Fernando Meirelles de boca aberta

Fernando Meirelles: “Queria fazer ‘Grande Sertão: Veredas’, mas acho que nosso público não se interessaria por aquela história.” (Acesse a matéria)

Captura de tela 2013-11-30 às 11.12.35Em jul/2013, a ANCINE anunciou os vencedores do Prêmio Adicional de Renda – PAR 2013: “Na categoria Produção, entre os premiados, destacam-se a Conspiração Filmes (pelos filmes “Os penetras”, “Gonzaga – de pai pra filho” e “À beira do caminho”); a Casé Filmes (E aí… comeu?”). Entre as empresas distribuidoras, as maiores vencedoras foram a Paris Filmes Downtown Filmes. (Fonte: Ancine)

Neste momento, na esfera da Cultura institucional, existe uma relação perigosa entre a força do mercado em crescimento e a falta de capacidade de implementar políticas eficazes, que contem a nossa história e legitimem nossas expressões e manifestações simbólicas.

Talvez por isso, um lastro de empresas privadas, cujas receitas são baseadas predominantemente em verbas públicas diretas (ou indiretas), abocanhem grandes somas de recursos oriundos de políticas públicas. Seus filmes patrocinados pelo Governo se convertem em produtos das empresas privadas, que não conseguem comercializá-los devido ao gargalo da distribuição que resulta do poder dos oligopólios norte-americanos.

Talvez por isso Fernandos Meirelles da vida têm falado tanta besteira. Estão de olho é no discurso da Ancine: “Prêmio segundo desempenho comercial estimula diálogo com público”. 

”Nosso público” – quem é esse “nosso público”?

O sucesso de público é importantíssimo, é evidente. Mas quem tem determinado os critérios para alcançar esse “sucesso de público”? E quem tem estabelecido as “regras” desse jogo comercial?

Por outro lado, claro, faltam políticas públicas que auxiliem as empresas produtoras independentes, que favoreçam estruturalmente as produtoras, as distribuidoras (o setor do cinema e audiovisual, e não apenas o projeto de um filme, por vez).

sobre “Rouge Parole” – depois da Primavera, liberdade e impasse

O enfoque de Rouge Parole (2011) é os dias seguintes a revolução tunisiana, que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país de 1987 a 2011, com o apoio do ocidente. A revolta da Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, a onda revolucionária que se alastrou pelo Oriente Médio e norte da África em 2011. Destacam-se, em minha leitura do filme, dois aspectos que determinam a sua linha condutora: o discurso liberal da Liberdade e a imposição do impasse pós-revolta e queda do ditador: quê fazer? E agora?

Rouge Parole é verborrágico. Enfatiza o discurso da liberdade que impregna jovens e velhos, homens e mulheres, registrando o extravaso de um povo nos dias seguintes à conquista de uma liberdade de expressão cerceada durante 23 anos de regime autoritário. O filme suscita reflexões múltiplas que se sobrepõem em camadas diversas: o polêmico protagonismo, na revolução, das redes sociais (especialmente do Facebook e blogues), o conflito de gerações, o papel da imprensa, do jornalismo e dos dispositivos móveis como celulares (aparatos que alimentava na internet as redes de conteúdos), as disputas entre a ideia de laicidade do estado e as tradições religiosas islâmicas. São situações que se relacionam imediatamente com a liberdade recém conquistada e os novos espaços de disputas políticas em formação em novos contextos de pluralismo de ideias e orientações democráticas.

O impasse: o quê fazer do país na pós-revolução? No auge das revoltas que culminaram com a queda do regime, as diferenças culturais e regionais foram posta de lado, pelo menos em segundo plano, em favor de uma causa maior. Mas uma vez vitoriosos os anseios de mudança, aparecem as disputas: quê mudanças? Em quê direções? E sob o comando de que grupos, ideias, partidos ou movimentos? O que sentimos é que predomina, no filme, o ideário ocidental de liberdade democrática, embora – em dado momento do filme – dois tunisianos discutam: o que é mais fundamental e que deve vir primeiro: o pão ou a liberdade? a liberdade ou o pão?

Cinematograficamente, o diretor tunisiano Elyes Baccar – com o uso de câmeras leves e de alta performance – conseguiu aliar a reflexão política a uma experiência estética bastante estimulante. Obteve êxito em aproximações discretas das pessoas, explorando planos detalhes e alternando-os com planos abertos que descrevem situações e contextos relevantes para compreendermos que a África, com todas as suas particularidades, é também próxima de nós em suas contradições, anseios sociais e no cotidiano das lutas políticas. No final, depois das revoltas, pichações e inscrições revolucionárias são apagadas das paredes de prédios públicos de Tunis. A imagem sugere a questão: até que ponto as marcas de uma revolução podem ser apagadas? As imagens do próprio filme que registra esse apagamento simbólico dá conta de parte da resposta: as imagens ficam.

Rouge Parole tem sido considerado um dos principais documentários sobre a Revolução da Tunísia. Foi eleito um dos 12 melhores documentários de 2012 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, além de ter recebido diversos prêmios, como o melhor documentário africano do AALA Milan 2012, entre outros.

Assisti o filme na a Mostra África Hoje que, de 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural, exibindo parte da produção africana contemporânea de documentários.

Marina Abramovic e a arte da Presença

O filme  Marina Abramovic: the artist is present, de Mathew Akers e Jeff Dupre, acompanha por um ano a vida da paradigmática perfomer nascida na Sérvia em 1946, e que nos anos setenta já encarava o corpo como substância fundamental de sua obra.

O filme retrata o processo de preparação da artista para a exposição/performance “The artist is present” que, entre maio e junho de 2010, aconteceu no MOMA, em Nova York. O evento montou uma retrospectiva com obras de Marina (inclusive com jovens artistas reproduzindo algumas de suas performances) e uma nova performance sua: ela se senta em uma cadeira tendo diante de si uma outra cadeira, vazia, reservada aos visitantes que se sentam – sob algumas regras: sem conversas, sem palavras – para trocar um profundo olhar com a artista. O filme acompanha todo o período da performance. Todos os visitantes que vemos sofrem algum impacto com a experiência, emocionam-se.

Marina Abramovic, em dado momento do filme, diz que o que importa em uma obra de arte é o estado mental do artista no momento em que a produz. A artista emociona os visitantes que se sentam diante dela porque o seu estado mental ali é de pura presença. Toda sua trajetória, aliás, revela uma entrega total à arte do corpo, seja sujeitando-o – o seu corpo – à vontade do público autorizado livremente para fazer o que quiser com ele, ou percorrendo a muralha da China. “O que seria arte senão algo que revele a natureza humana?” – Marina Abramovic, em sua performance da presença, é um estado de espírito e de corpo, uma arte em si que oferece seu estado de consciência às pessoas que dela se aproximam, revelando, pelo menos por um instante, algo da natureza humana: há ofertas que não podemos declinar, simplesmente porque são componentes de nossa natureza humana. É leviano falar de natureza humana, antropológicamente é até temerário, mas um olhar profundo, uma comunicação inteira, uma presença total entre duas pessoas que se olham sugere algo de universal, introduz um sentimento que somente o conceito de natureza consegue expressar.

O documentário, em sua forma, sustenta uma linguagem clássica, quase institucional. Entretanto, a sinceridade e a intimidade com que Marina Abramovic nos conduz apresentando sua trajetória artística, seu passado familiar, suas memórias pessoais, tornam o filme envolvente. Arte-Corpo-Mente: Marina.

Mostra exibe em Salvador produção africana de documentários

De 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural a Mostra África Hoje, que apresenta parte da produção africana contemporânea de documentários. Em sua segunda edição (primeira vez em Salvador), o evento exibe 18 longas e médias metragens, a maioria inéditos no circuito comercial brasileiro.

Dentre os filmes que compõem a programação:

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Fahrenheit 2010, de Craig Turner. O filme trata dos preparativos da Copa do Mundo na África do Sul, um tema fundamental no atual momento brasileiro. Ele desperta muitas reflexões válidas em relação aos mega investimentos feitos e que posteriormente são pagos pelo contribuinte. E a pergunta que sempre fica: para o benefício de quem? Passa Dia 30/11 – sábado, 15h.

Rouge Parole (2011), que foi eleito um dos 12 melhores documentários do ano pelo MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). Dirigido por Elyes Baccar, o filme, um dos principais relatos sobre a Revolução da Tunísia. Dia 26/11 – terça-feira, 18h30.

A programação completa e informações sobre a Mostra e os filmes no site: http://mostraafricahoje.blogspot.com.br

Dandara é de Luta: ocupar é um dever

O filme Dandara: enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito, dirigido por Carlos Pronzato, nos apresenta a ocupação Dandara, em Belo Horizonte, narrando a história da comunidade marcada pela luta por moradia, mas cuja experiência de cinco anos ultrapassa esta luta, em si, fundamental: a vida dos moradores da ocupação, suas posturas, falas, trabalhos e ações, revela um emblemático e exitoso processo de criação de alternativas sociocomunitárias, de luta efetiva não só por direitos básicos, mas por uma nova concepção de cidade, de organização social e do que é viver.

Com o apoio efetivo das Brigadas Populares e de diversas entidades da sociedade civil que, ao longo de cinco anos, vêm reconhecendo a legitimidade tanto política quanto jurídica da ocupação, Dandara enfrentou a opressão policial desde o seu primeiro dia de ocupação e, depois, passou a lutar sem pausas pela atenção institucional do Poder Público, em várias esferas, que ignora (ou suprime) o direito constitucional da moradia em favor da indústria da especulação imobiliária. Em Belo Horizonte, inclusive, o déficit habitacional quase equivale ao número de imóveis desocupados, que jazem a serviço do interesse de especuladores.

A ocupação ainda não venceu a luta maior, que garantirá a regulamentação da comunidade, reconhecendo-a como um bairro da cidade. Mas a iniciativa é vitoriosa todos os dias quando vivencia no cotidiano a conquista de seus direitos. O êxito cotidiano da comunidade prova que, não havendo iniciativa por parte do Estado para garantir justiça social, é fundamental a ação dos movimentos sociais e a continuada organização popular.

Através da gente de Dandara e dos agentes que se mobilizam em torno da luta da comunidade, o filme de Carlos Pronzato mostra, com sensibilidade e perpassando questões amplas – o protagonismo feminino na história da ocupação, o racismo estrutural do país, a importância da solidariedade – que uma luta legítima organizada alcança, para além da resistência, uma existência digna, sempre em processo, sempre em luta. Vale ver o filme.

As Cruzes e os Credos não pára na encruzilhada: uma palavrinha

Enquanto esperamos que o Governo da Bahia repasse os recursos atrasados conquistados através de edital público para um outro projeto, vamos fazendo um filme através de apoio coletivo

cartaz último 2Desde 26 de outubro mobilizamos uma campanha para financiar parcialmente o nosso curta As Cruzes e os Credos. Ontem, dia 20, encerramos formalmente o período de captação de recursos: alcançamos a meta.

Trata-se de um valor bem pequeno quando o relacionamos à produção cinematográfica – R$ 1.200,00. É que nosso objetivo não é questionar os meios ou modelos de produção (ainda que o façamos), mas pontualmente viabilizar a nossa viagem de Salvador para Ilhéus, onde o curta será filmado, experimentando uma certa subversão do uso das redes, em especial do Facebook, ambiente que concentrou nossos esforços. Todo o trabalho da equipe e o acesso aos equipamentos não entraram na conta, obviamente, mas estão garantidos.

O curta, que será dirigido por mim (Fabricio) e por Camele Queiroz, trata de nossas relações com o Sagrado, o místico, a História e a Política, partindo de dois eventos que marcaram a cidade de Ilhéus/Bahia, em 2003: as mortes, em dias imediatamente consecutivos, de dois ícones religiosos da cidade, um da Igreja Católica, outro do Candomblé, um de “morte morrida”, outro de “morte matada”. Um Bispo, um Pai-de-santo. O Bispo era Dom Valfredo Tepe, o Babalorixá era Pedro Farias, o Pai Pedro.

Além dos patrocínios individuais, tivemos o apoio do CUAL – Coletivo Urgente de Audiovisual, grupo que realiza cinema e o debate sobre cinema independente através de uma dinâmica colaborativa e tem alcançado bons resultados. E do Cineclube Socioambiental Crisantempo – Bahia, que incluirá o filme em sua programação no ano que vem, junto com outras realizações do Bahiadoc. “As Cruzes e os Credos” será mais uma realização do Bahiadoc – Arte Documento.

Em tempo, salientamos a importância das políticas públicas de fomento à Cultura, dos editais públicos de Cinema e da necessidade de se consolidar o Cinema – o bom cinema feito no Brasil – também como indústria e mercado, para que nosso cinema possa ocupar espaços tomados hoje por oligarquias corporativas.

Inclusive, aguardamos a liberação de recursos conquistados através de edital estadual que não foram repassados: trabalhamos no projeto contemplado – também um curta documental – há mais de dois anos, mas o Governo do Estado da Bahia contingenciou os recursos da Cultura e os desviou ninguém sabe para onde ou para quê. Uma encruzilhada das brabas. Aguardemos. Enquanto isso, vamos fazer um filme.

Um agradecimento especial a todos que colaboraram com o projeto “As Cruzes e os Credos”, acreditando na proposta e nos realizadores. Agora é mãos à obra!

Apoie a realização do curta “As Cruzes e os Credos”

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Alcançamos efetivamente cerca de 70% do valor mínimo proposto para viabilizar, através de financiamento coletivo, a realização do curta “As Cruzes e os Credos”.

As cotas de patrocínio são de valor único: 20 reais. Se você ainda não conhece o projeto, visite o blog, veja o vídeo em que eu apresento a ideia e saiba como colaborar, caso se sinta motivado.

A IDEIA do financiamento coletivo, no caso, não é polemizar sobre modos de produção de cinema e audiovisual, mas unicamente subverter usos do Facebook, que tanto criticamos, mas que não é mais do que pessoas em rede com grande poder de interação – e de conflito.

O curta, aliás, trata disso: interações e conflitos que marcam nossa relação cultural e política com o Sagrado, a partir de dois eventos que marcaram Ilhéus (saiba mais no blog).

Aos amigos que financiaram, compartilharam, difundiram, perguntaram – nossa mais sincera gratidão. Assumimos uma responsabilidade grande, mas prazerosa (embora muito exigente): fazer um filme que revele, a um só tempo, uma visão de mundo e uma visão do cinema.

Agradecemos também o apoio do Cineclube Socioambiental Crisantempo, que convidou o filme a participar de sua programação no ano que vem.

Visitem o blog, divulguem, troquem ideias comigo e, se calhar, seja um patrocinador coletivo. Os nomes dos patrocinadores estão sendo publicados: http://ascruzeseoscredos.wordpress.com

Por fabricio r.

nota sobre “Morro dos Prazeres”, doc de Maria Augusta Ramos

Se em “Justiça” (2004) e “Juízo” (2007) Maria Augusta Ramos consegue mostrar a má-fé institucional que faz o discurso humanista (a ideologia) do Poder Judiciário refletir em práticas e condutas que contradizem cotidianamente esse discurso, em “Morro dos Prazeres” (2013) há o discurso do “pacto” como solução social, mesmo mostrando descompassos entre a lógica do estado e os moradores do morro. Se os dois primeiros filmes revelam como se concretiza o Direito no Brasil, o último quer transmitir uma tentativa de diálogo entre Estado e comunidade por intermédio da UPP. Será mesmo um diálogo?

Captura de tela 2013-11-03 às 01.31.29“Morro dos Prazeres” observa o processo de implantação de uma UPP nesta favela do Rio, registrando contextos envolvendo a ação da polícia e o cotidiano dos moradores, e elegendo personagens que manifestam suas posições, sejam moradores do morro ou policiais. No filme, a UPP serve como aparato de assistência à população do morro (oferece segurança, investiga denúncias, faz patrulhas, controla o volume do som do baile funk, autoriza ou não a realização de festas). Não há registro de apreensão de drogas nem de armas, nem prisão de acusados. Há referências a pequenos distúrbios que ensejam a intervenção da polícia, como brigas de bar.

Um Coronel declara que as mortes de policiais em ação diminuíram de 23 para 3 por ano de 2006 para cá (não menciona as mortes de cidadãos mortos pela ação da polícia). 

Vemos baculejos em adolescentes pretos como rotina operacional da PM, seguidos de momentos de silêncio dos jovens que são dispensados com um “boa tarde” do policial que os revistou autoritariamente. Alguns jovens são insolentes diante da ação arrogante da polícia: “sem arrogância” diz um menino durante a abordagem policial, e o policial comenta com o outro: esse já tem a “semente do mal”.

Captura de tela 2013-11-03 às 01.49.36Mas, em outra sequência do filme, um coronel fala para jovens oficiais que atuam na UPP sobre a morte de uma policial, atingida por um tiro nas proximidades da sede da Unidade Pacificadora. Há violência, há mortes, e o coronel quer “pegar o bandido que fez isso”. Mas o que vemos são recorrentes baculejos em jovens pretos abordados nos becos e ruelas da favela…

 A UPP, quando vem desacompanhada de um projeto social amplo, se torna uma mera gestão policial da vida dos pobres, legitimada por visões de mundo marcadas por um imaginário social simplório e equivocado: os trabalhadores – a boa sociedade – precisam de proteção contra as ameaças da má parcela da sociedade, os delinquentes.

O filme não é reducionista e constrói um painel nada maniqueísta da situação: no conflito entre moradores e polícia há um diálogo construído pelo filme. Mas também não ousa: deixando entrever que a UPP se constitui ali como uma etapa para o abrandamento da violência social, mesmo reconhecendo que a PM é uma estrutura que precisa ser transformada, o filme acaba reforçando e reproduzindo ideologias dominantes (o discurso de um pacto social) e passando ao largo de nossas questões sociais mais fundamentais:

Como nossa sociedade classifica as pessoas e mesmo a geografia da cidade? Como a sociedade legitima a dominação que naturaliza e reproduz infinitamente a perversa desigualdade social brasileira que resulta em crescente violência? – Mas o filme tem êxito, mesmo assim, pela sensibilidade (inclusive visual),  e sobretudo pela busca de uma síntese não redutora e pelo esforço de observar e entender – e transmitir – aspectos graves de realidades tão complexas.