fazer cinema: atitude atlética ou estética?

Werner Herzog, questionado sobre “o desafio intelectual durante a filmagem”, respondeu causticamente que “a produção cinematográfica é atlética, não estética”. Segundo Herzog, a maior parte da filmagem é tão desgastante que o pensamento sofisticado é quase impossível.

François Truffaut, em “A noite americana” (1973), filme cujo personagem central é um diretor passando por inúmeras complicações (interpretado pelo próprio Truffaut), confidencia que no início de cada processo de filmagem pensa que fará o melhor filme, mas quando está no meio da filmagem, só pensa em chegar vivo até o final.

François Truffaut

Cineastas experientes, parece, raramente contam com a inspiração espontânea, imersos sempre num ritmo de trabalho cujas demandas os consomem por completo. O pensamento e o planejamento investidos antes de começar a filmar – junto ao aprofundamento da hipótese de trabalho – podem, portanto, definir muitas situações de filmagem que favorecem um trabalho criativo, livre de problemas que sempre poderiam ser previstos e contornados com eficácia.

No caso de realizar um documentário, processo em que as tensões éticas são diferenciadas e complexas (numa ficção se pode brincar de deus e as tensões – mesmo éticas – são de outra natureza), busca-se propor uma visão da realidade. Há sempre uma relação com o drama no documentário, mas o espaço para o planejamento é condicionado a certos limites (sobretudo éticos, mas também ligados ao acaso).

Entretanto, seja em ficção ou em documentário (ou tudo junto), certos princípios básicos são essenciais. Na construção fílmica da significação, o pensamento, a criatividade e o planejamento (mesmo para as mais plenas incertezas) cumprem papel decisivo, e serão tanto mais eficazes se partirem de experiências vividas, oriundas do desenrolar da própria vida, em vez de se sustentarem em teses narrativas pré-definidas. Se Truffaut e Herzog – não obstante todo o atletismo e a angústia que marcam seus trabalhos durante a filmagem, como disseram – realizaram grandes obras, creio que o êxito se deve, precisamente, ao grau de pertencimento, isto é, às suas profundas ligações com as suas próprias obras, com o pensamento delas, e com o realizá-las. Não reivindicaram a verdade, mas se tornaram parte dela – e é isso que pode tornar um filme poderoso.

Fazer cinema: atitude atlética ou estética? Como queiram, mas é sobretudo Ética! Não?

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