o vaticínio do poeta: “vai haver repressão”

Em 2012, eu (fabricio ramos) e Camele Queiroz realizamos o “hera”, documentário que traz conversas com poetas baianos fundadores da revista “Hera”, publicação que marcou o cenário literário e cultural na Bahia.

Nesse trecho do filme, postado abaixo – Píluna n.5: trecho do doc “hera” – o poeta Antônio Brasileiro, fazendo referência à crise e aos protestos no mundo, vaticina em 2012: “vai haver repressão”.

Como diz Brasileiro, em outro trecho do filme, o poeta não atua na resistência porque “o poeta sempre está a frente”. Além de Brasileiro, participaram do documentário também os poetas baianos Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.


O documentário Hera está online na íntegra, em HD, no site do filme: http://hera.bahiadoc.com.br/

os ratos da praia

IMG_1222

Itapuã. Foto: fabricio ramos.

Certa vez, eu caminhava, fim de tarde, na orla de Itapuã, um belo pôr-do-sol.

De repente avistei, de cá da calçada, três ratos saindo daquelas pedras logo embaixo que dão direto na praia. Um dos ratos era maior e os outros dois menores. O maior saía das pedras se expondo na areia e rapidamente voltava a se esconder. Um dos menores acompanhava esse movimento, saindo e voltando logo atrás. E o terceiro se limitava a ficar quieto observando. Parei e fiquei olhando aquilo.

Não posso saber, mas supus que eram uma família de ratos, e o maior (o pai ou mãe? rs) “ensinava” aos ratinhos os cuidados que deviam ter ao se exporem vulneravelmente na areia da praia. Fiquei observando as cautelosas lições por alguns minutos, parado. Até que o rato maior ousou ir mais longe e o ratinho menor o acompanhou até a metade da distância e parou, tenso, sem saber se continuava ou se voltava para se abrigar e se esconder nas pedras. O maior, vendo a hesitação do menor (isso tudo interpretação minha, mas foi assim que transcorreu a coisa), decidiu voltar.

Foi aí que a coisa aconteceu:

Eu já tinha voltado a caminhar deixando os ratos para trás quando o rato maior estava a voltar dessa “voltinha” mais ousada. Eu ainda o via quando olhava para trás. E quando olhei para a frente, passaram por mim dois caras, jeito de playboy de academia – tênis, camiseta e bermuda – e avistaram o rato maior.

Pararam a uns 20 metros depois de passarem por mim, apontando para o rato. Eu seguia andando, mas parei de novo para ver o que fariam. Eles, os caras, saíram do percurso deles, desceram até a areia, pegaram pedras e cercaram o rato maior. Eu assistia a uns 20 ou 30 metros. Tudo muito rápido. O ratinho menor finalmente voltou bem rápido e se escondeu nas pedras. O rato maior se desesperou – podia correr para o outro lado. Mas tentou furar o cerco dos caras e voltar para o mesmo lugar onde estavam os filhotes.

Nunca vi uma pedrada tão precisa: de uns 5 metros de distância um dos caras acertou em cheio a cabeça do rato, de tal modo que ele rolou e não se moveu por uns segundos. Quando esboçou uma reação, outra pedrada, desta vez do segundo cara. E para garantir, deram mais umas três pedradas, até que o rato morreu de vez. Sem chance.

Os caras voltaram para a calçada e retomaram seu percurso. Pareciam felizes.

Eu não tomei atitude nenhuma diante desse episódio. Foi tudo muito rápido mesmo. Sei que ratos são, para muitos, meras criaturas repulsivas e que são, dizem, animais transmissores de doenças e tal. Mas ali, minutos antes de ver o rato maior ser morto a pedradas por dois playboys de quase 30 anos (aparentemente), eu tinha visto uma família de ratos – romantizado a situação e sentido empatia pelos… ratos. A beleza do pôr-do-sol sensibiliza a gente.

Nunca mais esqueci isso. O episódio me suscitou muitos pensamentos, por um longo tempo, e até hoje suscita, como vêem (já se passou mais de ano desde o ocorrido).

Confesso mesmo que, ao imaginar dois ratinhos solitários nas pedras, que tão repentinamente perderam o seu orientador em plena lição sobre os riscos do mundo, meus olhos encheram d’água, embaçando um pouco a minha visão do sol poente.

Segui caminhando até ver a primeira estrela surgir no céu. Ao passar no matagal perto do Habbib’s, me lembrei que os vaga-lumes estão desaparecendo. Alguém aí ainda vê vaga-lumes?

O rolezinho no shopping e a mulher invisível

Captura de tela 2014-01-21 às 20.49.01

Salvador Shopping ao fechar das portas. Foto: fabricio ramos.

Logo quando o Salvador Shopping foi inaugurado, há alguns anos, fui dar um rolezinho lá.

Observei, enquanto tomava um café, o trabalho dos homens e das mulheres que fazem a limpeza das praças de alimentação. Atentei para uma mulher de seus, talvez, trinta e tantos anos, de uniforme, pano na mão e touca na cabeça. Ela transitava por entre as mesas, recolhia o lixo deixado nelas pelos ‘consumidores’, passava o pano sobre a mesa e saíam, sem trocar palavra com ninguém sumíam por entre outras mesas. Olhei em volta e percebi que somente eu a enxergava – depois soube que eu estava enganado.

Soube, depois, pela própria boca da trabalhadora que se dizia faxineira, que é proibida qualquer aproximação entre ela e qualquer ‘consumidor’, – ela é treinada para passar despercebida, ignorada, desconhecida, invisível. – É uma regra capital, a primeira coisa que é enfatizada às novas faxineiras: sejam invisíveis.

Contudo, como eu disse, meus olhos não eram os únicos a seguí-la em suas incursões discretas por entre as mesas. Segundo ela mesma me contou, há seguranças cuja função, entre outras coisas, é vigiá-las, garantir que elas cumpram a sua função de ‘mulheres invisíveis’ que limpam o ambiente o mais discretamente possível.

Nos shoppings centers, onde tudo é um cenário grotesco dedicado ao esquecimento do mundo, é proibido lembrar às pessoas que estão lá em busca de lazer, que existem pessoas que estão lá em busca de sobrevivência – e que têm que ser ignoradas. Não se pode, afinal, estragar o espetáculo! Rolezinhos são muito perigosos, não?

Pasolini corsário, o fascismo de consumo e o nosso “Brasil maior”

“Seguir avante… ter a força da crítica total, do repúdio, da denúncia desesperada e inútil”

– Pier Paolo Pasolini

Os escritos do Pasolini corsário, polêmicos, repudiaram a sociedade unidimensional do consumo como um “novo fascismo” que ele chamou de “fascismo de consumo”. Não atacou indiscriminadamente o consumo nem o desenvolvimento em geral, como acusaram alguns, nem mesmo o consumo de bens supérfluos. Em seus ensaios, o corsário acusou os efeitos traumáticos de um desenvolvimento baseado na ideologia do consumo absoluto, o vazio cultural gerado por um atroz e estúpido desenvolvimento (sem verdadeiro “progresso”), que desloca os jovens – os jovens marginalizados, que vivem nas periferias urbanas – de sua cultura própria que, dotada de valores próprios ajustados às suas condições reais de vida, possibilitava aos jovens uma relação mais saudável com o mundo, mesmo que este mundo fosse constituído de pobreza e injustiças sociais. – (Se adaptar-se às injustiças sociais é uma forma de alienação, também cabe lembrarmos da incomensuralidade da vida mesma existencial, direta, concreta, dramática, corpórea, das pessoas que vivem essas realidades sociais injustas, o “mundo cultural” no interior do qual se exprimem física e existencialmente milhões de pessoas marginalizadas, excluídas, estigmatizadas).

Acusado também de nostalgia de um tempo agrário, Pasolini conseguiu transformar a suposta nostalgia em força crítica. Como consequência do fascismo de consumo, alertou sobre o surgimento de novas formas de delinquência, resultantes da violência do consumismo que aniquila todos os modelos particulares de vida, forçando a substituição desse modelos por outros aos quais a maioria dos jovens não conseguia corresponder economicamente. A ideologia do consumo acabava por incutir nessa juventude a negação de sua própria condição, que passava a ser afirmada unicamente pelo poder de consumo.

Pasolini escreveu seus ensaios entre 1973 e 1975, refletindo de forma incisiva sobre a experiência histórica de uma Itália que participava da “última mutação antropológica milenarista” – o fascismo do consumo – resguardando muitas peculiaridades em relação aos países capitalistas avançados. Um país que, como nenhum outro grande país capitalista, possuía “uma tal quantidade de culturas particulares e reais”, onde o avanço tecnológico e industrial trazia em si aspectos especiais, às vezes inaceitáveis, em relação à realidade social e cultural italiana.

Consciente dessa ressalva, Pasolini previu: “é a experiência que viverão os países do terceiro mundo daqui a alguns anos”. Recusando e se revoltando contra essa transformação que a juventude – separada da geração de Pasolini por um salto no abismo – encarava como natural, o corsário Pasolini dirigiu a sua crítica e mesmo o seu ódio cósmico não contra essa nova juventude tornada infeliz e neurótica, mas sim contra os promotores dessa infelicidade: os novos fascistas, responsáveis pelo genocídio cultural próprio ao desenvolvimento do consumo, e aos seus cúmplices, isto é, todos os intelectuais que, diante de tal genocídio reagiam – racistamente – com a indiferença dos “realistas” e “pactualistas”, quando não aplaudiam com satisfação o genocídio cultural disfarçado ideologicamente de “inclusão social”.

Captura de tela 2014-01-10 às 11.02.06

Publicidade da Coca-Cola para a Copa 2014 no Brasil.

Os ensaios corsários de Pasolini não evocam em nós alguma relação familiar com o triunfalismo retórico do Brasil atual, do Brasil maior, do Brasil publicitário da Copa de todo mundo?

Um artigo recente publicado no El Pais indica que, no Brasil, 55% dos jovens entre 18 e 30 anos recebem salários de até 1.020 reais por mês, e infere: “os filhos da classe C mudarão a cara do Brasil”, apontando uma “pequena mostra da inquietude desses jovens”: a sua atitude nos protestos de junho passado. “Muitos desses jovens que cunharam slogans criativos e subversivos provinham da periferia das grandes cidades e são filhos dessa classe C que já exigem mais do que os pais” – diz a matéria.

Não se trata, como já foi dito, de simplificar a questão até a mera negativa do direito de inclusão, na esfera do consumo, de classes inteiras antes excluídas. Mas, antes, de buscarmos, à luz de Pasolini, pensar sobre os efeitos e o impacto – já muito visíveis – de um desenvolvimento desacompanhado de autêntico “progresso”, da aculturação extremada do consumo que implica consequências das quais poucos têm clara consciência. O Brasil vive hoje uma configuração histórica que vivifica retóricas desenvolvimentistas e que, se por um lado gera conquistas apreciáveis, por outro, acarreta violências de diversas naturezas, sobretudo contra a juventude, e traz consequências sociais e culturais injustificáveis. Aqui eu só vislumbro, em busca de interlocução, a abertura de possíveis debates – não aprofundei a argumentação e as ideias principais que constituem o texto são de Pasolini, embora as ideias também estejam aqui muito resumidas. Vale ler com atenção critica os ensaios corsários.

Os ensaios de Pasolini, aliás, foram reunidos por Michel Lahud, sob o título “Os jovens infelizes – antologia de ensaios corsários”, pela Editora Brasiliense. O livro encontra-se, sintomaticamente, esgotado no Brasil há anos. Comprei-o num sebo.