Nota: Amantes Constantes (Les amants réguliers), de Philippe Garrel (França, 2005)

Les amants réguliers revela as relações de jovens com o amor, a arte e o anseio de liberdade, na França de 1969, no sterteur do emblemático maio de 68.

François (Louis Garrel) é um jovem poeta que, junto com os amigos todos ligados à militância política, à arte e ao ópio, se apaixona por Lilie (Chotilde Hesme), e vive com ela a experiência de existir em meio à paixão e a um futuro ameaçador que se anuncia na incerteza de se poder realizar revoluções íntimas e coletivas.

Não tão distante das complexas questões que dilaceram o pensamento da esquerda atual, um dos personagens mais ativos nas ruas pergunta “como é possível fazer uma revolução pelo proletariado, apesar do proletariado?” Os sindicatos parecem ter mais medo da revolução do que os patrões, e os próprios jovens militantes não sabem ao certo que mundo viria a nascer do anarquismo que tanto os atraía.

O diretor  Philippe Garrel lançou reflexões sobre o autoritarismo intrínseco de uma sociedade organizada e referenciada pelo Estado, agenciando as tensões entre o indivíduo e a sociedade, entre o histórico e o circunstancial, entre a vida mesma e a potência de viver. François, o jovem poeta, enfrenta um julgamento militar por ter se recusado a alistar-se no Exército. Em sua defesa, o advogado argumenta que “há outras maneiras de servir ao orgulho e à honra do país”, implorando aos militares que não matem um gênio criador, um possível grande poeta, antes mesmo de nascer. Um militar contrapõe dizendo que Baudelaire e Rimbaud deviam ter sido presos. Philippe Garrel polariza, nesse caso, entre o autoritário e o libertário, entre o poeta e o militar. Mas, para o bem da riqueza narrativa do filme, mobiliza – no todo – um teatro de palcos múltiplos.

As preocupações dos jovens companheiros aumentam quando Antoine, o burguês que em nome do ópio ajuda a sustentar a todos, decide ir embora para o Marrocos. Tudo começa a se fragmentar, e Lilie é capturada, por assim dizer, pela oportunidade de ir para a América… trabalhar. Aliás, o filme todo em preto e branco, e com um estilo de enquadramento que suprime espaços, sugere uma opressão constante (mais constante do que o amor). Tudo que nos jovens quase desesperados não pode ser assimilado pelos interesses do sistema, deve ser sufocado, solapado, ou arrancado à força, seja pela polícia ou pelo virtual medo do futuro.

Um filme de belezas constantes, mas severo em seu ritmo e em seu drama. Sob o risco de ter me deixado atingir no meio do coração, afirmo que Les amants réguliers anuncia melancolicamente, remetendo à acusação de Albert Camus, que o tempo da rebeldia passou e deu lugar ao tempo dos revolucionários. François, diante do fracasso vivo de seus anseios de liberdade e amor, dorme a sua derradeira “noite dos justos” – ele se deixa morrer.

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