Para que não nos sintamos tão sós: assista o curta

 

O impacto das mudanças atravessa o olhar de um indivíduo e revela, em meio aos cenários urbanos, as forças vivas políticas, históricas, poéticas e místicas que formam o imaginário oculto, ativo e impuro da cidade. (2013, 7min).

“Para que não nos sintamos tão sós” é uma realização independente, a primeira do selo Paideia Filmes.

EXIBIÇÕES:

O curta “Para que não nos sintamos tão sós” participou do XVI Festival Nacional 5 Minutos. Pelo festival, percorreu, entre abril e maio, quatro cidades baianas: Paulo Afonso, Cachoeira, Vitória da Conquista e Salvador.

Em março de 2014, o curta participou do evento Salvador 465: Projetos coletivos e alternativas de convivência com a cidade, realizado no Centro Cultural da Câmara Municipal de Salvador, que destacou ações de intervenção coletiva de Salvador para debate em comemoração do aniversário da cidade.

Em 2013, participou do V CineFacom, Mostra da Ufba, e foi exibido no evento VI Cinema no Coreto + Debate: Gentrificação, no Largo Dois de Julho, Salvador.

FICHA TÉCNICA:

Roteiro, Direção, Montagem e Finalização de: Fabricio Ramos e Camele Queiroz
Dir. de Fotografia: Fabricio Ramos
Desenho de som: Fabricio Ramos e Camele Queiroz
Pós-produção de imagem: Camele Queiroz
Ator: Wagner Pyter

BAHIA l HD l cor l 7min l 2013

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um encontro inesperado com o sagrado e o mistério (prévia)

O resgate do tema de um curta universitário que o realizador gravara dez anos antes o coloca em busca do reencontro de uma história. Fazer o filme se torna um encontro inesperado com o sagrado e o mistério.

[vimeo https://vimeo.com/96148297 w=570&h=320]

Em 2003, fui pela primeira vez na vida num terreiro de candomblé: eu estava fazendo um filme sobre a repercussão das mortes, em dias imediatamente consecutivos daquele ano, de um conhecido Pai de Santo de Ilhéus, o Pai Pedro, e do Bispo emérito da cidade, Dom Valfredo Tepe. Fui a Igrejas e depois fui ao Terreiro de Odé, a casa de Pai Pedro, onde o babalorixá tinha sido assassinado. Cidade chocada. Terreiro de Luto, não pude entrar nem gravar nada. Era um vídeo universitário., de viés político: buscava evidenciar, a partir da repercussão das mortes do babalorixá e do Bispo, a marginalização do Candomblé frente a oficialidade dedicada à Igreja por parte dos poderes institucionais, imprensa, sociedade.

Dez anos se passaram. Em 2013, resolvemos retomar o tema e fazer um outro filme partindo do mesmo tema, já em outro contexto, passado o impacto inicial que a cidade sofreu com a perda de dois de seus ícones religiosos.

Eu e Mel resolvemos, então, levantar recursos para viajar de Salvador até Ilhéus. Iniciamos uma campanha de financiamento coletivo através da internet e conseguimos dinheiro para custear a viagem, e também apoio de amigos na forma de trabalho voluntário (Juliana Freire, produtora, viajou conosco) e de hospedagem solidária (a amiga Lú nos ofereceu todo o conforto). O cineasta Henrique Dantas emprestou equipamento de áudio, e a DIMAS – Diretoria de Audiovisual e Multimeios da Fundação Cultural da Bahia emprestou equipamento de iluminação, através do Núcleo de Apoio à Produção Independente.

Decidimos ir a Ilhéus sem pesquisa prévia, passar lá uma semana, câmera na mão, buscando reencontrar a história. Eis que a história esperava por nós. Lugares inesperados, improvisos, sentimentos: a busca do filme faz surgir novos acontecimentos, novas experiências. Filmar o curta “As Cruzes e os Credos” foi ir a um encontro inesperado, mas no fundo, secretamente esperado por cada um que participou desse encontro. Mas um filme é um filme, que fale por si.

A ideia do filme é provocar uma reflexão através de nossa própria experiência de fazer o filme. Uma reflexão que envolve as raízes de nossa cultura afroíndia, o compromisso dos adeptos com o Sagrado, e o lugar do cinema, ou de um certo cinema.

Nossos agradecimentos a todas e todos que confiaram na proposta e apoiaram direta ou indiretamente a realização do filme, que segue em processo. A prévia é uma amostra que sugere os caminhos do nosso trabalho.

nota: Fé e má-fé

Se um juiz se arvora a dizer o que é religião ou não, com base no preconceito de sua classe, só confirma a regra – o Espírito resiste à religião. Importa a Fé, sim. O Judiciário brasileiro é apenas uma Má-fé…

Captura de Tela 2014-05-17 às 22.26.29

Com Maria Marta, no Terreiro de Odé, casa de Pai Pedro, em Ilhéus. Abr/2014.

Nasci e cresci dentro da tradição protestante que me foi ensinada desde meus avós no interior da Bahia. Mais tarde, como é natural, me embrenhei em filosofias ocidentais, iluministas, niilistas, pessimistas, poéticas – deus está morto. Flertei com as filosofias orientais, li o Bhagavad-gita, filosofia védica… o fato é que eu tinha sempre um livro à mão, seja a bíblia, a vontade de poder, uma teoria acadêmica qualquer, ou um ditirambo árabe, um poema hindu. Era o verbo, escrito e impresso, editado e comercializado.

Há dez anos, fui pela primeira vez na vida num terreiro de candomblé: fui ao Terreiro de Odé, casa que Pai Pedro chamava de mansão. Pedro Farias tinha sido assassinado em Ilhéus – eu estava fazendo um filme sobre a repercussão das mortes, em dias imediatamente consecutivos, de um pai de santo conhecido e do bispo emérito da cidade. Não pude entrar no terreiro, fiquei na porta. Luto. Respeito. Fui embora. Voltei dez anos depois, pra fazer outro filme… sobre este filme, que ele fale por si, em breve.

Mas escrevo só para dizer que, de todos os livros que tive às mãos, de toda filosofia colonizada e ressemantizada, de todo orientalismo hindu retraduzido do francês e do inglês, de todo fast food intelectual, de tudo isso escrito, editado e impresso, a experiência mais simples e bonita que eu tive sobre espiritualidade aconteceu em Ilhéus, sentado no chão, no interior de um terreiro de candomblé, numa conversa, com olhares, pausas e sorrisos e tudo o que a oralidade traz. A sabedoria de raiz afroíndia, africana, indígena, nativa do mundo, da África, da América Indígena, tradição que resiste, prescindindo de livros, na força de povos e culturas sistematicamente exterminados, de identidades violentadas, de cima e de baixo, pela lógica de poder racista institucionalizada ou não. Resiste, existe, é Real e é forte. E mais ainda, é Beleza, grandeza e Fidelidade. Na Igreja ou no Terreiro, Olorum é Deus, Cristo é Oxalá, e o compromisso com a Religião é a fé de quem a vive, todo dia, no corpo, na mente e na alma.

Não precisamos ir à Índia ou à metrópole, se não quisermos, buscar o sentido do Sagrado que perdemos, que nos foi solapado, seja pelo fascismo do consumo, seja pelas caricaturas de “religiões” que degeneram por aí. Mas a tradição que nos rodeia aqui e agora, no chão tropical de Salvador, é que nos ensina – numa linguagem mais nossa e mais viva, porque mais próxima da gente – todas as coisas que a sabedoria humana foi capaz de universalizar, escritas ou orais.

Se um juiz se arvora a dizer o que é religião ou não, com base no preconceito de sua classe, só confirma a regra – regra que quer matar a exceção que resiste, porque sua natureza é resistir, tal como a Arte resiste à Cultura que a engendra. Parodiando Godard, Religião é a regra, Espírito é a exceção. O Espírito resiste à religião. Importa a Fé, sim. O Judiciário brasileiro é apenas uma Má-fé… institucionalizada! que reproduz os preconceitos todos contra os quais quem tem espírito, luta.

Sigamos no aprendizado. Com ou sem religião, cada qual no desespero ou na esperança de sua crença ou de sua negação. Importa é o Espírito, camaradas. Axé. Nemastê. Amém.

notas nos muros – 1

classe média da favela

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Calabar. Salvador/Ba.

Essa ideologia de categorizar extratos da classe trabalhadora como “nova classe média” não é uma forma de fragilizar as identidades de classe, explorando a velha ojeriza das classes médias contra as classes pobres? – Filmando, conversei com moradores de favelas de Salvador que se consideram “classe média”, vivendo destinos marcados pela precariedade dos direitos civis, a meio caminho entre a penúria e um mercado de massas emergente (em vastas áreas de favela, há regiões de extrema pobreza, mas também outras que não têm saneamento, nem saúde nem segurança, mas têm TV de plasma e assinatura de TV paga, e variações dessas situações). Ficam marcadas a fragilização da identidade de classe, sim, (embora prevaleça a ética do trabalho), o vínculo íntimo e polimorfo com a religião e a sobrevivência massificada na grande metrópole, que exige esforços de autolegitimação e de esperança: ser “classe média”, que, nesses lugares, parece mais um estado de ânimo do que uma classe social.