os negocineastas e seus vorazes jogos

Ontem, 19, véspera do Dia da Consciência Negra, fui ao cinema de um banco que leva o nome de Glauber e que fica na praça Castro Alves, em Salvador. Segundo o jornal A Tarde do dia, jornal de maior circulação por aqui (e dos mais decadentes), ia passar lá um filme latinoamericano. Mas, quando cheguei no cinema-banco (Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha), o cinema-banco informou que era mentira do jornal, jornais mentem, afinal, e que o filme latinoamericano tinha sido substituído por “Jogos Vorazes” – a programação do folder do cinema-banco provava que era o jornal o mentiroso, e não o cinema.

No momento, tudo isso me deixou irado contra Bancos e Mídia. Mas razoei na cuca já em fúria: qual o objetivo de um banco? qual a sua natureza orgânica? Ainda: o responsável pelo cinema-banco Itaú-Glauber (o nome Itaú vem sempre na frente) é também dono de festival de cinema internacional que acontece em Salvador, o Panorama, todos conhecem. Ele (ou eles, digo dono como estatuto de controle) escolhe, por suposto, os filmes que serão vistos no seu festival internacional que tem uma mostra exclusivamente baiana, para filmes baianos; e ele é também diretor de cinema, que faz filmes com recursos públicos e que passam em seu festival (e em outros), e no seu cinema ( e em outros).

Aí fui razoando: o cinema baiano (que tem uma mostra só dele no festival Panorama) se elevou à condição de sujeito eleitoral nessas eleições! Dentre os cineastas que conformam o corpo do cinema baiano, não sei exatamente quem estava e quem não estava ali, embora role uma lista por aí, que não aparece na propaganda Muda Mais.

Captura de Tela 2014-10-23 às 11.58.12Eu fiquei um pouco preocupado com essa atitude do cinema baiano, embora eu tenha compreendido a delicadeza do momento eleitoral. Mas vá lá: embora estejamos misturando alhos com bugalhos nesse texto, estamos a falar de cinemas-bancos, e – para quem não se ligou – esse tema se liga aos bancos mas também à indústria petroleira e ao Estado que, por sua vez, tem mais de 1 Bilhão de reais para investir no cinema (baiano também?), cujos mecanismos legais para realizar esse investimento estão em construção e em disputa – na sociedade e, claro, no Governo Federal (trata-se do FSA – Fundo Setorial de Audiovisual).

Nada qualitativamente novo, portanto. Quantitativamente, trata-se de um volume de grana maior do que aquele que todos os governos latinoamericanos juntos dedicam ao estímulo da produção de cinema. Trata-se de muita grana, necessária, que se diga, ao desenvolvimento do cinema independente. Mas, até o momento, as políticas públicas para o cinema não acompanham qualitativamente o aumento quantitativo de recursos financeiros. Mas tudo isso está em disputa, como já dito. E você chega no cinema em Salvador, que é um banco, que é de um dono de festival, que é de um cineasta, e o filme latinoamericano deu lugar a “Jogos Vorazes” – que teve a maior estreia de cinema no Brasil e ocupou mais da metade das salas de cinema do país.

Negocineastas, portanto: cineastas que fazem do cinema uma negociata ao mesmo tempo em que uma negação do cinema. Os negocineastas são players de uma voracidade tal que, se tivessem meios e se fosse necessário, ocupariam militarmente as salas, tal como o Governo apoiado pelo cinema baiano faz, para ficar num só exemplo, na favela da Maré (e olha só o que acontece lá: aqui, e segue também um blog chapa-branca, para não dizerem que minto: aqui) para controlar a vida dos pobres através de uma gestão policial. A gestão dos negócios dos negocineastas ainda não exige tal drasticidade (notem que não falo dos altos executivos das majors, estes sim, têm relações estreitas com departamentos militares de estado; os negocineastas são cineastas). Por enquanto, os negocineastas se limitam a apoiar festivamente governos que promovem intervenção militar – em favelas.

VENTOS DE AGOSTO

Não pude ver o tal filme latinoamericano que o jornal mentira e que o cinema-banco expulsou para dar lugar a “Jogos Vorazes”. Mas acabei assistindo um filme latinoamericano pernambucano, discretamente em cartaz no último andar do mesmo cinema-bank! Sim, as contradições do sistema são ricas. Aliás, vi um filme numa sessão involuntariamente exclusiva: somente eu e Mel (e pouco depois outra pessoa adentrou a sala) sozinhos a dar sentido e existência àquela sessão.

Captura de Tela 2014-11-20 às 11.23.06Foi bom, porque não vimos o filme que queríamos, mas quisemos bem o filme que vimos.

O filme é “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro (trailer). O belo filme – mais simples do que belo, e por isso mesmo, de uma beleza profunda – ultrapassa a reflexão sobre a vida e a morte, mas alcança um pensamento sobre o fim do mundo, e sobre vários mundos. Entre os ventos fortes, as ameaças sutis à memória e à vida, a atenção literal, presencial e prática que o diretor dedica à captação desses ventos fortes, o filme nos defronta com Iansã e Iemanjá, com os raios e trovões e com o Mar, e ao mesmo tempo com a morte e o progresso que não é outra coisa senão a distância da roça de côco, embora o côco chegue lá nas zonas do progresso. Mas o filme é tema para outro texto que não esse. Apenas reitero, vale ver, mesmo no cinema-banco.

Mas, tal como no filme de Mascaro, o cinema vai se impondo entre a vida e a morte, os fins de mundos todos e as inocências teimosas e vigorosas, confrontadoras e insistentes, incômodas como um cadáver a apodrecer no meio de um vilarejo. Inocências que trazem (e captam) os ventos fortes, os pulmões das pedras, e que ameaçam as ameaças.

Sempre filmes, afinal, que são pequenas insurreições contra as regras do jogo e de seus vorazes jogadores.

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