Sou candidato em Salvador. Minhas duas propostas:

Captura de Tela 2014-09-08 às 03.13.03# Mercado Modelo

Transformar todo o prédio, por fora e por dentro, em um monumento à memória da injustiça e da loucura racionalizada, em memória de todos os escravos, de ontem e de hoje. —- Reza a lenda que, no subsolo do lugar, jaziam escravos vivos a mercê da enchente e da vazante da maré, acorrentados, num ambiente úmido, escuro e quente, a espera de serem leiloados como propriedade. Escravos, propriedade, trabalho. Memória. Escravos de ontem e de hoje. —– Por um mercado modelo que nos faça refletir sobre o modelo de mercado – sobretudo do mercado de trabalho.

# Cinema

Retirar as salas de cinema de dentro dos centros comerciais, ou shoppings, e reabrí-las nos bairros, nas periferias, na cidade baixa! nos ambientes da vida da baixa renda, do baixo calão, do amor não comercial, acessíveis àqueles que vivem a vida imediata, cuja percepção do tempo só se iguala a de todas as pessoas no cinema. O objetivo também é introduzir o hábito de ir ao cinema e não de ir aos filmes, ainda que o projeto preveja a exibição semanal de “Os Deuses e os Mortos” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, alternadamente, entre outros filmes, seguidas de debate regado a cerveja artesanal a preços subsidiados com recursos do FSA. E cuidado com os milhões: o mercado modela.

(Em tempo, o aumento quantitativo de recursos do FSA vem acompanhado de um amadurecimento qualitativo acerca dos modelos de políticas públicas para o cinema e o audiovisual? – ou é “modelo mercado” e pronto?).

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nota: cultura eleitoral

Captura de Tela 2014-09-08 às 02.21.04Aninha Franco, conhecida dramaturga em Salvador, escreveu um texto reacionário em defesa de ACM, o primeiro, como patrono da “cultura” na Bahia. Na prática, a autora professa a nostalgia de um tempo em que um punhado de comerciantes e industriais podia se dizer possibilitador ou dono da “cultura e da arte”, institucionalizadas como mercado e turismo. Ao carlismo, enquanto controlador do Estado, cabia o controle da cultura, realizando transações de mercado e de publicidade em vez de políticas públicas, favorecimentos em vez de democratização, reafirmação das práticas do clientelismo e do autoritarismo em vez de estímulo à arte independente. O carlismo, em seus efeitos, suprimia o artista para melhor controlar a “arte”, favorecendo, claro, os artistas que o auxiliavam nessa “tarefa”.

Entretanto, um texto como esse de Aninha Franco não teria sequer sido possível se, em oito anos de governo do PT, a cultura e a arte fossem consideradas como algo importante na esfera das políticas públicas no Estado (mesmo tendo em conta os intermitentes editais, importantes, mas também frágeis ações de governo que não se consolidaram). O mais trágico, além do espaço que se abre para textos reacionários de campanhas de última hora, é que as reações mais animadas contra eles só ocorrem em vésperas de eleições, e se valem sempre do nome de alguém ou de algum partido, sempre expressando alguma urgência eleitoral cujas justificativas sequer aparecem claramente. Não participa da discussão, necessariamente, a necessidade de fortalecimento e  ampliação de políticas públicas mais consequentes em torno da arte.

Nesse sentido, o texto de Aninha Franco, embora interessado e reacionário, é um sintoma verdadeiro – e talvez necessário – do atual cenário político e cultural na Bahia. É quando a disputa eleitoral sequestra a arte, desfigurando-a, explorando-a, extorquindo-a, corrompendo-a e violentando-a.

Penso que – e isso devia valer para Aninha Franco, mas também para os seus críticos –  um artista decidido a desempenhar seu papel, diante das precariedades tão bem conhecidas do país e especialmente da Bahia, deveria pôr em alerta o senso crítico, em vez de buscar apenas facilitar a própria vida, tendo sempre o cuidado de não cruzarmos a incerta fronteira que separa a “moral” do moralismo.