“Inimigos Públicos” e a arte de narrar

Captura de tela 2013-02-23 às 13.31.47O criminoso, quase sempre, não está à altura do seu ato: ele o diminui e difama, e raramente os seus advogados são artistas o bastante para reverter a seu favor o belo horror do seu ato. Em “Inimigos Públicos” (2009) o diretor Michael Mann alcança a proeza de transformar em arte não só uma história do famoso assaltante de bancos John Dillinger – tantas vezes já adaptada para o cinema – mas também um roteiro repleto de lugares comuns de filmes de gângsters. O filme é uma adaptação do romance do escritor americano Bryan Burrough, ambientado na década de 1930.

Dillinger, interpretado por Johnny Depp, é retratado como um paladino da liberdade existencial e do desprendimento que busca inabalavelmente o amor de Billie Frechetti (Marion Cotillard), é caçado pelo burocrata J. Edgar Hoover (Billy Crudup) que disposto a tudo para fortalecer o F.B.I., elege Dillinger como o inimigo público número um dos EUA e contrata o policial ascético Melvin Purvis (Christian Bale) para comandar a caça obcecada a Dillinger.

Entretanto, o enfrentamento em campo entre o agente Purvis e o criminoso Dillinger não chega a compor um conflito suficientemente intenso para impressionar o espectador. Dillinger é o herói, superior no jogo a tal ponto que, enquanto fugitivo, visita o centro de investigações de seu próprio caso dentro das dependências do prédio da Polícia de Chicago. De início, a estrutura do roteiro já se declara, em certa medida, previsível. Contudo, o ritmo do filme com seus cortes precisos, elegantes movimentos de câmera e a encantadora fotografia de Dante Spinotti (que trabalhou com Mann várias vezes, inclusive em “O informante”) prendem até a descoberta de que a narrativa é, ao fim e ao cabo, um meio para a forma. Johnny Depp concentra em si toda a força e o brilho do caráter peculiar de Dillinger, ao passo que os outros personagens, mesmo os mais famosos como Baby Face Nelson, passam a depender de Dillinger para expressarem-se unicamente através de seus respectivos contrastes em relação a ele. Então Dillingger, quase onipresente no quadro, passa a nos seduzir e conquistar.

Não é novidade o fascínio que foras-da-lei imprimem no público, desde cowboys do velho oeste até os temerários cangaceiros das caatingas nordestinas, como tampouco é novo suas representações no cinema, inclusive as várias adaptações envolvendo a trajetória de John Dillinger. No caso do Dillinger de Depp, tudo que é complementar ou cede lugar ao essencial – ele chora sozinho, enquanto dirige seu carro, ao ver a sua amada Billie ser presa por sua causa. Aliás, o interesse súbito de Dillinger por Billie revela algo de seu caráter: uma mulher mestiça (filha de uma índia), pobre, direta e altiva – apaixonar-se por ela seria um desafio, possuí-la seria também uma transgressão. É a simpatia da personagem Billie e as reviravoltas do casal que renova a atenção ao filme. Os dois amantes se aproximam em meio aos riscos e incertezas, e a confiança e a liberdade extremada que Dillinger anseia – “eu vou para onde eu quiser”, diz ele – vê-se finalmente golpeada pelo afastamento forçado de Billie. Ele decide agir mesmo sabendo-se em desespero, contrariando as regras de seu falecido amigo, comparsa e conselheiro Walter Dietrich. Os métodos do FBI tornavam-se mais sofisticados (e mais truculentos) e também os métodos do crime: os assaltos a banco e a trens, especialidades de Dillinger, passaram não só a ser inúteis, mas sobretudo um incômodo para os chefes do crime organizado. O famoso fora-da-lei estava só.

É então que o final começa. Parece que Dillinger não muda a perspectiva através da qual sempre enxergou a existência, mas ele inverte a posição de onde ele a observa. Passa a correr todos os riscos, seu semblante resgata e reforça o interesse do espectador pelo filme mesmo depois de cerca de cento e vinte minutos, e, enfim, a trama atinge seu clímax: Dillinger vai ao cinema assistir Clark Gable, no papel de um enérgico gângster, em “Manhattan Melodrama” (que em português tem o sintomático título de “Vencido pela Lei”). Condenado à morte, Blackie, o personagem de Gable, diz para o carcereiro na prisão: “morra como viveu, subitamente. Tem de ser assim, não prolongue. Viver assim não significa nada.” Dillinger vê-se na cena, identifica-se plenamente, e a câmera se demora em close-up, captando seu olhar e um sutilíssimo e revelador sorriso na face.

Descobre-se que “Inimigos Públicos”, afinal, é uma obra de arte, um culto da forma e um exercício louvável de direção. Michael Mann não infringe as convenções clássicas do cinema Hollywoodiano, todavia imprime fortemente sua personalidade no filme, inclusive optando pela captação digital de boa parte das imagens. O Dillinger de Mann e de Depp queria existir, e a única e imperativa condição era livrar-se do tédio para realizar, na existência, a sua idéia de liberdade. Tinha que atirar à face do público que o inconformismo e a ação era a única saída para escapar da trivialidade da vida comum durante os anos da grande depressão. O romantismo que vai se desenvolvendo crescentemente em Dillinger vai se diluindo em matizes de serenidade e determinação, até desaguar numa quase vontade de fim. A vida, para ele, pode mesmo ser um depósito de fantasias, mas somente daquelas que ele se sente apto a realizar. Enquanto via Clark Gable como a si mesmo no cinema, a sua única fantasia era a de lograr o êxito final de um fim digno do herói que ele, ali, julgava ser.

Enfim, Mann não se interessa muito em propor paralelos entre aqueles anos 1930 e os nossos dias, mas deixa entrever que os proclamados inimigos públicos do Estado são o que o Estado não é: humanos no sentido mais pleno. O recrudescimento gradual dos métodos aplicados pelo agente Purvis, e a truculência, o despreparo e a ineficácia dos policiais, isto é, do Estado no combate aos “inimigos públicos” nos remete a determinadas conjunturas atuais.

A trilha sonora de Elliot Goldenthal é adequada e competente e o uso de músicas de época interpretadas por Billie Holiday bem como a breve participação de Diana Krall como crooner são marcantes. O figurino e os elementos cenográficas são discretos e precisos, acentuando a relevância das interpretações e potencializando a presença dos personagens, especialmente do personagem de Depp. Trata-se, evidentemente, de um filme histórico, mas para Michael Mann, os fatos não se fazem necessariamente fundamentais. Ao domínio da vida mesma pertencem os fatos, mas um filme precisa de história.

por fabricio ramos

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