sobre “Rouge Parole” – depois da Primavera, liberdade e impasse

O enfoque de Rouge Parole (2011) é os dias seguintes a revolução tunisiana, que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país de 1987 a 2011, com o apoio do ocidente. A revolta da Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, a onda revolucionária que se alastrou pelo Oriente Médio e norte da África em 2011. Destacam-se, em minha leitura do filme, dois aspectos que determinam a sua linha condutora: o discurso liberal da Liberdade e a imposição do impasse pós-revolta e queda do ditador: quê fazer? E agora?

Rouge Parole é verborrágico. Enfatiza o discurso da liberdade que impregna jovens e velhos, homens e mulheres, registrando o extravaso de um povo nos dias seguintes à conquista de uma liberdade de expressão cerceada durante 23 anos de regime autoritário. O filme suscita reflexões múltiplas que se sobrepõem em camadas diversas: o polêmico protagonismo, na revolução, das redes sociais (especialmente do Facebook e blogues), o conflito de gerações, o papel da imprensa, do jornalismo e dos dispositivos móveis como celulares (aparatos que alimentava na internet as redes de conteúdos), as disputas entre a ideia de laicidade do estado e as tradições religiosas islâmicas. São situações que se relacionam imediatamente com a liberdade recém conquistada e os novos espaços de disputas políticas em formação em novos contextos de pluralismo de ideias e orientações democráticas.

O impasse: o quê fazer do país na pós-revolução? No auge das revoltas que culminaram com a queda do regime, as diferenças culturais e regionais foram posta de lado, pelo menos em segundo plano, em favor de uma causa maior. Mas uma vez vitoriosos os anseios de mudança, aparecem as disputas: quê mudanças? Em quê direções? E sob o comando de que grupos, ideias, partidos ou movimentos? O que sentimos é que predomina, no filme, o ideário ocidental de liberdade democrática, embora – em dado momento do filme – dois tunisianos discutam: o que é mais fundamental e que deve vir primeiro: o pão ou a liberdade? a liberdade ou o pão?

Cinematograficamente, o diretor tunisiano Elyes Baccar – com o uso de câmeras leves e de alta performance – conseguiu aliar a reflexão política a uma experiência estética bastante estimulante. Obteve êxito em aproximações discretas das pessoas, explorando planos detalhes e alternando-os com planos abertos que descrevem situações e contextos relevantes para compreendermos que a África, com todas as suas particularidades, é também próxima de nós em suas contradições, anseios sociais e no cotidiano das lutas políticas. No final, depois das revoltas, pichações e inscrições revolucionárias são apagadas das paredes de prédios públicos de Tunis. A imagem sugere a questão: até que ponto as marcas de uma revolução podem ser apagadas? As imagens do próprio filme que registra esse apagamento simbólico dá conta de parte da resposta: as imagens ficam.

Rouge Parole tem sido considerado um dos principais documentários sobre a Revolução da Tunísia. Foi eleito um dos 12 melhores documentários de 2012 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, além de ter recebido diversos prêmios, como o melhor documentário africano do AALA Milan 2012, entre outros.

Assisti o filme na a Mostra África Hoje que, de 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural, exibindo parte da produção africana contemporânea de documentários.

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