nota: “O Som ao Redor” e o cinema que vale

mko13

Kléber Mendonça Filho

Como artistas, talvez, não necessitamos intervir nos assuntos de nossos tempos, mas como seres humanos sim, necessariamente. Em O Som ao Redor (2012), o crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho aborda a velha e fundamental questão da terra, cujos conflitos são transpostos para o cotidiano urbano de uma rua de classe média no Recife, dominada pela família do senhor Francisco (W.J. Solha), herdeiro do tempo dos engenhos, atual negociante que tira proveito da voraz especulação imobiliária na cidade.

O filme – através de um naturalismo quase documental com pontuais, breves e surpreendentes homenagens ao terror – mostra que as tiranias se aperfeiçoam e, no caso, se revelam na forma de relações sociais baseadas em novas dinâmicas de exploração e de conflitos de classe, que parecem mais sutis mas são mais totais, que se dão em um cenário de muros e grades sob forte aparato de vigilância humana ou eletrônica, ou mesmo que se manifesta no humanismo típico da classe média, ao mesmo tempo tolerante e indiferente, preguiçoso e imóvel, politicamente esvaziado.

Kleber realiza, em O Som ao Redor, o cinema que atua ao lado do cotidiano, a partir de versões alternativas e também subjetivas da história e de uma visão orgânica da política, sem que se sacrifique a natureza artística da ação. Indica que o tempo dos cineastas passivos deve, de novo, acabar: não se trata de transpor o cinema para qualquer predicação social, mas sim de afirmar a importância imensa do cineasta que intervém enquanto ser humano, o ser cultural, e tudo isto constitui e interfere na linguagem artística. Afinal, os valores criativos jamais se separam dos valores humanos.

A repercussão do filme no Brasil e no mundo e a recente polêmica entre Kleber Mendonça Filho e Cadu Rodrigues, diretor-executivo da Globo Filmes, confirma que o filme constitui em si um registro que revela, de modos diversos, a relação do espírito da época com o autor e, claro, com o público, que reage frente à representação de seu próprio universo na tela.

O filme também acaba por documentar, informalmente, as suas próprias condições de produção em vários níveis. Kleber declarou que “o sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto”. Isto é, para além da necessidade imperativa de uma estrutura cinematográfica industrial, o cineasta se entusiasma e defende que o que vale é o cinema, abre discussões, rompe silêncios criminosos, mexe em assuntos sagrados e enfrenta o perigo de sua própria vocação.

Importa sentir que, ao nosso redor e tão próximo, aqui no nordeste através da cena recifense, o cinema segue valorizando as pequenas insurreições a favor de si mesmo – e de tudo o que o cinema representa e pode, sempre, vir a ser.

Yoani Sánchez em Feira: as contradições vão além da Ilha

O documentário Conexão Cuba Honduras, de Dado Galvão, traz as participações de Raúl Castro, Eduardo Suplicy e, entre outros, da blogueira cubana Yoani Sánchez, dissidente do regime castrista. O filme – sobre liberdade de expressão e direitos humanos – seria exibido ontem, 18 de fevereiro, em Feira de Santana, Bahia, com as presenças de Galvão, cineasta, de Yoani e do senador Suplicy. A exibição, entretanto, foi cancelada devido aos protestos de militantes, em boa parte ligados ao PT e ao PCdoB. O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’, mas o evento se tornou inviável.

Captura de tela 2013-02-19 às 10.52.41

O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’

Mesmo depois da recente lei migratória adotada em Cuba (maior flexibilidade para que cidadãos cubanos pudessem viajar ao exterior), Yoani teve negada pelo Governo a emissão de seu passaporte, tornando a “falta de liberdade” em Cuba um dos eixos da atividade crítica da blogueira.

Felippe Ramos (meu irmão, sociólogo, estuda integração latinoamericana, mora na Venezuela e esteve recentemente em Cuba), através de um rápido papo por email, resume: “é um tema complexo. (…) Yoani é fruto de um erro estratégico do regime cubano. Ela não é uma intelectual, não é líder política. (…) Ficou famosa pelo simples fato de querer sair de Cuba com direito a voltar, sem ser imigrante fugitiva. A negativa constante do regime, em tempos de internet, blogs e twitter, a fez ficar famosa”. E completa: “ela se tornou um símbolo de um ponto fraco do regime – a falta de liberdade. Claro que a mídia e grupos polítcos anti-Cuba iriam usar a imagem dela até a exaustão. Claro, também, que ela aceita de bom grado boa parte desses apoios”.

Pessoalmente, acho que os protestos são legítimos e necessários. Contudo, impossibilitar a projeção do filme revela um esvaziamento crítico por parte dos militantes que compromete a própria legitimidade da crítica à atuação da blogueira cubana. O filme deve ter uma resposta de seus críticos e de seu público em geral, sobretudo uma resposta política, mas não pode ser simplesmente impedido de ser exibido. Aliás, pesa contra Yoani Sánchez a acusação de receber e aceitar apoios de entidades escusas e de autoridades norte-americanas. Mas, afinal, entre as agremiações partidárias que participam do poder e das bases do Governo no Brasil, a acusação de receber “apoios espúrios” caberia também como autocrítica.

Em suma, a abertura paulatina do regime cubano, citando Felippe, “é uma necessidade de sobrevivência política e econômica do regime”, e não podemos simplificar as complexas contradições históricas, políticas e econômicas que tornaram Cuba um símbolo de dignidade social e humana, por um lado, e uma ditadura por outro.