Trailer do registro da viagem dos vaqueiros da Bahia a Brasília

[vimeo https://vimeo.com/76280460 w=570&h=320]

À convite do antropólogo Washington Queiroz, que há mais de trinta anos pesquisa e luta em favor do reconhecimento da cultura sertaneja, eu e Camele Queiroz (Bahiadoc) acompanhamos a comitiva de vaqueiros baianos que viajou, de ônibus, para Brasília, a fim de testemunhar, no Plenário do Senado, a votação do Projeto de Lei que dispõe sobre a regulamentação da profissão de vaqueiro no país. Realizamos um registro audiovisual que documenta a viagem e serve de memória, sobretudo para os vaqueiros baianos que representaram os vaqueiros de todo o país. Acima, a prévia do filme.

Sobre a lei, ouvi um proprietário rural que emprega vaqueiro dizer: “não vou mudar nada”. Respondi: “mas os vaqueiros vão mudar”. O sentimento de mais de 140 vaqueiros que foram a Brasília era de orgulho e sentido de luta por seus direitos e pelo reconhecimento simbólico de sua cultura, seus saberes e fazeres, de sua identidade, de sua mitologia. Gente de fibra, que conta com alegria (o nosso sentimento mais profundo) as tragédias que marcam as suas histórias do sertão e da caatinga.

Ouvimos histórias de muitos vaqueiros que vivem nas regiões mais precárias do sertão e da caatinga. As histórias revelam coragem e fé, mas também realidades graves. Vaqueiros que perderam filhos e pais, ou que morreram devido a erros médicos ou à falta de vagas em hospitais para tratamentos básicos, são algumas histórias que os vaqueiros contam atribuindo os destinos trágicos a Deus. Mas foram conversas em off, o propósito do filme foi outro, embora, de minha parte, não consigo descolar a existência do vaqueiro da do latifúndio, da exploração e da dominação social e política. Figuras humanas admiráveis, os vaqueiros.

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4 respostas em “Trailer do registro da viagem dos vaqueiros da Bahia a Brasília

    • Oi mila. Embora anda dependa de alguns arranjos, a nossa intenção é publicar o vídeo na íntegra na internet em breve. Quando acontecer, divulgaremos nas redes: meu facebook e redes do Bahiadoc – arte documento.

  1. Sentimentos e interesses políticos à parte, minha observação (sem nenhum propósito) volta-se a conquista abstrata da legalização de uma profissão já extinta. Entretanto, direitos adquiridos . . . direitos acatados! Queiram tornar público onde contratar um vaqueiro que não trocou o gibão por um blusão, o chapéu de couro por um capacete, o cavalo por uma motocicleta, e que tenha o senso de responsabilidade de outrora que o munia de orgulho e honra?!…

    • Caro Jaques, creio que a profissão de vaqueiro só será extinta quando acabar a atividade pecuária extensiva. Quanto à regulamentação da profissão, uma conquista, mas houve veto parcial, e este veto diz respeito precisamente ao interesse do proprietário que contrata vaqueiros. Quanto a descaracterização do vaqueiro tradicional, esta é uma das lutas: a preservação da cultura do vaqueiro, seus saberes e fazeres, mesmo que eles troquem “o chapéu de couro por um capacete, o cavalo por uma motocicleta”, afinal, sua cultura e artesanato que se manifestam na música, no aboio, na literatura, na gastronomia, na medicina, na mitologia, não precisam isolar o vaqueiro do desenvolvimento tecnológico e das transformações sociais. O vaqueiro, aliás, foi quem crivou o território baiano com locais de pouso e currais que se transformariam nas primeiras cidades do interior da Bahia e do Nordeste, é figura fundamental, portanto, da formação social, econômica e histórica sertaneja. E ademais, são trabalhadores, de motocicleta ou cavalo, tratam com bois, servem o fazendeiro pequeno e grande, trabalham. Mitificar o vaqueiro (só é vaqueiro quem vive tal como se vivia no tempo da Colônia?) não é o nosso objetivo, enquanto realizadores. Mas quanto aos interesses políticos envolvidos, há, mas não no que se relaciona com o filme (apenas no que se relaciona com o tema), o filme é independente, feito sem patrocínio, numa parceria do antropólogo Washington Queiroz, que se dedica a pesquisa e luta pelo reconhecimento da cultura sertaneja há mais de 30 anos, que articulou a viagem sem apoios institucionais. A viagem precisava ser registrada. Mas, enfim, o debate é importante: a conquista é abstrata, a luta é política também.

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