nota: “Indomável Sonhadora” (2012)

O diretor Behn Zeitlin conseguiu realizar uma obra poderosa, cuja força reside na poesia e cujo cenário de miséria nos é familiar, com os nossos incêndios em favelas, desocupações violentas de comunidades pobres e sistemático e continuado extermínio das identidades indígenas.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.37.30Em Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), o diretor Behn Zeitlin compõe uma fabulosa experiência que funde um naturalismo de estilo documental com momentos carregados de alegorias e simbolismo oníricos. O filme narra a vivência de Hushpuppy (a pequena Quvenzhané Wallis), uma garota que vive com seu pai adoentado na Banheira, nome dado à ilha onde moram os sobreviventes da passagem do furacão Katrina e aqueles que recusam a estadia forçada em centros humanitários na cidade. Os habitantes da Banheira vivem semi-comunitariamente, em condições de grave precariedade estrutural e de vulnerabilidade às cheias, pois a área se localiza do outro lado da barragem que protege a cidade das águas. Lá, a imaginativa Hushpuppy vive seu conturbado relacionamento com o pai e passeia livremente por suas fantasias e pela constante lembrança de sua mãe.

O filme recebeu elogios em Sundance e em Cannes em 2012, e a pequena Quvenzhané Wallis foi indicada ao oscar de melhor atriz – sua atuação realmente encanta revelando um grau de naturalidade incomum, fundamental para a atmosfera crua do filme. Wallis, filha de uma professora e de um motorista de caminhão da Louisiana, atua com outros intérpretes não profissionais, opção que empresta ao filme uma vital credibilidade. Aliás, a Banheira do filme é inspirada numa ilha real chamada Isle de Jean Charles e, tal como retratado no filme, os habitantes se recusam a abandoná-la mesmo com toda precariedade e vulnerabilidade às cheias. Tudo isso confere ao filme um estatuto de crítica social e mesmo de denúncia, cuja mensagem – através de imagens duras  – revela em si aspectos raros à cinematografia norteamericana, como a pobreza realista. Em sua miséria, a Banheira se aproxima de nós aqui em nossos trópicos, através de nossos incêndios em favelas, desocupações violentas de comunidades pobres e do sistemático e continuado extermínio das identidades indígenas.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.49.29Por outro lado, Indomável Sonhadora incorre numa afirmação da ideologia meritocrática tipicamente norteamericana, ilustrada pela ênfase na força de vontade individual e na tradição da família. A crítica civilizacional é veemente, revelada especialmente na aversão que os moradores da Banheira têm pela cidade e suas dinâmicas policiais e desvitalizadas, e na cena em que seu pai Wink (Dwight Henry), junto com outros moradores da Banheira, explodem a barragem para favorecer a rápida vazão das águas que deixam, há vários dias, as suas casas na Banheira submersas. Uma ideia que resulta mal: o abandono da comunidade é interrompido e o Estado passa a exigir que seus moradores saiam do local para serem abrigados na cidade, levando-os à força. Ou seja, o Estado intervém somente quando aquela comunidade se torna, em algum grau, uma ameaça à cidade, àquela civilização que vive do outro lado da barragem e que só é mostrada na forma de abrigo humanitário para os pobres.

Em outra cena, a pequena Hushpuppy – sempre ensinada por seu pai a ser forte, a não chorar e a sobreviver sempre sem desejar sair da Banheira, mas precisamente amando e enfrentando todas as dificuldades do lugar – chega a uma espécie de cabaré fluvial e – mais uma vez dando vazão a sua tendência imaginativa – vê a sua mãe personificada na única mulher no local que não era puta, mas sim a garçonete que, embora amargure a sua condição, declara a sua profissão propondo que a dureza da vida requer um sorriso na cara, apesar de tudo. Penso que sem esses resvalos de moralismo e de pequenas recaídas em maniqueísmos ideológicos, absolutamente desnecessários à narrativa, e ainda se com boa vontade ignorarmos alguns excessos dramáticos, a mensagem do filme teria pleno êxito em sua dimensão crítica, humana e política. Em termos poéticos, o filme é sublime, cruamente.

Captura de tela 2013-03-03 às 21.56.34Mesmo assim, o diretor Behn Zeitlin conseguiu realizar uma obra forte, dirigindo atores inexperientes, cujas imagens tantas vezes desconcertantes e sujas criam uma alegoria cheia de esperança e luta, através do universo interior de uma menina e do amor e compromisso de um pai que cuida de sua filha em meio a miséria. Zeitlin chamou a atenção da crítica com este seu primeiro longa-metragem, e creio que o público também pode se encantar com o filme, sobretudo pelo carisma e do talento da pequena Quvenzhané Wallis, a Hushpuppy, com seus gritos agudos, sua força e suas poderosas invenções que nos convidam também a imaginar.

Título Original: Beasts of the Southern Wild Ano de Produção: 2012 País de Produção: EUA Direção: Benh Zeitlin Roteiro: Benh Zeitlin, Lucy Alibar Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana, Amber Henry Duração: 93 min.

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