Corumbiara: o massacre que não pára

Corumbiara (2009), documentário de Vincent Carelli, investiga o massacre de um grupo indígena por fazendeiros em Rondônia na década de 1980.

Vincent Carelli com índios em Corumbiara

“Corumbiara é o nome de uma gleba de terras em Rondônia, demarcada e vendida pelo Governo Federal durante a Ditadura, cujos novos proprietários ordenaram o massacre de um grupo indígena que ali vivia. À época, Vincent Carelli e Marcelo dos Santos, indigenista da FUNAI, investigaram os vestígios do massacre, mas não lograram convencer as autoridades e o país da brutal realidade do que ali ocorrera – isso não interessava a ninguém. Marcelo acabou desacreditado e foi proibido de permanecer na região. Anos depois, em sucessivas viagens, os dois retornam à região para retomar a investigação e seguir o rastro de índios que, acreditavam, poderiam ser sobreviventes do massacre. O documentário segue inconcluso até que, em 2006, Carelli retorna mais uma vez à região.” (Sinopse extraída de texto sobre o doc, cuja leitura eu recomendo, no sítio Olho de Vidro).

Em Corumbiara, o trabalho de investigação e registro audiovisual de Vincent Carelli em cooperação com Marcelo dos Santos é concluído vinte anos depois de seu início, resultando num monumental documento que expõe graves denúncias localizadas e também estruturais, e propõe reflexões profundas sobre o processo histórico recente de recolonização da Amazônia, perpetrado através do secular e sistemático extermínio das identidades indígenas, tendo como principal violador dos direitos humanos o próprio Estado brasileiro, em articulação com latifundiários.

Corumbiara recebeu, em 2009, menção honrosa no Festival É Tudo Verdade, foi premiado no 11o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, e incluído na seleção oficial do Festival de Gramado, além de muitas outras premiações posteriores. Reporto tais êxitos para indicar que o filme alcançou, com tais inserções em importantes festivais, um público significativo (não em número, claro, mas em potencial de formação de opinião). Diante de tão impactante e perturbadora denúncia, entretanto, o quê o país  – enquanto sociedade politicamente organizada sob o lema da democracia e dos direitos humanos – tem feito para combater os abusos, sobretudo institucionais, que culminam com massacres de vidas, exploração e usurpação de direitos básicos de povos indígenas? Hoje, a política de perseguição e destruição das identidades indígenas recrudesce, e os fatos e atos do Governo e de latifundiários criminosos estão ampla e criteriosamente documentados.

O Governo Federal, através de portaria da AGU (Advocacia-geral da União) publicada no Diário Oficial do dia 17 de julho, restringe o direito dos índios sobre suas terras sob a justificativa de garantir a “segurança nacional”, esta segurança que se pauta nos interesses de restritos grupos de poder econômico que controlam atividades exploratórias ligadas aos oligopólios do agronegócio, à mineração e ao setor de energia. Historicamente, sobretudo na Amazônia Legal mas também em tantas outras regiões, os conflitos civis que envolvem lutas populares e esferas políticas institucionais são marcados por interesses escusos, condutas irregulares, mentiras, assassinatos e outras obscenidades. A inexistência de uma reação coerente com a gravidade da situação que enfrentamos continuadamente me leva a crer que alimentamos um gosto social pelo massacre – seja na Amazônia e nas zonas rurais de todo o Brasil, seja nas cada vez mais violentas cidades brasileiras.

Corumbiara é um documentário cru: a sua principal preocupação é a forte consciência de seus propósitos, em lugar de autoritarismos formais. A relação das questões indígenas com as políticas de governo que favorecem dinâmicas de exploração do trabalho e degradação ambiental mantém-se dramática hoje, como revelam os casos das construções das Usinas de Belo Monte, de Santo Antônio e Jirau (cujas obras passam por sucessivas greves operárias e causam graves impactos irreversívesi aos ecossistemas) e como revela a mencionada portaria da AGU, alcunhada pertinentemente de AI-5 indígena, sem perspectivas ou tendências de mudanças futuras. O documentário revela ainda a corrupção de entidades como a FUNAI e – en passant – acaba abordando o exdrúxulo papel da Fundação contra as lutas sociais de trabalhadores pela terra em Rondônia.

Abaixo, o documentário Corumbiara na íntegra: uma experiência audiovisual documental da qual não podemos prescindir, pelo menos até que se torne insuportável a postura de mera indignação passiva diante de tantos e tão continuados escândalos e violências contra tudo o que consideramos valor humano.

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4 respostas em “Corumbiara: o massacre que não pára

  1. É curioso que eu viva no Amazonas e conviva ou conheça tão pouco a respeito dessa crueldade persistente praticada pelo invasor branco aos índios. Penso que diante de tudo que já foi feito aos índios o melhor mesmo é não haver contato. É um belo documentário, mas o que trouxe de benefícios aos índios? O mérito está em narrar, claro, a história, mas como se viu, os próprios documentaristas repensaram sua prática ao perseguirem o índio “do buraco”. Uma relação de culturas diferentes que está longe de se resolver. “Eles querem viver, brancos”, eles já vivem em paz ,sozinhos, portanto, deixem-nos em paz.

    • Um problema compelxo mesmo Stéphanie!
      Entretanto, o documentário não tem a obrigação de trazer benefícios aos índios. O autor – inserido com pertencimento no caso – quis provar a existência de um índio isolado numa área de sangrentos conflittos de interesses de poderosos. O índio seria um remanescente de um grupo que foi dizimado. Nenhum ser humano foi feito para viver isolado numa mata, e penso que aquele índio (embora mereça viver em paz como queira), teria mesmo que ser registrado para forçar ações sérias por parte do Governo e da sociedade civil, que são o Poder no país chamado Brasil que começou após a invasão exterminadora mercantilista que chamam descobrimento. Enfim, elites estabeleceram aqui uma grande empresa chamada Estado Brasileiro, e até hoje dizimam sistematicamente identidades indígenas e vidas de índios, negros e pobres de todos os lados. É preciso, portanto, revelar isso (mesmo casos isolados, mas emb;emáticos como esse) para que não possamos dizer que não sabíamos.

      • Tudo bem, não tem obrigação, mas o que foi feito desde que se soube do caso?
        Desculpa, mas penso também nessa espetacularização feita em torno dessa causa. Como disse, o mérito do documentário está em registrar a situação dos indígenas, mas… quem produz o documentário ganha prestígio, lucro e estima, e os índios?? Acho que já estou pensando além da “Arte”. Não se deve desprezar, é claro, o trabalho do produtor, mas questionar algumas nuances que passam como ingênuas.

      • Sim Stéphanie, vc não está errada quando lança essa questão (sobretudo dos benefícios posteriores do documentarista). Esse é um dilema ético essencial do pensamento de um documentarista. Entretanto, a essência de um projeto documental como este está em seus propósitos, e o público deve inferir a honestidade (ou não) do filme. Cabe a nós julgá-lo sim, pelo que o filme constroi, mas sem imputa-lo uma responsabilidade que ultrapassa seus propósitos.

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