Pasolini e os jovens infelizes: estamos todos em perigo

Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Um amigo chamou a atenção para os comentários dos leitores em uma matéria publicada no portal G1, sobre o índio terena Josiel Gabriel Alves, que levou um tiro nas costas durante um confronto com a polícia, em uma fazenda na região de Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul. Os comentários refletem – como disse meu irmão Felippe – “a banalidade do mal”, em referência à Hannah Arendt.

Lembrei-me da última entrevista de Pasolini, concedida ao jornalista Furio Colombo, do jornal Tuttolibri, poucas horas antes de sua morte no dia 2 de novembro de 1975. A entrevista foi intitulada “Estamos todos em perigo”, e nela o poeta e cineasta faz a sua “crônica da morte anunciada”, acusando que foi moralmente assassinado pela sociedade italiana e que corria o risco de um linchamento físico. Foi assassinado horas depois por Pelosi.

Os jovens infelizes é o título de um livro de Pasolini, que traz o subtítulo “Antologia de escritos corsários”, uma reunião de ensaios que tematizam tudo o que lhe parece indigno na sociedade industrial, passando “pela falsa tolerância de um poder ainda mais terrível do que o fascismo”.

O escritor Italo Calvino condenava em Pasolini sua nostalgia do mundo agrário e escreveu que não conhecia os jovens fascistas aos quais o cineasta se referia em suas críticas, e que nem pretendia conhecer. Antônio Gonçalves Filho, em A Palavra Náufraga (2001), comenta que a resposta de Pasolini é brilhante: esses jovens fascistas, segundo Pasolini, não nasceram para ser fascistas. “Talvez uma simples experiência diversa na sua vida, apenas um simples encontro, tivesse bastado para que seu destino fosse outro.” Pasolini diz ainda: “A cultura produz certos códigos, que produzem certo comportamento.”

É na linguagem que deriva desse comportamento que está a ponte ou o precipício para os jovens infelizes, diz Antônio Gonçalves Filho. Isto é, o léxico grotesco dos jovens alienados há muito já nos foi acusado pelo corsário Pasolini, armado com o discurso de um poeta. São jovens infelizes que não falam, mas apenas repetem. Cabe a quem fala não se calar  diante de tanta mesquinharia neste momento em que não podemos prescindir de vozes livres. Afinal, estamos todos em perigo.

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