nota: o que acontece além dos muros dos festivais de cinema?

Captura de Tela 2014-11-05 às 20.31.20Li um artigo no caderno 2 do A Tarde da última segunda, 3, intitulado “O cinema brasileiro não vai ao paraíso”, de Raul Moreira (jornalista e cineasta), reproduzido também no sítio Caderno de Cinema. A partir do bem-vindo artigo, reflito:

Raul acusa que o cinema autoral brasileiro pós-retomada – a julgar pela programação do Panorama este ano – mostra sinais de esgotamento. Ele livra, como exceção, o cinema pernambucano de sua acusação e lamenta que, tal como Glauber o fez com Terra em Transe, o cinema já não antecipe (nem sequer aborde de forma potente) momentos históricos, mesmo em tempos tão ricos como os de agora, politicamente falando. Inclusive, o colunista menciona a possível influência dos mecanismos atuais de financiamento do cinema nas questões abordadas ou não por esse cinema. Mas a curadoria de certos festivais de cinema é referência bastante para sondar o que está acontecendo no corpus cinematográfico e cultural, e portanto, político no Brasil? Eu acho que não.

A cada edição, os festivais anunciam recorde de inscrições, e mesmo que aumentem um pouco o número de filmes exibidos, centenas, às vezes milhares, digamos, cerca de 80% ou mais dos filmes inscritos ficam de fora das competições. Trata-se, afinal, de competições que começam com a curadoria de cada festival, segundo as lógicas (estéticas ou não, temáticas ou não) que cada um escolhe. Pelo que vejo, as curadorias de festivais brasileiros ousam muito pouco, ou quase nada, têm medo de arriscar (falo especialmente dos curtas!), por isso – concordando com Raul – os curtas em questão “repetem bulas”, quando olhamos com despretensão o quadro geral dos festivais mais recentes. Para onde vai esse volume de curtas rejeitados pelo circuito das curadorias integradas nos principais festivais? Vão achar soluções por aí, seja pela internet, ou por guetos ainda não configurados, que instrumentalizem a internet e alcance espaços reais e virtuais.

Há muita coisa acontecendo por aí, muito além dos muros dos festivais de cinema e do radar de seus curadores. Coisas que são difíceis de historiar ou criticar agora, e mesmo de perceber, porque não estão fazendo parte de certo barulho imediato. Quando uma cena se agita, as instituições (entram aí os festivais e os estatutos mesmo da curadoria, da crítica, do mercado etc) têm capacidade mais rápida de resposta, quando lhes convém responder. Mas nem sempre têm capacidade de perceber certo cinema para o qual a política (no sentido que Raul coloca) deve ser submetida às realidades vividas, à vida mesma, às crises reais. Crise é riscos, e instituições são formas de controlar os riscos. Vejamos o cinema de Pernambuco ou da Cinelândia. Na Bahia algo está em curso também, mas poucos sabem disso, menos ainda as instituições.

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