nota: “Elefante Blanco”, de Pablo Trapero

O sacrifício é a mensagem e o exemplo, onde já não é possível a racionalidade.

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Em Elefante Blanco (Argentina/Esp, 2012), o diretor Pablo Trapero elege, tal como em seu trabalho anterior “Carrancho”, os atores Ricardo Darín e Martina Gusman como protagonistas, incluindo desta vez o belga Jéremie Renier, um “ícone do drama social europeu” cuja presença é recorrente na obra dos irmãos Dardenne.

O filme conta a história de dois padres, Julián (Darín) e Nicolás (Renier) que juntos com a assistente social Luciana atuam na “Cidade Oculta”, favela de Buenos Aires marcada pela precariedade urbana, pela violência social e pelo tráfico de drogas, e enfrentam problemas com traficantes e com a polícia, ao passo que lidam com o Estado e a Igreja. O elefante branco é um prédio faraônico localizado na mesma favela, cuja construção – iniciada em 1930 a partir da ideia de um socialista – foi interrompida várias vezes em diversos períodos, e até hoje não foi concluída. A ideia era que o prédio abrigasse o maior hospital da América Latina, mas agora abriga famílias sem-teto e, abandonado, serve como ponto de uso de drogas para adolescentes.

elefante_blanco2As questões sociais se fazem impiedosamente presentes no filme, mas as questões espirituais dos personagens, especialmente de ambos os padres, relacionadas à Fé religiosa, à culpa e ao sentido de suas vidas é que constitui a substância de Elefante Blanco. Por isso mesmo o filme, aliás, visualmente magnífico, não se inscreve no subgênero chamado sarcasticamente favela-movie, como acusaram alguns, insinuando uma emulação de nosso Cidade de Deus. A elegância formal do filme, traduzida pela bela fotografia, pelos enquadramentos, pelos excelentes movimentos de câmera e pelo uso inventivo da música (de Michael Nyman), conforma um eficaz equilíbrio com o feio, com a lama e com o sangue das vidas e ruas da favela. As preocupações sociais de Trapero recorrem às abordagens estética e, tal como vejo, emocional – muito bem vivificada pelos dramas dos personagens.

Captura de tela 2012-12-10 às 15.30.09A história em si, portanto, não surpreende nem arrebata, mas alguns contextos dramáticos e simbólicos certamente não são isentos de forte significado e ensejam impactantes reflexões. Gente que já se envolveu, em algum grau, em lutas sociais que orbitam a veemente desigualdade social no Brasil (tal como na Argentina e em nossa sangrada e sangrenta América Latina, para ficarmos nas Américas), compreenderá o sofrimento de Julián, que se sente cansado ao ponto de temer acabar “odiando as pessoas” e declarar ao seu amigo Nicolás (este se sente culpado por ter sobrevivido a um massacre na Amazônia sem lei, cena que introduz o filme), que “ser mártir é fácil, ser herói é fácil. Difícil é fazer o trabalho de todos os dias com a consciência de que ele é insignificante”.

É Julián que encarna o sentido trágico do filme, ao passo que Nicolás vive a crise permanente que funde culpa e dúvida, convertendo-o num personagem de comportamento instável e temerário, e sempre disposto ao sacrifício. O sacrifício, aliás, é o leitmotiv de Elefante Blanco, em meio às reflexões que propõe acerca da miséria, da religião, da política e das paixões humanas. O sacrifício é a mensagem e o exemplo, onde já não é possível a racionalidade. Julián precisa estar na favela, mediar conflitos, orientar jovens viciados, enfrentar a Polícia e não se deixar dominar pelos traficantes, mas também precisa negociar com o Bispo os problemas financeiros que imperram a construção das casas para moradores da favela, obra na qual eles mesmos, os moradores, trabalham e que é financiada por articulações entre Prefeitura e Igreja (Estado e Clero).

Uma atitude quase mística e muito combativa – a de Julián – que se defronta com as idiossincrasias da fé popular, com as engessadase distantes formalidades hierárquicas da estrutura da Igreja e com o Estado, cuja presença na favela não se dá de nenhuma forma senão pela mão pesada da Polícia, seja para matar favelados ou para salvaguardar os interesses das elites.

foto-elefante-blanco-2-841Em um momento, Julián nos diz que a ideia do Hospital, que se tornou o elefante branco, foi de um socialista de 1930. Despropositadamente, podemos auferir que o socialismo é bem intencionado, mas irrealizado – as suas práticas precisam se recriar a partir de novas e duras realidades (como diz o padre Julián, “a violência de hoje já não é a mesma, mas o amor é o mesmo”), a partir dos simbólicos escombros (sociais, históricos e humanos). O trabalho de Julián é insignificante, mas a sua vida e prática – e mesmo o seu cansaço – revelam a coerência com de sua Fé – Julián, afinal, foi investigar um suposto milagre atribuído ao padre Mugica, que trabalhou na “Cidade Oculta” por quarenta anos e morrera há trinta e sete. Uma mulher se dizia curada pelo padre Mugica, e o Bispo pediu que Julián a ouvisse para sustentar um pedido de beatificação junto à Roma. Julián procura a mulher, a encontra e a ouve atentamente – em parte, penso, pela estima que tinha pelo nome do Padre Mugica, em parte para se aproximar, de alguma forma, de um milagre.

Em Elefante Branco, não é a narrativa, que passará por desinteressante para muitos, que merece a nossa maior atenção, mas sim os conflitos dramáticos e os desafios íntimos que a perpassam, revelando o esforço de pessoas que, independente das suas razões, se dedicam por inteiro à uma luta, com suas dúvidas sim, com seus medos, com suas raivas e suas culpas. Mas num mundo em que as crises financeiras são notícia e as catastróficas crises humanitárias são esquecidas (ou ocultadas…), importa sentir que o cinema segue valorizando as pequenas insurreições contra o esquecimento e a miséria.

Trailer:

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