Jessé Souza e o desafio de reinterpretar o Brasil

A partir de uma postura dessacralizante e de um método de pesquisa sóbrio e aprofundado, Jessé Souza se impõe um difícil desafio (consciente de que isoladamente não pode alcançar qualquer êxito): reinterpretar o Brasil. Duas questões fundamentais aparecem: como nossa sociedade classifica as pessoas?; e como ela legitima a dominação?

No vídeo, são debatidos temas como o economicismo dominante, o academicismo viciado fechado em si mesmo, o fenômeno complexo do neopentecostalismo crescente, o lulismo, a classe batalhadora (e “novas classes médias”), o conservadorismo da esfera pública, a preocupante ausência de debates consistentes, a mídia hegemônica e seus interesses de cunho extremamente privados. Alguns vários minutos, sim, mas dos quais não podemos prescindir se quisermos participar da reflexão mais profunda sobre o Brasil, não como projeto intelectual, mas como vivência ética. Recomendo fortemente.

Seguem a parte 2, a parte 3 e a parte 4.

Em “A ralé brasileira”, Jessé expõe o drama invisível de uma classe que ele chama provocativamente de ralé,  aquela “classe de indivíduos” que não pertence nem às classes médias nem tampouco às altas. Para ele, não há como entender o Brasil sem entender a ralé, esfera social que se relaciona com todos os outros temas sociais que dão a cara atual do país: a violência social, o fenômeno neopentecostal, as violências simbólicas, e de como, entre nós, são naturalizados e infinitamente reproduzidos a profunda desigualdade social brasileira, tornando o Brasil um dos países mais perversos do mundo em sua estrutura social.

Do modo como vejo, isto é, interessado em me apresentar às reinterpretações através do audiovisual, o trabalho de Jessé Souza, considerando o seu método e a amplitude de suas análises, se relaciona com o fazer documentário na medida em que aborda questões que compreendem ética, definição, forma, conteúdo e política. O documentário (sobretudo o que me interessa: o não sociologizante e que vê a relação com o outro como a base da política) se defronta com todas essas questões a partir de seu estatuto de arte cinematográfica e de crônica autoral.

Se o documentário brasileiro, que já foi visto como o mais vigoroso da América Latina, tem “dificuldades de reencontrar o vigor de outrora” (Guy Gauthier), é agora, precisamente em nosso momento de explosão liberal, que temos que nos lançar à reinterpretação de nossas realidades, combatendo mitos, desmistificando versões, revelando discursos equívocos que se tornam dominantes inclusive nos setores progressistas da política, dessacralizando sacerdotes teóricos, sobretudo na construção do pensamento da esquerda no Brasil.

O documentário pode ter um papel importante nessa tarefa de revelar olhares diversificados sobre as realidades frente à força de um mercado em crescimento (e a tudo o que isso implica, cultural, social e politicamente). Afinal, como disse Jean Renoir, “tudo o que se mexe sobre uma tela, é cinema”, e a realidade sempre se mexe, e nosso olhar (nosso recorte) é também uma tela.

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