nota sobre “Morro dos Prazeres”, doc de Maria Augusta Ramos

Se em “Justiça” (2004) e “Juízo” (2007) Maria Augusta Ramos consegue mostrar a má-fé institucional que faz o discurso humanista (a ideologia) do Poder Judiciário refletir em práticas e condutas que contradizem cotidianamente esse discurso, em “Morro dos Prazeres” (2013) há o discurso do “pacto” como solução social, mesmo mostrando descompassos entre a lógica do estado e os moradores do morro. Se os dois primeiros filmes revelam como se concretiza o Direito no Brasil, o último quer transmitir uma tentativa de diálogo entre Estado e comunidade por intermédio da UPP. Será mesmo um diálogo?

Captura de tela 2013-11-03 às 01.31.29“Morro dos Prazeres” observa o processo de implantação de uma UPP nesta favela do Rio, registrando contextos envolvendo a ação da polícia e o cotidiano dos moradores, e elegendo personagens que manifestam suas posições, sejam moradores do morro ou policiais. No filme, a UPP serve como aparato de assistência à população do morro (oferece segurança, investiga denúncias, faz patrulhas, controla o volume do som do baile funk, autoriza ou não a realização de festas). Não há registro de apreensão de drogas nem de armas, nem prisão de acusados. Há referências a pequenos distúrbios que ensejam a intervenção da polícia, como brigas de bar.

Um Coronel declara que as mortes de policiais em ação diminuíram de 23 para 3 por ano de 2006 para cá (não menciona as mortes de cidadãos mortos pela ação da polícia). 

Vemos baculejos em adolescentes pretos como rotina operacional da PM, seguidos de momentos de silêncio dos jovens que são dispensados com um “boa tarde” do policial que os revistou autoritariamente. Alguns jovens são insolentes diante da ação arrogante da polícia: “sem arrogância” diz um menino durante a abordagem policial, e o policial comenta com o outro: esse já tem a “semente do mal”.

Captura de tela 2013-11-03 às 01.49.36Mas, em outra sequência do filme, um coronel fala para jovens oficiais que atuam na UPP sobre a morte de uma policial, atingida por um tiro nas proximidades da sede da Unidade Pacificadora. Há violência, há mortes, e o coronel quer “pegar o bandido que fez isso”. Mas o que vemos são recorrentes baculejos em jovens pretos abordados nos becos e ruelas da favela…

 A UPP, quando vem desacompanhada de um projeto social amplo, se torna uma mera gestão policial da vida dos pobres, legitimada por visões de mundo marcadas por um imaginário social simplório e equivocado: os trabalhadores – a boa sociedade – precisam de proteção contra as ameaças da má parcela da sociedade, os delinquentes.

O filme não é reducionista e constrói um painel nada maniqueísta da situação: no conflito entre moradores e polícia há um diálogo construído pelo filme. Mas também não ousa: deixando entrever que a UPP se constitui ali como uma etapa para o abrandamento da violência social, mesmo reconhecendo que a PM é uma estrutura que precisa ser transformada, o filme acaba reforçando e reproduzindo ideologias dominantes (o discurso de um pacto social) e passando ao largo de nossas questões sociais mais fundamentais:

Como nossa sociedade classifica as pessoas e mesmo a geografia da cidade? Como a sociedade legitima a dominação que naturaliza e reproduz infinitamente a perversa desigualdade social brasileira que resulta em crescente violência? – Mas o filme tem êxito, mesmo assim, pela sensibilidade (inclusive visual),  e sobretudo pela busca de uma síntese não redutora e pelo esforço de observar e entender – e transmitir – aspectos graves de realidades tão complexas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s