nota: nós, Salvador e “A Cidade”

“Somente depois de teres deixado a cidade verás a que altura suas torres se elevam acima das casas.”

The City (1939), clássico documentário de Ralph Steiner e Willard Van Dyke, parte da tese de que a existência urbana se tornou mais um fardo do que uma alegria, um lugar que esgota a energia e o entusiasmo das pessoas pela vida. Recorrendo a uma lógica informativa, propõe uma solução conclusiva alcançada a partir do exame histórico do problema: o estresse urbano.

THE CITY representa alguns dos ideais e atitudes características dos meios intelectuais de Nova Iorque. Apregoando um enfoque progressista, humanista e essencialmente socialista do planejamento urbano, o filme, com o seu tom fortemente utopista correspondia ao teor da Feira Mundial de 1939 e ao seu tema, “O Mundo de Amanhã”, mas os seus autores tinham motivações nobres. Acreditavam que muitos americanos apreciariam a oportunidade de viver numa “nova cidade” ou num lugar semelhante, embora eles imaginassem algo mais integrado e comunitário do que os subúrbios que se espalharam pelo país a seguir à guerra. – Howard Pollack, Aaron Copland – The Life and Work of an Uncommon Man (1999)

Cabe lembrarmos que o filme foi financiado pelo American Institut of City Planners, entidade que representava um grupo com interesses reais na suburbanização da paisagem norte-americana. O subúrbio nos EUA – diferentemente do Brasil, onde o termo designa áreas de precária infra-estrutura urbana – se caracteriza, predominantemente, por comunidades planejadas, com áreas verdes. O termo suburbia, nos países de língua inglesa, se refere ainda a um estilo de vida tipicamente monótono, fútil e consumista.

O cenário urbano contemporâneo não atende às necessidades humanas mais elementares, sendo projetadas, digamos assim, apenas como infra-estrutura para o desenvolvimento econômico, ou – no caso de Salvador – como um arranjo urbano a serviço de interesses privatistas, cujos moradores são, em sua maior parte, um problema a ser controlado, e em outra escala, um mercado a ser explorado.

A despeito desse contexto estrutural (que remete ao Brasil como um todo) e do caótico quadro de abandono urbanístico, Salvador tem dezenove quilômetros de uma bonita orla atlântica, mais outros tantos da belíssima orla da Baía – uma cidade cercada de mar, praias e belezas naturais por todos os lados – e farta em riquezas históricas e culturais, arquitônicas inclusive.

Zona norte de Salvador (foto: fabricio ramos)

Mas o que se vê na cidade é, paralelo a uma deterioração dos setores nobres e ao marcante precariado das favelas e periferias, é uma proliferação de shoppings centers, e ampliações dos já existentes. Caixas de concreto que encerram as pessoas para fazê-las consumir ao mesmo tempo em que dão às costas à cidade e, mais grave, à realidade mesma da cidade.

Não faltam ilusões empenhadas em medir o pensamento e valorar e definir a vida mesma pelos referenciais da profissionalização, do utilitarismo, em suma, do hipereconomicismo. Visões de mundo publicitariamente fabricadas. Tudo em nós que não é atraente para o Mercado é reprimido drasticamente ou se deteriora por falta de uso – e a cidade reflete,  com precisão espacial, essa geografia de vida.

Em 1939, ressalvando os contextos de sua época e lugar, The City já expressava que o plano urbano já havia ficado aquém das necessidades humanas. A citação no topo do texto é de Nietzsche, numa passagem em que o filósofo se refere metaforicamente, claro, a outros contextos que ultrapassam a cidade. Mas é lícito que a encaixemos aqui: as torres simbólicas (e reais) se elevam e se impõem sobre nós. E tais torres são, muitas vezes, tão opressivas quanto amadas.

Mas nesses tempos em que falamos de amor, do fascismo contemporâneo e da ruina dos atuais impérios, e nas caixas de concreto que encerram a cidade, lembro de uma canção da jovem senhora Laurie Anderson, do álbum Homeland, que nos exorta a reagir contra a ausência de inquietação que tende a prevalecer em nossa época: “Um rato demora a perceber que está numa ratoeira/ mas, quando percebe, algo dentro dele nunca mais para de tremer”.

The City – part 1

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