[video] A política do cinema

Direção  l  Arthur Autran

A partir de depoimentos de profissionais e artistas ligados ao cinema, o filme contextualiza as políticas de Estado dedicadas ao cinema brasileiro desde a criação dos grandes estúdios nos anos 1950 até os contextos atuais.

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sobre “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado

“Cidade Baixa” busca estimular a identificação do espectador não habituado àquelas forças vivas, sem floreios dramáticos, que são a substância da vida do baixo meretrício, da baixa renda, do baixo calão, do amor não comercial.

“Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, nos propõe, logo em seu início, um deslocamento do nosso olhar para o lugar – e para o imaginário – dos personagens. O filme começa com uma negociação entre uma prostituta e dois rapazes, nos põe no meio de uma rinha de galos e, logo a seguir, expõe a violência física que, entre outras violências, atua no ambiente da baixa renda, do baixo meretrício, do baixo calão. Depois de apresentado o mundo dos três personagens, um único e permanente conflito constitui a narrativa: o triângulo amoroso entre karinna (Alice Braga), a prostituta, e os dois rapazes – amigos de infância – Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura). Na rinha, a briga entre dois galos, um branco e um preto, parece prenunciar, ilustrativamente, os futuros embates entre os amigos.

Deco e Naldinho vivem na Cidade Baixa, em Salvador, e frequentam o submundo do lugar que o filme busca  retratar com um esforçado naturalismo, preocupando-se com seus tipos, suas cores, seus traços históricos e seus riscos. Os dramas cotidianos são orientados pela busca da sobrevivência e de uma estabilidade sempre perseguida, mas sabidamente inalcançável (Naldinho chega a assaltar uma farmácia), todo um mundo de desejos e paixões, regados a suor e sangue, condicionado àquela realidade social da “baixa renda”.

A fotografia de Toca Seabra é primorosa e a câmera é inquieta quando a cena é inquieta, aproxima-se dos corpos, movimenta-se em travellings variados, enquadra e desenquadra de acordo com o grau de tensão – é uma câmera humana. Todos os elementos fílmicos – as cores, o ritmo e a música leve e forte de  Carlinhos Brown e Beto Villares – ora nos acalmam, ora nos fazem desejar ar puro. O roteiro de Machado e Karim Aïnouz não toma partido de nenhum dos dois amigos visto que um salva a vida do outro: Naldinho é ferido no bar em lugar de Deco, e este o leva para casa e cuida dele. Ambos valorizam a amizade mútua e nenhum deles tem mais alguém com quem contar. Embora o adiado conflito direto entre os dois hesite em deflagrar-se, a atuação de Lázaro Ramos faz Deco anunciar, a cada olhar e gesto, a iminência de uma tragédia. Afinal, o caráter de Deco é mais próximo da introspecção e ao mesmo tempo do rompante, enquanto Naldinho tem um espírito “bicho solto”, porém de caráter mais estável e decidido. O leitmotiv de Cidade Baixa é, por assim dizer, a “vida” mesma e tudo que dela resulta quando as razões derivam da busca da sobrevivência: incertezas, carências, sexualidade, violência e amor!

“Cidade Baixa” busca sim, estimular a identificação do espectador não habituado àquelas forças vivas, sem floreios dramáticos, que são a substância da vida daqueles que não vão aos shoppings, não cogitam estudar para concurso público nem sacramentam o casamento nas igrejas, em suma, daqueles jovens cujos anseios de vida não podem resumir-se a um projeto de estruturação financeira, mas antes, à experiência mesma da sobrevivência imediata. Mas nos aproximamos dos personagens, e até os compreendemos em alguma medida, porque eles invocam em nós o que há de mais essencial – são, claro, humanos, exaltadamente idiossincráticos, a um só tempo causas e sintomas de suas respectivas realidades, como todos nós. Mesmo alguém distante daquele mundo sente uma ânsia ancestral de intensidade e curiosidade por um mundo pleno de incertezas, ávido por ser descoberto em meio a sua selvageria, desconfiando que tais novidades, na verdade, sempre estiveram próximas.

Nesse sentido, Sérgio Machado resgata toda a carga de sua participação em trabalhos de Walter Salles, como “Central do Brasil” (1998) e também “Abril despedaçado” (2001), no qual foi roteirista em parceria anterior com  Karim Aïnouz. Ambos os filmes têm uma dimensão trágica, mas o primeiro ancora-se num “realismo social” ao passo que o segundo carrega no lirismo quase puro. Em “Cidade Baixa”, mais uma vez, Machado incorre na tragédia cotidiana, mas situa o filme a partir de uma estética – e também de uma ética – centrada no naturalismo. Em todos os trabalhos há catarse, que se manifesta através dos apelos narrativos que estimulam o espectador a liberar-se de seus interesses práticos cotidianos, narrando vidas excessivamente reais e cotidianas, mas sob uma perspectiva trágica. Trata-se de um efeito da estrutura do filme, isto é, do modo como ele é colocado diante do espectador. Como roteirista em “Madame Satã” (2002), Machado lidou com aspectos e matizes do submundo, mas o protagonista era rico em si mesmo. Em “Cidade Baixa” os protagonistas são pessoas comuns cujas nuances compõem a nossa realidade próxima (ainda que não vista) e até a nós mesmos, se nos olharmos com suficiente coragem.

Impressiona que o filme não tenha uma fala marcante em si mesma, por seu conteúdo ou idéia! Contudo, os diálogos, em seu conjunto, com suas falas carregadas de gírias e baianidades, permeadas de pausas, silêncios, gestos e respirações, constituem o próprio sentido do filme, potencializando a importância fundamental das interpretações, exigindo destas toda a carga dramática que, se não estão além da fala, situam-se além da frase. Todos os encontros dos personagens são intensos, nada é conclusivo exceto subjetivamente. Aliás, o filme termina sem um desfecho objetivo, e acerta também nisso. Se “Cidade Baixa” transborda a pungência da vida imediata, e o desfecho da vida é a morte, então, tal como na vida, a trama não acaba antes do fim, o final do filme não deve ser simplesmente dado, mas deve ser, sim, presumido ou conjecturado por cada espectador, segundo seus próprios olhares, invocando um exercício de vontades até onde se queira ir, como o fim de uma música que poderia trazer mais um refrão, mas encerra-se em fade out, legando-nos sua atmosfera mesmo depois de sua passagem.

Sensual e violento, “Cidade Baixa” nos apresenta personagens em carne e pele. Os galos saíram ensanguentados depois da briga na rinha, assim como Deco e Naldinho depois da troca de socos e pontapés nos becos da Cidade Baixa. O animal sem igual, mais profundo e mais forte, capaz de ódio e de amor, desprovido, no filme, de reverências religiosas, de apreciações estéticas. Ao Sagrado sobrepõe-se a sobrevivência, a arte é desafiada pelo drama em si mesmo. Karinna engravida, a solução é um aborto. Naldinho precisa de grana, a solução é um assalto. Deco precisa extravasar suas emoções, a solução é o boxe, independente de ganhar ou perder. Mas nenhum deles foi capaz – até ali, onde o filme não se conclui, mas pára – de abdicar um do outro. Afinal, há pontos de fusão naquelas vidas: Naldinho escapou da morte depois de esfaqueado; Deco parece se esforçar para manter-se de pé; e Karinna é uma moça errante, vivenciou um suicídio, fez abortos – é com a sua beleza refletida no espelho que o filme começa e é com a proximidade de seus olhos molhados e seu choro inescrutável que Sérgio Machado os abandona. “Cidade Baixa” é, não obstante os desencontros, um filme de encontros e reencontros.

CIDADE BAIXA (2005) / 110 min. – Brasil.

Diretor: Sérgio Machado
Elenco: Alice Braga, Harildo Deda, José Dumont, Ricardo Luedy, Olga Machado, Maria Menezes, João Miguel, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Débora Santiago.
Roteiro: Sérgio Machado, Karim Ainouz
Fotografia: Toca Seabra

“Yo, También”: tênue fronteira entre arte e documento…

Um feliz acaso me permitiu assistir – num festival de cinema em Salvador – o filme espanhol Yo, También (Álvaro Pastor & Antonio Naharro, 2009). O filme consegue desenvolver uma bela e arriscada história: Daniel (Pablo Pineda), o primeiro europeu com síndrome de down a se formar numa universidade, começa a trabalhar em órgão da administração pública, em Sevilla, onde conhece Laura (Lola Dueñas). Com o passar dos dias, ambos se envolvem numa relação cada vez mais profunda, que começa a despertar a atenção da família de Daniel e dos colegas de trabalho de ambos. A relação se complica quando Daniel declara à Laura – que não tem síndrome de down – que está apaixonado por ela.

A abordagem é delicada, com momentos de forte impacto dramático, mas sempre conduzida com humor, sutilezas e beleza. O filme adentra os sentimentos e a solidão de seus protagonistas – nas palavras dos diretores: …”Há duas cidades no filme, Sevilla e Madrid, como há dois protagonistas e dois mundos que se cruzam. E uma viagem que para ambos representará uma mudança em suas vidas. Para Laura, um reencontro com o passado. Para Daniel, o princípio da maturidade.”

Yo, También cumpre corajosamente uma função de cinema social, que pretende derrubar barreiras e preconceitos, em grande parte morais, e nos provoca a refletir acerca de nossas verdadeiras e mais essenciais incapacidades, que não se revelam pelo número de cromossomos. Segundo Daniel, ele se apaixonou por Laura porque ela o faz sentir-se como alguém normal. Memoravelmente, ela responde: “e para quê você quer ser uma pessoa normal?”.

Impactou-me muito a atmosfera realista – com uma câmera ao ombro por opção estética dos diretores – que, junto ao ritmo ágil e a excelente atuação – gera em nós uma sutil e enigmática empatia. Sobretudo quando vislumbramos que Daniel – ou melhor, Pablo Pineda, o ator que o dá vida – embora viva ali um enredo de ficção, outorga ao filme muito de sua própria experiência de vida. Tênue fronteira entre arte e  documento…

Creio que, embora o filme flua leve e com intensa simplicidade dramática (há muitos primeiros planos), Yo, También revela valentia ante temáticas cheias de tensões sociais e delicadas abordagens. O esforço e ousadia dos realizadores foram recompensados com a Concha de Prata no Festival de San Sebastián, e com o prêmio Goya de melhor atriz e melhor canção – “Yo, También”, de Guille Milkyway, aliás a trilha é mesmo um dos pontos altos do filme.

por fabricio ramos

documentário “hera” traz uma aproximação com poetas baianos

 teaser do doc

O documentário hera (2012) compõe um exercício de aproximação com poetas fundadores da revista Hera, publicação criada no início da década de 1970 que engendrou uma importante movimentação literário-cultural em Feira de Santana, com destacada reverberação na Bahia e significativa repercussão nacional.

Com a participação dos poetas, escritores e artistas visuais baianos Antônio Brasileiro, Washington Queiroz, Roberval Pereyr, Juraci Dórea, Wilson Pereira de Jesus e Uaçaí Lopes, o documentário propõe uma imersão na atmosfera poética de cada momento, valorizando os próprios poetas como sujeitos do documentário. Os poetas refletem sobre suas relações e amizades, comentam sobre suas motivações poéticas, sobre contextos contemporâneos e manifestam as suas visões de mundo, desde o local até o universal, oferecendo-se como sujeitos de um estmulante e provocativo registro.

A produção contou com o apoio da DIMAS – Diretoria de Audiovisual e Multimeios da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), que através do Núcleo de apoio à produção, o NAP, disponibilizou equipamento e a participação de dois técnicos cinegrafistas. O documentário tem duração de 1 hora e 23 minutos, e foi realizado sem aporte de patrocínios.Trata-se, portanto, de uma iniciativa independente do Bahiadoc – arte documento, com fins de contribuir para pôr em discussão um importante capítulo da nossa memória cultural.

O documentário pode ser ecessado na íntegra no espaço virtual dedicado a todas as infirmações relacionadas. Acesse: http://hera.bahiadoc.com.br

FICHA TÉCNICA:

direção l  fabricio ramos e camele lyra queiroz produção l  fabricio ramos e camele lyra queiroz câmera l  ivanildo santos silva e danilo umbelino assistente de câmera l  danilo umbelino edição, montagem e finalização l  fabricio ramos e camele lyra queiroz

cor  l  1h23min  l  2012  l  HD

documentário “Tempo da Travessia” retrata uma aventura baiana pela América do Sul

Do Blog do Bahiadoc – arte documento

Tempo da Travessia revela as intensas vivências culturais, sociais e políticas de 17 estudantes da Universidade Federal da Bahia que participaram da Caravana da Integração, uma viagem de ônibus por nove países da América do Sul.

O documentário Tempo da Travessia (2012) compõe um diversificado painel que revela as intensas vivências culturais, sociais e políticas, e também experiências de relações institucionais, de 17 estudantes da Universidade Federal da Bahia que participaram da Caravana da Integração, uma viagem de ônibus por nove países da América do Sul.

Os estudantes universitários estiveram, durante mais de dois meses, em contato direto com as realidades de diversos povos da América do Sul, registrando cada instante, desde o deslumbre com as impactantes belezas naturais do continente até os momentos de tensão e expectativa, seja no encontro com movimentos sociais, seja nas discussões internas dentro do ônibus, ou na vivência de diferentes (e às vezes intrigantes) contextos culturais.

O documentário, dirigido por Carlos Vin Lopes, junta às imagens oficiais (captadas com fins de compor o documentário) àquelas captadas pelos estudantes, espontâneas, e o doc apresenta tais estudantes segundo as impressões de cada um, escritas primeiro num diário de viagem e depois transpostas graficamente, pelo diretor, para a tela.

Tempo da Travessia tem duração de 106 minutos e foi realizado como parte do projeto da Caravana de Integração, ação articulada pela INULAT (Iniciativa UFBA Latina), que contou com o apoio especial da UFBA (Universidade Federal da Bahia); da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e do Centro Internacional Celso Furtado.

UM CASUAL IMPACTO SIMBÓLICO: PRIMEIRO REGISTRO NO BRASIL DE MÚSICA EM GUARANI

O documentário é inédito e está em fase de ajustes burocráticos finais, tratando, inclusive, da regularização do direito de uso de músicas para a trilha sonora, composta por músicas do CD Tery-Maraey, de 2002, do coral mbyá-guarani Kuaray ouá. O autor das músicas é Inácio da Silva, um jovem Karaí (pajé) guarani que vive na aldeia Marangatu do município de Imaruí (SC).

A produção do CD foi lançado com apoio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), mas a entidade não detinha os direitos de uso da obra. Para garantir o uso das músicas na trilha sonora do documentário, foi necessário registrá-las junto à Biblioteca Nacional, o que ocasionou um feito histórico de expressivo impacto simbólico, como explica Felippe Ramos, sociólogo e Coordenador da INULAT:

“O registro de obras em guarani era proibido devido a um decreto lei de 1755, parte da política do Marquês de Pombal, enviado pela Coroa Portuguesa ao Brasil cinco anos antes, inicia uma política de modernização do Estado e Sociedade, ainda Colônia. O objetivo era fortalecer a oficialidade da Língua Portuguesa, porque, até então, a língua mais falada no Brasil era a chamada Língua Geral, uma mistura de Tupi-Guarani com portugues, com predominância de traços indígenas.”

Tempo de Travessia está inscrito em diversos festivais e em breve será exibido em sessões especiais na UFBA e na UNILA. Acompanhe notícias sobre o doc no sítio oficial: http://www.tempodatravessia.com.br/

Publicado originalmente no  Bahiadoc – arte documento.

montagem e a criação da ideia

Segundo Marcel Martin, a criação da ideia é a função mais importante da montagem, e em seguida cita Pudovkin: “… não devemos nos contentar em observar passivamente a realidade. É preciso tentar enxergar muitas outras não perceptíveis a qualquer um. (…)”.

Em 1927, Eisenstein declarou a sua intenção de filmar O Capital, de Marx. Tal desafio, nunca concretizado, comprova o considerável aspecto ideológico que se pode imprimir à obra cinematográfica – quando, claro, há tal intenção.

Interessa-nos aqui a opinião de Bela Balazs (Lé cinéma, p. 154):

“O diretor não faz mais do que fotografar a realidade… mas é aí que ele decupa um sentido, qualquer que seja. Suas imagens são a realidade, é inegável. Mas sua montagem lhes dá um sentido, que pode ser verdadeiro ou falso. A montagem não mostra a realidade, mas inevitavelmente a ‘verdade’ ou a mentira.”

A montagem é também criadora do espaço e do ritmo, enquanto definidora da duração. Sobretudo no caso documental, a montagem revela a compreensão do diretor sobre o sujeito (fato ou ideia) de seu registro.