os ratos da praia

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Itapuã. Foto: fabricio ramos.

Certa vez, eu caminhava, fim de tarde, na orla de Itapuã, um belo pôr-do-sol.

De repente avistei, de cá da calçada, três ratos saindo daquelas pedras logo embaixo que dão direto na praia. Um dos ratos era maior e os outros dois menores. O maior saía das pedras se expondo na areia e rapidamente voltava a se esconder. Um dos menores acompanhava esse movimento, saindo e voltando logo atrás. E o terceiro se limitava a ficar quieto observando. Parei e fiquei olhando aquilo.

Não posso saber, mas supus que eram uma família de ratos, e o maior (o pai ou mãe? rs) “ensinava” aos ratinhos os cuidados que deviam ter ao se exporem vulneravelmente na areia da praia. Fiquei observando as cautelosas lições por alguns minutos, parado. Até que o rato maior ousou ir mais longe e o ratinho menor o acompanhou até a metade da distância e parou, tenso, sem saber se continuava ou se voltava para se abrigar e se esconder nas pedras. O maior, vendo a hesitação do menor (isso tudo interpretação minha, mas foi assim que transcorreu a coisa), decidiu voltar.

Foi aí que a coisa aconteceu:

Eu já tinha voltado a caminhar deixando os ratos para trás quando o rato maior estava a voltar dessa “voltinha” mais ousada. Eu ainda o via quando olhava para trás. E quando olhei para a frente, passaram por mim dois caras, jeito de playboy de academia – tênis, camiseta e bermuda – e avistaram o rato maior.

Pararam a uns 20 metros depois de passarem por mim, apontando para o rato. Eu seguia andando, mas parei de novo para ver o que fariam. Eles, os caras, saíram do percurso deles, desceram até a areia, pegaram pedras e cercaram o rato maior. Eu assistia a uns 20 ou 30 metros. Tudo muito rápido. O ratinho menor finalmente voltou bem rápido e se escondeu nas pedras. O rato maior se desesperou – podia correr para o outro lado. Mas tentou furar o cerco dos caras e voltar para o mesmo lugar onde estavam os filhotes.

Nunca vi uma pedrada tão precisa: de uns 5 metros de distância um dos caras acertou em cheio a cabeça do rato, de tal modo que ele rolou e não se moveu por uns segundos. Quando esboçou uma reação, outra pedrada, desta vez do segundo cara. E para garantir, deram mais umas três pedradas, até que o rato morreu de vez. Sem chance.

Os caras voltaram para a calçada e retomaram seu percurso. Pareciam felizes.

Eu não tomei atitude nenhuma diante desse episódio. Foi tudo muito rápido mesmo. Sei que ratos são, para muitos, meras criaturas repulsivas e que são, dizem, animais transmissores de doenças e tal. Mas ali, minutos antes de ver o rato maior ser morto a pedradas por dois playboys de quase 30 anos (aparentemente), eu tinha visto uma família de ratos – romantizado a situação e sentido empatia pelos… ratos. A beleza do pôr-do-sol sensibiliza a gente.

Nunca mais esqueci isso. O episódio me suscitou muitos pensamentos, por um longo tempo, e até hoje suscita, como vêem (já se passou mais de ano desde o ocorrido).

Confesso mesmo que, ao imaginar dois ratinhos solitários nas pedras, que tão repentinamente perderam o seu orientador em plena lição sobre os riscos do mundo, meus olhos encheram d’água, embaçando um pouco a minha visão do sol poente.

Segui caminhando até ver a primeira estrela surgir no céu. Ao passar no matagal perto do Habbib’s, me lembrei que os vaga-lumes estão desaparecendo. Alguém aí ainda vê vaga-lumes?

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