nota: A Grande Beleza e a ruína dos tempos

a melancolia de uma Roma (do nosso ocidente dessacralizado?) cujo passado invade o presente e os tempos se encontram, em ruínas.

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Em “A Grande Beleza”, filme de Paolo Sorrentino, o escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) não escreveu nenhum outro livro desde o grande sucesso do romance “O Aparelho Humano”, que ele escrevera há décadas. Refletindo sobre a sua vida, Jep agora frequenta as festas da alta sociedade, aproveita os luxos e privilégios de sua fama e perambula por uma Roma cuja modernidade teve que se adequar às marcas da antiguidade presentes na cidade. O filme foi exibido em Cannes, venceu o Globo de Ouro, foi o Melhor filme estrangeiro no Oscar, e dividiu a opinião de críticos.

Quem não começar por entender a ironia do título e só conseguir ver o filme sob a sombra de Fellini – tal como fez Wisnik recentemente em sua coluna na Folha – provocará um sorriso malicioso em Sorrentino, imagino. O “Kitsch”, naturalmente, é o elemento formal mais evidente do filme, mas – assumindo o risco da reprovação moral – não compromete nenhum momento poético, precisamente porque o Kitsch está ali conscientemente, sacaneando formalistas em transe.

Os momentos poéticos, aliás, não degeneraram em “momentos espetaculosos” (na sequência dos flamingos, por exemplo), como entendeu Wisnik, porque os momentos poéticos do filme não estão nessas cenas espetaculosas. Mas, ao contrário, estão nos momentos mais triviais, no quase nada, cuja força dramática reside no coração da ironia, esquecida por Wisnik em nome de Fellini. Nunca será um filme à altura de “A doce Vida” ou de “Oito e meio”, nem quis sê-lo. Tampouco é menos Kitsch inserir no comentário sobre o filme a frase “faz parte da longa história contemporânea das “ilusões perdidas””, intrometendo Balzac logo através do jovem poeta da província que vai simbora para Paris entrar na dança, aí sim, da derrisão da literatura, da poesia e do amor, derrisão que é marca do filme, também, e nem por isso constrange a beleza nem suprime o senso crítico, ao contrário, afirma a beleza e a crítica da beleza – só que melancolicamente.

O filme aborda mesmo o nosso processo de dessacralização do mundo do consumo, do Kitsch como totalidade da cultura. Acho que Wisnik podia falar mais de um filme que é, afinal, só um filme, mas que produz “dissonâncias de sensibilidade”, e que, aliás, tem essa beleza: mostra, toda vez que aparece o Coliseu, a melancolia de uma Roma (do nosso ocidente?) cujo passado invade o presente e os tempos se encontram, ambos os tempos em ruínas. A Wisnik faltou enxergar a cultura em meio a tanta civilização – nota Oito e Meio para o comentário dele.

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