nota: Fé e má-fé

Se um juiz se arvora a dizer o que é religião ou não, com base no preconceito de sua classe, só confirma a regra – o Espírito resiste à religião. Importa a Fé, sim. O Judiciário brasileiro é apenas uma Má-fé…

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Com Maria Marta, no Terreiro de Odé, casa de Pai Pedro, em Ilhéus. Abr/2014.

Nasci e cresci dentro da tradição protestante que me foi ensinada desde meus avós no interior da Bahia. Mais tarde, como é natural, me embrenhei em filosofias ocidentais, iluministas, niilistas, pessimistas, poéticas – deus está morto. Flertei com as filosofias orientais, li o Bhagavad-gita, filosofia védica… o fato é que eu tinha sempre um livro à mão, seja a bíblia, a vontade de poder, uma teoria acadêmica qualquer, ou um ditirambo árabe, um poema hindu. Era o verbo, escrito e impresso, editado e comercializado.

Há dez anos, fui pela primeira vez na vida num terreiro de candomblé: fui ao Terreiro de Odé, casa que Pai Pedro chamava de mansão. Pedro Farias tinha sido assassinado em Ilhéus – eu estava fazendo um filme sobre a repercussão das mortes, em dias imediatamente consecutivos, de um pai de santo conhecido e do bispo emérito da cidade. Não pude entrar no terreiro, fiquei na porta. Luto. Respeito. Fui embora. Voltei dez anos depois, pra fazer outro filme… sobre este filme, que ele fale por si, em breve.

Mas escrevo só para dizer que, de todos os livros que tive às mãos, de toda filosofia colonizada e ressemantizada, de todo orientalismo hindu retraduzido do francês e do inglês, de todo fast food intelectual, de tudo isso escrito, editado e impresso, a experiência mais simples e bonita que eu tive sobre espiritualidade aconteceu em Ilhéus, sentado no chão, no interior de um terreiro de candomblé, numa conversa, com olhares, pausas e sorrisos e tudo o que a oralidade traz. A sabedoria de raiz afroíndia, africana, indígena, nativa do mundo, da África, da América Indígena, tradição que resiste, prescindindo de livros, na força de povos e culturas sistematicamente exterminados, de identidades violentadas, de cima e de baixo, pela lógica de poder racista institucionalizada ou não. Resiste, existe, é Real e é forte. E mais ainda, é Beleza, grandeza e Fidelidade. Na Igreja ou no Terreiro, Olorum é Deus, Cristo é Oxalá, e o compromisso com a Religião é a fé de quem a vive, todo dia, no corpo, na mente e na alma.

Não precisamos ir à Índia ou à metrópole, se não quisermos, buscar o sentido do Sagrado que perdemos, que nos foi solapado, seja pelo fascismo do consumo, seja pelas caricaturas de “religiões” que degeneram por aí. Mas a tradição que nos rodeia aqui e agora, no chão tropical de Salvador, é que nos ensina – numa linguagem mais nossa e mais viva, porque mais próxima da gente – todas as coisas que a sabedoria humana foi capaz de universalizar, escritas ou orais.

Se um juiz se arvora a dizer o que é religião ou não, com base no preconceito de sua classe, só confirma a regra – regra que quer matar a exceção que resiste, porque sua natureza é resistir, tal como a Arte resiste à Cultura que a engendra. Parodiando Godard, Religião é a regra, Espírito é a exceção. O Espírito resiste à religião. Importa a Fé, sim. O Judiciário brasileiro é apenas uma Má-fé… institucionalizada! que reproduz os preconceitos todos contra os quais quem tem espírito, luta.

Sigamos no aprendizado. Com ou sem religião, cada qual no desespero ou na esperança de sua crença ou de sua negação. Importa é o Espírito, camaradas. Axé. Nemastê. Amém.

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