sinestesia do terror

Quantas bombas atômicas já foram detonadas em nosso pequeno planeta?

Jamais esqueceremos de Hiroshima e Nagasáki. Depois de 1945, bombas atômicas não foram usadas em guerras novamente. Na década de 50, entretanto, vários experimentos e testes para desenvolvimento de novas armas foram realizados por vários países. Durante os anos da guerra fria a aplicação da tecnologia nuclear alastrou-se: entre 1945 e 1998 foram detonadas 2.053 bombas nucleares em nosso próprio planeta!

O artista japonês Isao Hashimoto converteu, em 2003, tal estupefação numa diegese audiovisual, uma experiência estética que traduz o insano ímpeto de destruição que conformou a segunda metade do século nuclear e petroquímico, que ainda não terminou.

A obra “1945 – 1998″ revela um mapa animado que começa mostrando uns poucos pontos coloridos juntamente com efeitos sonoros, cada um dos quais representa uma explosão, obedecendo o ritmo histórico das detonações. Somente os EUA detonaram mais de mil bombas! A extinta União Soviética, mais de setecentas. Participaram também da insanidade a França, a China, a Grã-Bretanha, a Índia e o Paquistão. O resultado é uma sinestesia do terror:

[blip.tv http://blip.tv/play/AeaDFAI?p=1 width=”620″ height=”360”]


A atmosfera trágico-rítmica da obra de Hashimoto resgata um vetor talvez primordial da arte: a reflexão simbólica diante do absurdo, que neste caso, transcende a angústia íntima da consciência da morte e atinge o espanto consciente do desastre social politicamente organizado.

Os países que comandam o negócio da guerra são também os que zelam pela paz no Conselho de Segurança da ONU. Os países que referenciam em seus discursos as democracias de mercado não resolveram os problemas mais simples do mundo, como a fome, a miséria, a degradação ambiental e a paz.

Jorge Luis Borges, que tanto admiro, dizia que nós ‘somos todos fragmentos de um Deus que, ávido de não ser, se autodestruiu’. Cuidemos para que a nossa arrogante avidez não despedace uma vez mais o que restou desse deus que somos nós, os fragmentos.

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culturas em extinção

Como vemos o mundo?

Wade Davis, antropólogo pioneiro em pesquisa com plantas sagradas e botânica transcedental além de explorador da National Geographic, fala – no vídeo postado mais abaixo – sobre a importância da diversidade cultural e sobre o vetor fundamental de destruição humana: o Poder. As nossas relações com o meio – e com o outro – sempre vêm implicadas com a dominação, e esta, com a destruição.

Em vinte minutos, dos quais não podemos prescindir, Davis exalta a Etnosfera, essa rede de culturas, que é o grande legado de toda a humanidade, a soma total de pensamentos, sonhos, ideias, inspirações, intuições, trazidas à tona pela imaginação humana desde o alvorecer da consciência. Uma diversidade enorme de culturas, no entanto, está desaparecendo do planeta a uma taxa alarmante.

Especula-se que somos hoje o reflexo de um processo que já dura 150 mil anos, tempo de existência da espécie humana. Contemporaneamente, em nossa civilização ocidental, depois de séculos de amplo esforço para idealizar o real, passamos a enfrentar a ânsia de realizar o ideal. Que neste rico e árduo processo de existir, nós – humanidade – possamos aprender não a tolerar (tolerância é uma forma de hipocrisia), mas sim a respeitar as diferenças, convivendo com o fundamental aprendizado do outro.

Vinte minutos que nos propõe uma reflexão essencial sobre consciência e vida. Quem sabe, nossos desertos de experiências do mundo e da vida voltem a florescer…

Tongues Untied: arte, documento e desafio às representações sociais sobre raça e sexualidade

Marlon Riggs

Em 1989, Marlon T. Riggs filmou Tongues Untied (EUA), um ensaio aberto e construtivo sobre raça, gênero e identidade sexual, estruturado por meio de uma série de performances e narrativas elípticas e perturbadoramente urgentes. Riggs, jornalista, educador e poeta, transmite – rompendo todas as tradições da linguagem – o que ele e outros negros e gays como ele vivenciam crescendo em uma sociedade homofóbica e racista.

Sem argumento ou jogo afirmações, Riggs conduz o filme construindo elegantes e intensas performances, desde um rap até à angústia da perda de amigos para a AIDS; do relato de uma drag queen triste e solitária que narra histórias de agressões contra homossexuais até um clube gay de brancos que recusam a entrada de um negro. Tudo a partir de movimentos do corpo, dança, monólogos e conversas de rua.

O filme recebeu algum financiamento de departamentos de fomento às artes do governo dos EUA e causou furiosas reações de conservadores por conta do uso do dinheiro dos contribuintes. Em julho de 1991, a PBS exibiu o filme e gerou xingamentos e controvérsias entre seus assinantes – um terço deles manifestou com furor a recusa de executar o filme.

Marlon Riggs morreu de AIDS em 1994, aos 37 anos. Em sua abreviada trajetória deixou um breve legado – sendo o filme o seu último testamento – que até hoje constitui um desafio às normas sociais, especialmente sobre representações de raça e sexualidade.

nota: documentaristas são artistas

Jean Rouch, o etnógrafo francês que pensou o cinéma verité

Michael Rabiger (escritor, professor nos EUA, foi diretor de documentários da BBC e dirigiu ou editou mais de 35 filmes) comenta as duas históricas abordagens documentais: o cinema direto americano e o cinema verdade europeu:

“Documentaristas são artistas, eles fazem julgamentos subjetivos para revelar a verdade humana na tela. As diferenças entre as duas abordagens eclipsam-se quando você percebe que ambas dependem da edição para resumir, moldar e intensificar o que o tempo e o espaço separam. Por conta disso, o documentário compartilha muito com o filme de ficção.”

FOLI: não há movimento sem ritmo

À medida que o filme avança, o ritmo se revela presente em cada movimento cotidiano, e vai nos envolvendo com crescente e sensível exuberância. Em FOLI, THERE IS NO MOVEMENT WITHOUT RHYTHM (Foli, Não há Movimento Sem Ritmo), Thomas Roebers and Flortis Leeuwenberg realizam a montagem como criadora do ritmo. Fascinante!

FOLI é a palavra para ritmo nas tribos Malinké, povo que vive predominantemente na África ocidental. O filme foi produzido por Thomas Roebers e Floris Leeuwenberge que, juntamente com a equipe, filmaram durante um mês em Baro, Guineé, África.

Uma dica do facebook do Rogelio Casado.

arte, documento e culturas do sertão

Enfrentando mais um difícil período de seca, vaqueiros de diversas regiões do sertão baiano foram à Feira de Santana e desfilaram montados e encourados até o Centro de Cultura, onde participaram da Celebração das Culturas dos Sertões. O vídeo Vaqueiros da Bahia (5min) é uma breve homenagem do Bahiadoc – arte documento à força, coragem e à riqueza cultural que caracteriza o sertanejo. É importante ressaltar, entretanto, que a história e a cultura do vaqueiro, embora rica em si mesma enquanto força expressiva, liga-se estreitamente com a histórica questão do latufúndio no nordeste.

o primeiro McDonalds na Praça Vermelha!

Este breve e histórico documento audiovisual percorre a enorme fila para apreciar o primeiro BigMac em Moscou em 1990:

A queda do muro de Berlim representou o símbolo do fracasso do comunismo autoriário como regime (embora não do socialismo enquanto ideal), mas somente a fila para comprar um sanduíche no McDonalds de Moscou pôde nos atirar à cara a dimensão simbólica da vitória do capitalismo – todo um século de desejos que adentra neste nosso século como um império calcado em caprichos e ilusões na medida da miopia de cada um nós. A abertura econômica da União Soviética permitiu o acesso ao que era proibido: o livre consumo de mercadorias-símbolos do capitalismo.

Em 1990, a Rússia comunista inaugurou a sua primeira loja da rede McDonalds, em plena Praça Vermelha! O desejo de experimentar pela primeira vez um BigMac era tão grande que as pessoas formaram uma imensa fila que dava voltas nos quarteirões, e esperavam mais de 8 horas para saborear o hambúrguer.

Como nos contou o astronauta russo do inesquecível filme espanhol Los Lunes al Sol (trailer) denunciando o fracasso dos ideais hegemônicos que dividiam o mundo:

Dois camaradas se encontram na Rússia depois da queda do comunismo:
– Tudo o que nos disseram sobre o comunismo, afinal, era mentira! – disse o primeiro, desiludido.

– Sim. Mas o pior é que tudo o que nos disseram sobre o capitalismo, afinal, era verdade! – retruca o segundo.

Sete bilhões de Outros

Afinal, qual o sentido da vida? é uma questão universal: os sonhos, a tarefa impossível, os medos, o amor, a morte.

O projeto de vídeo-exposição “Sete bilhões de Outros” [ http://www.7billionothers.org/pt ], iniciado em 2003 por Yann Arthus-Bertrand, Sibylle d’Orgeval e Baptiste Rouget-Luchaire (dez anos depois do fotógrafo e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand apresentar ao mundo o seu documentário A terra vista do céu), apresenta um diversificado e representativo panorama da misteriosa e fascinante contingência da vida humana no mundo. Seis diretores filmaram mais de seis mil entrevistas em 84 países, inclusive no Brasil, buscando a maior diversidade possível de personalidades: diferentes meios sociais, faixas etárias, profissões, opções religiosas e diferenças étnicas.

Todos os entrevistados respondem às mesmas perguntas sobre “seus medos, sonhos, problemas, esperanças”: O que o amor representa para você? Que dificuldades enfrentou na vida? O que você aprendeu de seus pais e o que quer passar para os seus filhos?. Olham diretamente para a câmera, dirigindo-se ao espectador, propondo um exercício de aproximação, uma atmosfera de intimidade, uma certa cumplicidade que nos atrai – naquela relação mediada – para tudo em nós que é comum, universal, identitário com o outro – com todos os outros.

O resultado do projeto nos faz refletir: misturado a aparente diversidade das coisas e das cores, há em nós, sem dúvida, muito mais coisas que nos aproximam e nos unem do que coisas que nos separam. As nossas profundas semelhanças são muito mais essenciais do que as diferenças superficiais que tanto nos confundem.

A SCANNER DARKLY: ficção científica, drogas e vigilância

A SCANNER DARKLY (EUA, 2006)

Dirigido por Richard Linklater (Waking Life, 2001) e baseado na obra de Philip K. Dick (cujas histórias renderam outras conhecidas adaptações como Blade Runner e Minority Report), o filme A Scanner Darkly causa uma sensação de perturbação, não só pelo enredo psicocentrado, mas pela aplicação da técnica chamada rotoscopia, que transforma a filmagem em animação, possibilitando maior força na simulação de efeitos pscotrópicos e cognitivos.

A Scanner Darkly, 100 min. Direção: Richard Linklater. Estrelando: Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr., Woody Harrelson, Rory Cochrane.

O fato de o filme ser ambientado num futuro próximo inquieta. As tecnologias de vigilância utilizadas no filme para controlar uma sociedade consumida pelas drogas já existem (exceto uma roupa especial usada para manter em segredo a identidade de agentes secretos). Não nos é revelado quem está no controle de tal vigilância: o Estado? Algum outro tipo de instituição ou algum poder paralelo?

Com diálogos desorientadores e pensamentos neuróticos, o filme traz uma atmosfera reconhecível para quem já experimentou outros estados de consciência. A crítica às drogas é indireta e perspectivista e o desenrolar do enredo, até o final, faz crescer gradualmente a experimentação do absurdo de uma sociedade degradada pelas drogas, de um lado, e pelo controle abusivo, de outro – tendo no meio da merda toda o estilhaçado Bob Actor (Keanu Reeves), e por trás das cortinas decadentes, a indústria – no pior sentido da palavra.

nota: três pinturas cinematográficas

Em seu livro “A Linguagem Cinematográfica”, Marcel Martin recorre à análise das concepções do espaço pictórico desde a Renascença italiana até a pintura francesa dos impressionistas para inferir que “toda a história da pintura nos encaminha para a liberdade de ponto de vista que será a do cinema”.

De fato, Martin nos apresenta e descreve textualmente obras de diferentes pintores que parecem se esforçar para compensar por meios visuais a impossível expressão da temporalidade. Selecionei três referências que me parecem pinturas cinematográficas, por assim dizer:

1. Place Pigalle  l  (1880), de Auguste Renoir:

Place Pigalle (1880), de Auguste Renoir

Nesta obra impressionante, Renoir descobre o primeiro plano e a profundidade de campo, revelando uma composição fortemente dramática bem característica de enquadramentos especificamente cinematográficos.

2. O Absinto (No Café) l (1875-1876), de Edgar Degas:

O Absinto (No Café), (1875-1876) de Edgar Degas

Nesta célebre obra, Degas retratou duramente os efeitos da autoalienação na sociedade industrial, dramaticamente presente no rosto da mulher. O enquadramento é eminentemente cinematográfico pelo tipo de negligência de sua composição, dando-nos a sensação de um movimento de câmera interrompido. Negligência aí situa-se no contexto mencionado por Martin, para quem “tal desprezo da composição e do equilíbrio é absolutamente estranho à estética da pintura tradicional e mesmo da fotografia”.

3. Le Boulevard des Capucines  l  (1873), de Claude Monet:

Le Boulevard des Capucines (1873), de Claude Monet

Vemos surgir nesta obra, de forma evidente, o que será mais tarde a “fusão” na montagem cinematográfica: as pessoas e a paisagem em tons atenuados, como se o pintor quisesse sobrepor imagens umas às outras em diferentes momentos do dia.