“Yo, También”: tênue fronteira entre arte e documento…

Um feliz acaso me permitiu assistir – num festival de cinema em Salvador – o filme espanhol Yo, También (Álvaro Pastor & Antonio Naharro, 2009). O filme consegue desenvolver uma bela e arriscada história: Daniel (Pablo Pineda), o primeiro europeu com síndrome de down a se formar numa universidade, começa a trabalhar em órgão da administração pública, em Sevilla, onde conhece Laura (Lola Dueñas). Com o passar dos dias, ambos se envolvem numa relação cada vez mais profunda, que começa a despertar a atenção da família de Daniel e dos colegas de trabalho de ambos. A relação se complica quando Daniel declara à Laura – que não tem síndrome de down – que está apaixonado por ela.

A abordagem é delicada, com momentos de forte impacto dramático, mas sempre conduzida com humor, sutilezas e beleza. O filme adentra os sentimentos e a solidão de seus protagonistas – nas palavras dos diretores: …”Há duas cidades no filme, Sevilla e Madrid, como há dois protagonistas e dois mundos que se cruzam. E uma viagem que para ambos representará uma mudança em suas vidas. Para Laura, um reencontro com o passado. Para Daniel, o princípio da maturidade.”

Yo, También cumpre corajosamente uma função de cinema social, que pretende derrubar barreiras e preconceitos, em grande parte morais, e nos provoca a refletir acerca de nossas verdadeiras e mais essenciais incapacidades, que não se revelam pelo número de cromossomos. Segundo Daniel, ele se apaixonou por Laura porque ela o faz sentir-se como alguém normal. Memoravelmente, ela responde: “e para quê você quer ser uma pessoa normal?”.

Impactou-me muito a atmosfera realista – com uma câmera ao ombro por opção estética dos diretores – que, junto ao ritmo ágil e a excelente atuação – gera em nós uma sutil e enigmática empatia. Sobretudo quando vislumbramos que Daniel – ou melhor, Pablo Pineda, o ator que o dá vida – embora viva ali um enredo de ficção, outorga ao filme muito de sua própria experiência de vida. Tênue fronteira entre arte e  documento…

Creio que, embora o filme flua leve e com intensa simplicidade dramática (há muitos primeiros planos), Yo, También revela valentia ante temáticas cheias de tensões sociais e delicadas abordagens. O esforço e ousadia dos realizadores foram recompensados com a Concha de Prata no Festival de San Sebastián, e com o prêmio Goya de melhor atriz e melhor canção – “Yo, También”, de Guille Milkyway, aliás a trilha é mesmo um dos pontos altos do filme.

por fabricio ramos

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