais com consequências e proporções devastadoras para a vida de pessoas acusadas e lançadas ao escracho público sem qualquer possibilidade de defesa. Em casos assim, pela própria tendência amplificadora das redes sociais, inexiste qualquer parâmetro ou marco para se verificar sequer a veracidade das acusações. Esse tema se liga àquele da era das ideologias em que a razão política se converte, em certos contextos, em um esforço discursivo de negação do outro.

No âmbito propriamente cinematográfico, considerando especialmente os seus aspectos formais e dramáticos, “Doze Homens e uma Sentença” motiva boas discussões: o filme se passa quase que inteiramente no interior de uma sala e valoriza enfaticamente a performance dos atores e os diálogos entre os personagens. Estilisticamente, Lumet — sempre próximo do realismo — recorre a artifícios como o posicionamento orientado da câmera e de enquadramentos bem delimitados, para causar sensações de claustrofobia, proximidade ou distanciamento, segundo a progressão narrativa. O diretor, que realizou mais de 50 filmes ao longo de sua carreira, é considerado um grande retratista de Nova York e um dos últimos moralistas de Hollywood, cuja obra se debruça sobre temas relacionados às questões éticas e da integridade dos personagens.

“Doze Homens e uma Sentença” é um clássico, um caso raro de primeiro filme de um diretor que se torna obra-prima celebrada por críticos e cinéfilos. O filme foi indicado a três Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro), além de ter ganhado o Leão de Ouro no Festival de Berlim, em 1957. A sua atualidade, entretanto, é incontornável.

12 Angry Men, Estados Unidos, Drama, 1957, 96 minutos. PB. Direção: Sidney Lumet.

Por fabricio ramos e camele queiroz, curadores