nota: “Boa Sorte, Meu Amor” e a arte de narrar

Captura de tela 2013-09-15 às 15.41.59Em Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, a trama não é importante. Um cara, Dirceu, se apaixona por uma moça, Maria, uma relação entre os dois se inicia e faz emergir algumas tensões que remetem às origens históricas da sociedade em Pernambuco e aos anseios existenciais dos dois jovens, ambos personagens comuns que nos são apresentados sem maior profundidade, mas com insinuações (monólogos, certas atitudes, expressões). A narrativa assume toda a importância na condução do filme, propondo quase um culto da forma.

Resumidamente, o filme trata de um mergulho no interior – tanto no interior do Estado de Pernambuco, culminando com um road-movie na última parte do filme, quanto no interior de Dirceu, que mergulha numa viagem e num desequilíbrio fechado e silencioso à procura de Maria, que desaparece de repente depois de descobrir que estava grávida.

A Fotografia em preto-e-branco e a música quase sempre anempática (enfatizando contrastes emocionais na narrativa) aliados à montagem diversificada (planos longos e curtos, cortes e fusões), garantem excelência ao filme, no que tange à sua forma e à narrativa esfuziante. Na parte final o filme se transforma: se antes alguns detalhes formais no filme me lembravam Bergman e, um pouco menos,  Wim Wenders, depois passamos a sentir a presença de Buñuel, mas nunca de forma explícita, experenciamos tudo no campo de sentimento, da fruição.

Captura de tela 2013-09-15 às 15.40.59O que o cinema de Pernambuco faz bem atualmente, e a Bahia já não faz nem mesmo mal, é recriar contextos e narrar histórias heterogêneas que, de alguma forma, remetam corajosamente a questões históricas do Estado, da cidade, da cultura e dos hábitos, ousando confrontar questões políticas (no sentido amplo) fundamentais. Vemos ali o conflito entre o idealismo juvenil de Maria que, em uma cena, esbarra no conformismo desistido e derrotado da personagem de Maeve Jinkings, mas também aparece,  insidiosamente, aspectos de uma luta de classes e de um jogo de dominação e poder, cujas raízes remetem ao tempo da Colônia e do Império, e também da escravidão, e cujos efeitos permeiam todas as imagens do filme.

Alguns críticos, aliás, acusaram no filme uma excessiva estilização das imagens. Não importa. Quando Dirceu, num desespero estranho, sai em busca de Maria no interior agreste onde ele mesmo havia nascido e esquecido disso, a gente se aproxima daquele personagem distante. Ele mergulha num açude, nu de roupas e desnudado de alguma coisa que era sua. Os moradores dali estranham o forasteiro. O forasteiro, no entanto, nasceu ali. Já não se trata mais de Maria.

“Boa Sorte, Meu Amor”

(Brasil / 95′ / Preto e branco / 2.35 Scope / 35mm & DCP / 2012)

(teaser): http://www.youtube.com/watch?v=kqHM30Mujak

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Entre Canudos e quilombos – conversa com o cineasta Antônio Olavo

Como parte do trabalho que realizamos pelo Canal Bahiadoc, conversamos, numa manhã de sábado, com o cineasta Antônio Olavo, cuja trajetória como realizador é marcada pela abordagem de temas alicerçados nas vivências do povo negro e nas lutas sociais e históricas da Bahia. Em sua casa, Olavo contou como iniciou a sua relação com o cinema (participando como estagiário da produção de “Dona Flor e seus Dois Maridos”), comentou sobre a sua trajetória de militância política e sobre as suas realizações como documentarista.

Interessante notar que, durante a realização do filme “Quilombos da Bahia”, Olavo e sua equipe percorreram mais de 12 mil quilômetros pelo interior da Bahia, visitando centenas de comunidades negras, filmando em 69 localidades quilombolas. Como indica Olavo, “o filme rasgou o véu que cobria as comunidades quilombolas na Bahia”, contribuindo, inclusive, para revelar e mapear essas comunidades, o que favoreceu depois a implementação de políticas públicas básicas nessas localidades. O cinema, através do “Quilombos da Bahia”, chegou em tais localidades antes das instituições governamentais.

As vivências que Olavo conta sobre suas passagens por Canudos e pela história do lugar também são fascinantes. Aliás, é esta uma das riquezas da experiência do fazer documentário: as vivências e as transformações pessoais que impactam a nossa vida para além do cinema.

O cineasta realizou os filmes “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos” (1993), “Quilombos da Bahia” (2004), “Abdias Nascimento: Memória Negra” (2008), e atualmente trabalha nos projetos “Ave Canudos – os que sobreviveram te saúdam” e “Revolta dos Búzios”.

O Canal Bahiadoc é uma realização do Bahiadoc – arte documento e traz uma série de seis webdocs com realizadores baianos. Os vídeos podem ser vistos em: http://www.bahiadoc.com.br/canalbahiadoc