Canal Bahiadoc conversa com o cineasta baiano Antônio Olavo

O quinto webdoc da série do projeto Canal Bahiadoc traz uma conversa com o cineasta Antônio Olavo, cuja trajetória como realizador é marcada pela abordagem de temas alicerçados nas vivências do povo negro e nas lutas sociais e históricas. [Do Blog do Bahiadoc]

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Antônio Olavo — (foto: Bahiadoc)

O webdoc, de 30 minutos, será publicado em breve e difundido em nossas redes. Enquanto isso, leia sobre os temas que tratamos e conheça um pouco da trajetória do cineasta baiano que segue lutando em frentes amplas que vão de nosso universo político, cultural e histórico, através de suas obras, ao lugar do cinema frente a sociedade e às políticas públicas.

Em 1975, o cineasta Antônio Olavo, ao mesmo tempo em que iniciava os estudos universitários, participava de um curso de Cinema com Guido Araújo. Como estagiário, participou da produção de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, filme dirigido por Bruno Barreto, cuja produção acontecia naquele ano no Pelourinho. Depois de outras inserções profissionais em produções de filmes, Olavo se tornou fotógrafo do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC, trabalho que o levou à região do sertão de Canudos, em 1982. Em Monte Santo, encantou-se com a história da Guerra de Canudos, que ele conheceu a partir do “relato oral dos filhos e netos dos conselheiristas”, diz Olavo, lembrando que o conhecimento da literatura sobre Canudos só lhe veio depois dessa vivência.

Desde então Olavo se apaixonou pela história de Canudos, e decidiu realizar um documentário que abordasse o tema de forma ampla e aprofundada. Depois de quatro anos dedicado à pesquisa e à produção do filme, lança, em 1993, o documentário “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos”, longa que reúne depoimentos de parentes de Antônio Conselheiro, contemporâneos da guerra, historiadores, religiosos e militares. O filme vem desenvolvendo uma importante carreira através de exibições, geralmente seguidas de debates, em universidades, escolas e associações de bairros, e também em mostras de filmes no Brasil e no exterior, alcançando – neste circuito alternativo de exibição – um público vasto e diversificado.

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[foto: Bahiadoc]

A trajetória de Antônio Olavo, que reflete a sua formação política, o levou a escolher o documentário como forma de expressão autoral e como dispositivo para registrar e refletir sobre temas ligados à memória social. Depois de Canudos, dedicou-se ao registro de temas relacionados à Cultura Negra, realizando o filme “Quilombos da Bahia”, finalizado em 2004, que, percorrendo mais de 12 mil quilômetros pelo interior da Bahia, visita centenas de comunidades negras, filmando em 69 localidades quilombolas histórias de cada vilarejo. O resultado é um documento audiovisual que valoriza a memória negra na Bahia e cujo processo de filmagem revelou tal riqueza de experiências que o cineasta teve que abandonar o roteiro cuidadosamente elaborado ao longo de três anos de pesquisa, e ampliar as possibilidades de registro de acordo com as realidades que se apresentavam. Importante ressaltar que, tal como aponta Olavo, “o filme rasgou o véu que cobria as comunidades quilombolas na Bahia”, contribuindo, inclusive, para revelar e mapear essas comunidades, o que favoreceu depois a implementação de políticas públicas básicas nessas localidades. O cinema, através do “Quilombos da Bahia”, chegou em tais localidades antes da institucionalidade governamental.

Antônio Olavo é responsável ainda por dois projetos que abordam temas alicerçados nas vivências do povo negro, nas lutas sociais e históricas. Realizou, em 2008, o documentário “Abdias Nascimento: Memória Negra”, que refaz a trajetória do histórico militante, considerado um ícone da cultura negra, cuja obra e atuação política são essenciais para a compreensão do lugar do negro na sociedade brasileira. Atualmente, o cineasta trabalha para concluir o projeto “Revolta dos Búzios”, sobre o movimento emancipacionista que emergiu na Bahia no fim do século XVIII, e que, diferentemente da Inconfidência Mineira, se revestiu de caráter popular, sendo conhecida também como Revolta dos Alfaiates.

Entretanto, o cineasta nunca se afastou da sua paixão pelo tema da guerra e história de Canudos. Prepara o documentário “Ave Canudos – os que sobreviveram te saúdam”, que busca histórias de sobreviventes da guerra, desconstruindo o mito de que todos os guerrilheiros de Canudos foram mortos nos enfrentamentos com as tropas do Governo Federal, ainda que tenha sido um dos episódios mais sangrentos da história das revoltas populares brasileiras.

Captura de tela 2013-03-11 às 11.13.29O Canal Bahiadoc, que traz uma série de conversas com realizadores baianos ligados ao campo da não-ficção, gravou uma conversa com Antônio Olavo como tema do quinto webdoc do projeto, que será publicado em breve e difundido em nossas redes. Os quatro webdocs anteriores estão disponíveis no espaço do Canal Bahiadoc. Acesse.

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Terminal de Bom Despacho – lazer, mobilidade e cidadania

[vimeo https://vimeo.com/15128704 w=620&h=349]

O documentário Bom Despacho (20min) foi realizado em 2010, sem patrocínio, contando com a colaboração laboral de alguns amigos. Sem pesquisa prévia in loco, contamos com o acaso – todos os depoimentos resultaram de abordagens no local, de gente desconhecida que topou falar. Marcam o doc as referências à presença da Polícia Militar como mantenedora da ordem, as críticas relacionadas à questão da mobilidade e direitos básicos, e o comportamento festivo que revela a representatividade do lazer na vida das pessoas e na conjuntura do sistema social no qual elas estão inseridas. Uma experiência de vivo interesse no campo social, que mantém – não obstante as suas precariedades – a atualidade das questões abordadas e das imagens captadas em MiniDV e com uma Sony Hi-8 em mãos.

SINOPSE

Uma reflexão sobre as condições e práticas do lazer a partir do registro do intenso movimento no terminal marítimo de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, Bahia, durante o último dia do feriado prolongado do ano novo de 2010. Com a participação dos usuários do sistema ferry-boat que, na volta para casa, enfrentaram longas filas num domingo de forte calor, refletindo sobre lazer, trabalho e cidadania.

FICHA TÉCNICA

Bom Despacho – reflexões sobre as práticas do lazer

Realização: Camele Queiroz e Fabricio Ramos.

Produção, Direção, Fotografia e Montagem:  Camele Queiroz e Fabrício Ramos.

Câmeras: Fabrício Ramos, Camele Queiroz, Mazinho e Tiago Campos.

Colaborador: Tiago Campos.

Edição: Camele Queiroz e Selma Barbosa.

Duração: 20 min.

Documentário “Camp Take Notices” (2012) retrata cidade acampamento nos EUA

TAKE NOTICE: A Camp for the Homeless

Uma das sequelas do aumento da pobreza nos Estados Unidos, decorrente da crise econômica global, é a falta de moradia – tal como ocorre nos países subdesenvolvidos, nestes como problema estrutural. Os efeitos do problema nos EUA são o ressurgimento das chamadas tent cities, ou cidades acampamentos (já são cerca de 30 tent cities em todo o país, repetindo um fenômeno dos anos de 1930, durante a Grande Depressão).

O documentário Camp Take Notices (2012), de Anthony Collings, jornalista e professor da Universidade de Michigan, retrata a história da tent city em Ann Harbor, no Estado de Michigan. O registro revela situações enfrentadas pela maioria dos acampados em todo o país: abandono pelo poder público, luta cotidiana contra a degradação humana e cobertura midiática demagógica e efêmera da mídia corporativa.

O acampamento Take Notice, em Ann Harbor, surgiu em 2008 e foi fechado pela polícia em 2012, abrigando nesse período de 20 a 70 pessoas, dependendo da estação do ano. Todos os moradores foram removidos e a área foi cercada para evitar novos acampamentos. Segundo o documentário de Collings, “alguns dos maiores problemas enfrentados pelos moradores de Take Notice eram o alcoolismo e a rejeição da comunidade ao redor do acampamento”, retrato que se assemelha ao preconceito social contra favelados que conhecemos bem no Brasil.