Yoani Sánchez em Feira: as contradições vão além da Ilha

O documentário Conexão Cuba Honduras, de Dado Galvão, traz as participações de Raúl Castro, Eduardo Suplicy e, entre outros, da blogueira cubana Yoani Sánchez, dissidente do regime castrista. O filme – sobre liberdade de expressão e direitos humanos – seria exibido ontem, 18 de fevereiro, em Feira de Santana, Bahia, com as presenças de Galvão, cineasta, de Yoani e do senador Suplicy. A exibição, entretanto, foi cancelada devido aos protestos de militantes, em boa parte ligados ao PT e ao PCdoB. O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’, mas o evento se tornou inviável.

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O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’

Mesmo depois da recente lei migratória adotada em Cuba (maior flexibilidade para que cidadãos cubanos pudessem viajar ao exterior), Yoani teve negada pelo Governo a emissão de seu passaporte, tornando a “falta de liberdade” em Cuba um dos eixos da atividade crítica da blogueira.

Felippe Ramos (meu irmão, sociólogo, estuda integração latinoamericana, mora na Venezuela e esteve recentemente em Cuba), através de um rápido papo por email, resume: “é um tema complexo. (…) Yoani é fruto de um erro estratégico do regime cubano. Ela não é uma intelectual, não é líder política. (…) Ficou famosa pelo simples fato de querer sair de Cuba com direito a voltar, sem ser imigrante fugitiva. A negativa constante do regime, em tempos de internet, blogs e twitter, a fez ficar famosa”. E completa: “ela se tornou um símbolo de um ponto fraco do regime – a falta de liberdade. Claro que a mídia e grupos polítcos anti-Cuba iriam usar a imagem dela até a exaustão. Claro, também, que ela aceita de bom grado boa parte desses apoios”.

Pessoalmente, acho que os protestos são legítimos e necessários. Contudo, impossibilitar a projeção do filme revela um esvaziamento crítico por parte dos militantes que compromete a própria legitimidade da crítica à atuação da blogueira cubana. O filme deve ter uma resposta de seus críticos e de seu público em geral, sobretudo uma resposta política, mas não pode ser simplesmente impedido de ser exibido. Aliás, pesa contra Yoani Sánchez a acusação de receber e aceitar apoios de entidades escusas e de autoridades norte-americanas. Mas, afinal, entre as agremiações partidárias que participam do poder e das bases do Governo no Brasil, a acusação de receber “apoios espúrios” caberia também como autocrítica.

Em suma, a abertura paulatina do regime cubano, citando Felippe, “é uma necessidade de sobrevivência política e econômica do regime”, e não podemos simplificar as complexas contradições históricas, políticas e econômicas que tornaram Cuba um símbolo de dignidade social e humana, por um lado, e uma ditadura por outro.

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