A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog

O filme é um fascinante comentário de um experiente e inquieto cineasta que, de dentro da caverna, nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

Em 1994, exploradores franceses descobriram uma caverna inexplorada na região do rio Ardeche, sul da França, que se revelou uma das mais importanes descobertas da história cultural da humanidade: a caverna estava repleta das mais antigas pinturas rupestres que se tem notícia, datadas de mais de 32 mil anos. Vencedor do National Society of Film Critics Awards de 2012 na categoria de Melhor Filme Não-Ficção, A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010), explora minuciosamente a Caverna Chauvet, cujo nome homenageia o explorador Jean-Marie Chauvet, líder da expedição que resultou na sua descoberta.

Werner Herzog nos conduz ao interior da caverna, cuja narração em off do próprio diretor ressalta a importância da caverna para a cultura, contextualiza a história de sua descoberta e relata as dificuldades que ele e sua pequena equipe enfrentaram para conseguir autorização para filmar o seu interior, dadas as rigorosas exigências e precauções impostas pelas autoridades francesas e pelos estudiosos responsáveis pelo lugar, com fins de proteger as suas frágeis e belas formações geológicas e salvaguardar a integridade dos desenhos.

 A Caverna dos Sonhos Esquecidos nos dá a chance de conhecer um lugar praticamente inacessível, cujo grande valor arqueológico e a importância simbólica da caverna para a história da cultura humana impressiona e impacta, atrai e fascina, sobretudo com o uso delicado e vivo da tecnologia 3D: passeamos pela caverna com a nítida impressão de quase podermos tocar as suas paredes. Um espetáculo visual que produz a um só tempo sentimentos de sutileza e enlevo.

Captura de tela 2013-03-04 às 10.30.45

Além da caverna de Chauvet, Herzog faz digressões para outras cavernas relacionando as pinturas e artefatos encontrados em outros lugares e em outras épocas pré-históricas, participando a nós, espectadores, os novos antiquíssimos segredos que esntusiasmam historiadores e arqueólogos. A caverna resgata sentimento cósmico que requer uma História que possa ser apreendida com a vista e com o espírito, história que principia no começo do mundo. Um arqueólogo diz que é preciso, depois de explorar a caverna por um peírodo, se distanciar dela e passar a viajar para ter contato com outras culturas, a fim de apreender a experiência da caverna a partir de outras visões cósmicas do mundo, algumas muito antigas ainda vivas em certas partes do planeta. Outro estudioso conclui, diante do sentimento mágico que experimentamos unidos a nossos ancestrais pela “cápsula do tempo” que é a ceverna, que não somos homo sapiens, mas antes homo spirituallis, espíritos  que vêem o mundo como a expressão de potências misteriosas, onde o sentir é mais presente do que o saber.

Em dado momento, dentro da caverna de Chauvet, Herzog pede silêncio. A silenciosa grandeza da caverna é sentida transpondo infinitas distâncias no tempo, mescla brutalidade e refinamento, e sua força expressiva não deixa de acender em nós a sensação de que o que hoje se produz em arte é impotencia e mentira. Herzog também valoriza a música (rústicos instrumentos musicais são achados e remontam a mais de 30 mil anos). As artes são unidades vitais, e o silêncio, as pinturas e a música possível, juntamente com a História que carregamos em nós torna a experiência do filme válida, não para o nosso senso crítico feito de nosso sentido cultural, mas para o nosso puro sentimento.

Captura de tela 2013-03-04 às 10.32.20No filme, o tempo se torna a essência e o símbolo máximo da distância entre nós e aqueles primeiros artistas. Mas é o próprio tempo, no entanto, que nos descortina toda aquela energia, revelando algo incorpóreo, indescritível, capaz de movimentar o que é imovel, como algumas imagens na caverna que sugerem a impressão de movimento. A Caverna dos Sonhos Esquecidos, ou o olhar de Herzog sobre ela, nos revela um receptáculo da expressão da história e da cultura humana, situado fora do tempo, ou ao menos que representa o tempo em nós de forma simbólica. O filme é um comentário de um experiente e inquieto cineasta que nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010)
Diretor Werner Herzog
 Roteiro Werner Herzog
 Fotografia Peter Zeitlinger 
Montagem Joe Bini, Maya Hawke
 Música Ernst Reijseger 
Produtor Erik Nelson, Adrienee Ciuffo 
Produção Creative Differences, History Films, Ministère de la Culture et de la Communication de France.

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