nota: Viramundo – um ensaio sobre um Brasil

Captura de tela 2013-03-10 às 23.31.50O clássico Viramundo, filme que Geraldo Sarno realizou em 1965, compõe um ensaio sobre a migração de nordestinos para São Paulo, abordando as dificuldades de “integração” destes migrantes num ambiente onde imperam a racionalidade industrial e tecnológica – a metrópole – em oposição à tradição que predomina na cultura rural nordestina e sertaneja. A partir deste conflito, o filme mostra acontecimentos expressivos do drama vivido pelos migrantes, abrangendo a relação com a religião, com a política e com o trabalho, este marcado, de forma diferente na metrópole mas tanto quanto no sertão, pelas injustiças sociais relativas à propriedade dos meios de produção e à exploração do indivíduo trabalhador.

Viramundo venceu o Festival de Evian (França) e conquistou os prêmios de melhor documentário nos festivais de Viña del Mar (Chile) e do Uruguai. Geraldo Sarno convidou Capinam e Caetano para comporem a canção tema do documentário, que foi interpretada por Gil. Nota-se que a letra da canção Viramundo é inspirada fundamentalmente em expressões usadas pelos entrevistados no filme: “Dando a safra com fartura, dá sem ter ocasião, parte fica sem vendagem, parte fica com o patrão”… O documentário foi votado por especialistas como um dos mais marcantes documentários brasileiros de todos os tempos em um levantamento realizado pelo festival É Tudo Verdade em 2000.

Parte 1

Veja parte 2 e parte 3.

Cineclube Socioambiental Crisantempo propõe discussão sobre Belo Monte

Do blog do Bahiadoc – arte documento

No próximo sábado, dia 9, o Cineclube Socioambiental Crisantempo – Bahia exibe filme sobre Belo Monte e propõe diálogo aberto sobre os impactos da usina.

Captura de tela 2013-03-05 às 13.49.01O Cineclube Socioambiental Crisantempo, dedicado à difusão da consciência socioambiental, propõe o diálogo entre as pessoas através de vídeos e cinema sobre o mundo atual, exibindo filmes documentários que discutem diversos assuntos voltados principalmente para a questão da sustentabilidade e da relação Ser Humano – Planeta Terra. Em cena desde 2008 em São Paulo, o Cineclube Socioambiental Crisantempo – Bahia iniciou sua filial em Salvador no segundo semestre de 2012.

O Cineclube de São Paulo é parceiro do Greenpeace e do Insituto 5 Elementos – Educação para Sustentabilidade. Em Salvador, as sessões acontecerão aos Sábados, quinzenalmente, sempre às 17h, na Sala Alexandre Robatto, na Biblioteca Pública do Estado da Bahia. A entrada é franca e solidária.

BELO MONTE EM PAUTA

No próximo sábado, dia 09 de março, o Cineclube exibe o filme Belo Monte, Anúncio de Uma Guerra, documentário independente sobre os graves impactos ambientais, econômicos e sociais que a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte provocará no Alto Xingu.

Captura de tela 2013-03-05 às 14.03.59Filmado na região do Rio Xingu, o filme traz entrevistas com os principais envolvidos na obra, incluindo lideranças indígenas (como o Cacique Raoni e Megaron), o Procurador da República (Dr. Felício Pontes), o Presidente da FUNAI (Márcio Meira) e políticos locais a favor da construção da Usina.

Para outras informações sobre definições da programação e para saber mais sobre o Cineclube Socioambiental Crisantempo – Bahia, acesse a página: http://bahia.cineclubesocioambiental.com.br/

A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog

O filme é um fascinante comentário de um experiente e inquieto cineasta que, de dentro da caverna, nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

Em 1994, exploradores franceses descobriram uma caverna inexplorada na região do rio Ardeche, sul da França, que se revelou uma das mais importanes descobertas da história cultural da humanidade: a caverna estava repleta das mais antigas pinturas rupestres que se tem notícia, datadas de mais de 32 mil anos. Vencedor do National Society of Film Critics Awards de 2012 na categoria de Melhor Filme Não-Ficção, A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010), explora minuciosamente a Caverna Chauvet, cujo nome homenageia o explorador Jean-Marie Chauvet, líder da expedição que resultou na sua descoberta.

Werner Herzog nos conduz ao interior da caverna, cuja narração em off do próprio diretor ressalta a importância da caverna para a cultura, contextualiza a história de sua descoberta e relata as dificuldades que ele e sua pequena equipe enfrentaram para conseguir autorização para filmar o seu interior, dadas as rigorosas exigências e precauções impostas pelas autoridades francesas e pelos estudiosos responsáveis pelo lugar, com fins de proteger as suas frágeis e belas formações geológicas e salvaguardar a integridade dos desenhos.

 A Caverna dos Sonhos Esquecidos nos dá a chance de conhecer um lugar praticamente inacessível, cujo grande valor arqueológico e a importância simbólica da caverna para a história da cultura humana impressiona e impacta, atrai e fascina, sobretudo com o uso delicado e vivo da tecnologia 3D: passeamos pela caverna com a nítida impressão de quase podermos tocar as suas paredes. Um espetáculo visual que produz a um só tempo sentimentos de sutileza e enlevo.

Captura de tela 2013-03-04 às 10.30.45

Além da caverna de Chauvet, Herzog faz digressões para outras cavernas relacionando as pinturas e artefatos encontrados em outros lugares e em outras épocas pré-históricas, participando a nós, espectadores, os novos antiquíssimos segredos que esntusiasmam historiadores e arqueólogos. A caverna resgata sentimento cósmico que requer uma História que possa ser apreendida com a vista e com o espírito, história que principia no começo do mundo. Um arqueólogo diz que é preciso, depois de explorar a caverna por um peírodo, se distanciar dela e passar a viajar para ter contato com outras culturas, a fim de apreender a experiência da caverna a partir de outras visões cósmicas do mundo, algumas muito antigas ainda vivas em certas partes do planeta. Outro estudioso conclui, diante do sentimento mágico que experimentamos unidos a nossos ancestrais pela “cápsula do tempo” que é a ceverna, que não somos homo sapiens, mas antes homo spirituallis, espíritos  que vêem o mundo como a expressão de potências misteriosas, onde o sentir é mais presente do que o saber.

Em dado momento, dentro da caverna de Chauvet, Herzog pede silêncio. A silenciosa grandeza da caverna é sentida transpondo infinitas distâncias no tempo, mescla brutalidade e refinamento, e sua força expressiva não deixa de acender em nós a sensação de que o que hoje se produz em arte é impotencia e mentira. Herzog também valoriza a música (rústicos instrumentos musicais são achados e remontam a mais de 30 mil anos). As artes são unidades vitais, e o silêncio, as pinturas e a música possível, juntamente com a História que carregamos em nós torna a experiência do filme válida, não para o nosso senso crítico feito de nosso sentido cultural, mas para o nosso puro sentimento.

Captura de tela 2013-03-04 às 10.32.20No filme, o tempo se torna a essência e o símbolo máximo da distância entre nós e aqueles primeiros artistas. Mas é o próprio tempo, no entanto, que nos descortina toda aquela energia, revelando algo incorpóreo, indescritível, capaz de movimentar o que é imovel, como algumas imagens na caverna que sugerem a impressão de movimento. A Caverna dos Sonhos Esquecidos, ou o olhar de Herzog sobre ela, nos revela um receptáculo da expressão da história e da cultura humana, situado fora do tempo, ou ao menos que representa o tempo em nós de forma simbólica. O filme é um comentário de um experiente e inquieto cineasta que nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010)
Diretor Werner Herzog
 Roteiro Werner Herzog
 Fotografia Peter Zeitlinger 
Montagem Joe Bini, Maya Hawke
 Música Ernst Reijseger 
Produtor Erik Nelson, Adrienee Ciuffo 
Produção Creative Differences, History Films, Ministère de la Culture et de la Communication de France.

nota: “Indomável Sonhadora” (2012)

O diretor Behn Zeitlin conseguiu realizar uma obra poderosa, cuja força reside na poesia e cujo cenário de miséria nos é familiar, com os nossos incêndios em favelas, desocupações violentas de comunidades pobres e sistemático e continuado extermínio das identidades indígenas.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.37.30Em Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), o diretor Behn Zeitlin compõe uma fabulosa experiência que funde um naturalismo de estilo documental com momentos carregados de alegorias e simbolismo oníricos. O filme narra a vivência de Hushpuppy (a pequena Quvenzhané Wallis), uma garota que vive com seu pai adoentado na Banheira, nome dado à ilha onde moram os sobreviventes da passagem do furacão Katrina e aqueles que recusam a estadia forçada em centros humanitários na cidade. Os habitantes da Banheira vivem semi-comunitariamente, em condições de grave precariedade estrutural e de vulnerabilidade às cheias, pois a área se localiza do outro lado da barragem que protege a cidade das águas. Lá, a imaginativa Hushpuppy vive seu conturbado relacionamento com o pai e passeia livremente por suas fantasias e pela constante lembrança de sua mãe.

O filme recebeu elogios em Sundance e em Cannes em 2012, e a pequena Quvenzhané Wallis foi indicada ao oscar de melhor atriz – sua atuação realmente encanta revelando um grau de naturalidade incomum, fundamental para a atmosfera crua do filme. Wallis, filha de uma professora e de um motorista de caminhão da Louisiana, atua com outros intérpretes não profissionais, opção que empresta ao filme uma vital credibilidade. Aliás, a Banheira do filme é inspirada numa ilha real chamada Isle de Jean Charles e, tal como retratado no filme, os habitantes se recusam a abandoná-la mesmo com toda precariedade e vulnerabilidade às cheias. Tudo isso confere ao filme um estatuto de crítica social e mesmo de denúncia, cuja mensagem – através de imagens duras  – revela em si aspectos raros à cinematografia norteamericana, como a pobreza realista. Em sua miséria, a Banheira se aproxima de nós aqui em nossos trópicos, através de nossos incêndios em favelas, desocupações violentas de comunidades pobres e do sistemático e continuado extermínio das identidades indígenas.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.49.29Por outro lado, Indomável Sonhadora incorre numa afirmação da ideologia meritocrática tipicamente norteamericana, ilustrada pela ênfase na força de vontade individual e na tradição da família. A crítica civilizacional é veemente, revelada especialmente na aversão que os moradores da Banheira têm pela cidade e suas dinâmicas policiais e desvitalizadas, e na cena em que seu pai Wink (Dwight Henry), junto com outros moradores da Banheira, explodem a barragem para favorecer a rápida vazão das águas que deixam, há vários dias, as suas casas na Banheira submersas. Uma ideia que resulta mal: o abandono da comunidade é interrompido e o Estado passa a exigir que seus moradores saiam do local para serem abrigados na cidade, levando-os à força. Ou seja, o Estado intervém somente quando aquela comunidade se torna, em algum grau, uma ameaça à cidade, àquela civilização que vive do outro lado da barragem e que só é mostrada na forma de abrigo humanitário para os pobres.

Em outra cena, a pequena Hushpuppy – sempre ensinada por seu pai a ser forte, a não chorar e a sobreviver sempre sem desejar sair da Banheira, mas precisamente amando e enfrentando todas as dificuldades do lugar – chega a uma espécie de cabaré fluvial e – mais uma vez dando vazão a sua tendência imaginativa – vê a sua mãe personificada na única mulher no local que não era puta, mas sim a garçonete que, embora amargure a sua condição, declara a sua profissão propondo que a dureza da vida requer um sorriso na cara, apesar de tudo. Penso que sem esses resvalos de moralismo e de pequenas recaídas em maniqueísmos ideológicos, absolutamente desnecessários à narrativa, e ainda se com boa vontade ignorarmos alguns excessos dramáticos, a mensagem do filme teria pleno êxito em sua dimensão crítica, humana e política. Em termos poéticos, o filme é sublime, cruamente.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.56.34Mesmo assim, o diretor Behn Zeitlin conseguiu realizar uma obra forte, dirigindo atores inexperientes, cujas imagens tantas vezes desconcertantes e sujas criam uma alegoria cheia de esperança e luta, através do universo interior de uma menina e do amor e compromisso de um pai que cuida de sua filha em meio a miséria. Zeitlin chamou a atenção da crítica com este seu primeiro longa-metragem, e creio que o público também pode se encantar com o filme, sobretudo pelo carisma e do talento da pequena Quvenzhané Wallis, a Hushpuppy, com seus gritos agudos, sua força e suas poderosas invenções que nos convidam também a imaginar.

Título Original: Beasts of the Southern Wild Ano de Produção: 2012 País de Produção: EUA Direção: Benh Zeitlin Roteiro: Benh Zeitlin, Lucy Alibar Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana, Amber Henry Duração: 93 min.