nota: Êxodo, de Ridley Scott, pode ser bom

Como o título do post revela, ainda não vi o filme que estreia hoje nos cinemas. Mas Êxodo – Deuses e Reis já me interessou: Isabela Boscov, crítica de cinema da Veja, acusa certas ambiguidades presentes no filme de Ridley Scott. Para ela, o filme, equivocadamente, e até meio que desonestamente, justificaria – nas entrelinhas – o terrorismo do Hamas (e, de quebra, outros terrorismos “não alinhados”, parêntese meu). Ela até admite certa pertinência nos paralelos entre a narrativa épico/religiosa da Bíblia, adaptada pelos quatro roteiristas, e os contextos atuais envolvendo o conflito entre israelenses e palestinos. Aponta, por exemplo, o contraste no filme entre a capital Mênfis e a cidade de Píton, onde vivem os judeus, fazendo relação com a esqualidez urbana de Gaza ou da Cisjordânia (lugares que parecem campos de refugiados ou favelas brasileiras) em comparação com a aprazível Tel-Aviv.

O texto de Isabela Boscov é cheio de acusações que se baseiam em frases como “insinua que” ou “dá a entender”, “parecem querer dizer” e “por meios de ilações, o filme…” – ou seja, o texto é fraco, irritante e dirigido. Mas o tema que ela tocou, embora claramente contra a resistência dos palestinos que ela chama de terroristas (o filme é acusado de desonesto precisamente por, segundo Boscov, propor reflexões sobre isso a partir da apropriação de uma narrativa classicamente judaica), mas, como eu dizia, o assunto que ela tocou amplia o meu interesse no filme: uma alegoria do atual conflito entre israelenses e palestinos, num filme roliudiano de 140 milhões de dólares, de Ridley Scott, e cujos atores são britânicos, galeses e australianos nos papéis de africanos (egípcios) e semitas. Mais ainda, o filme estreia num momento em que o Parlamento Europeu apoia o reconhecimento do Estado Palestino. – Tudo isso tornou até o texto mal escrito interessante, que dirá o filme, cujo debate pode ir além do cinema, como deve ser. A ver.

nota: “Mil vezes boa noite” (Erik Poppe, 2013)

O nosso lugar de expectadores (e de consumidores de imagens) dos grandes problemas de nosso tempo torna Mil vezes Boa Noite, do cineasta norueguês Erik Poppe, mil vezes necessário.

Juliette Binoche é Rebecca, influente fotógrafa de guerra cujo ímpeto vem da raiva que ela sente de uma sociedade cada vez mais anestesiada por uma cultura de consumo de imagens, que se preocupa mais com Paris Hilton sem calcinha do que com os grandes problemas do mundo. Por isso ela vai ao Afeganistão ou à África central e arrisca obstinadamente a própria vida para registrar situações – catástrofes, guerras e dramas – que façam as pessoas engasgarem “com o café da manhã quando abrirem o jornal”, como ela explica à filha adolescente.

O diretor Erik Poppe, ele mesmo ex-fotógrafo de guerra, preferiu confiar a uma personagem feminina as reflexões de sua própria experiência, inscrevendo-a no seio do cotidiano da vida familiar, dos dramas da relação conjugal e da condição de mãe. Rebecca enfrenta, ao mesmo tempo, os dilemas éticos de seu trabalho e as angústias de sua vida pessoal e emocional.

O seu marido, Marcus (Nicolaj Coster-Waldau), exige que ela abandone a profissão de risco. Ele e as duas filhas do casal – a adolescente Steph (Lauryn Canny em convincente atuação) e uma criança – sofrem, cada um à sua maneira, com o temor e a tensão permanente, além da distância geográfica e afetiva, que a profissão de Rebecca impõe à vida familiar. Rebecca está disposta à sacrificar muito de si para se adequar a uma vida tranquila e segura ao lado da família, mas é incapaz de fazê-lo.

Captura de Tela 2014-12-19 às 01.34.29Embora eu ache que a personagem Rebecca merecia uma motivação mais complexa do que a raiva, a atuação de Juliette Binoche desmancha no ar qualquer simplificação e aprofunda o caráter da personagem, mesmo quando Poppe recorre a cenas superficiais, como a caminhada do casal na praia. A abordagem de Binoche acaba alçando Rebecca a um grau de individualidade e força que não permite reduzir o seu ímpeto a um ressentimento ou a um desespero, embora tais sentimentos sejam compreensivelmente participantes de sua persona. Rebecca manifesta, no fundo, uma personalidade trágica.

Na primeira sequência do filme, aliás, o impacto ético e formal já nos é revelador: Rebecca acompanha e fotografa um grupo de mulheres que simula um ritual fúnebre que culmina com a preparação de uma jovem para um atentado suicida, em cujo corpo são colocadas – lenta e cautelosamente – as bombas. Rebecca acompanha todo o processo até a explosão e a sequência expressa com eficácia a dualidade entre a objetividade da fotografia e as emoções da fotógrafa.

Eu disse que Mil vezes Boa Noite é necessário porque nos coloca, nós leitores de jornais e consumidores de imagens, que conhecemos através das imagens as guerras das quais não participamos (embora tenhamos nossas guerras por cá), frente à frente com a imagem de Rebecca, uma mulher que nos comunica seus dramas e traumas, suas razões e seu ímpeto, e vive as guerras do mundo e suas consequências na sua vida. No final, o filme acerta ao intensificar o mesmo contexto emocional do seu início, mostrando um drama que, embora pareça bem longe daqui, distante de nosso ocidente tropical (e da Europa do filme), sabemos que é aqui mesmo, também. É aí nesse final que não escapamos: já não podemos suspender a realidade em favor da imagem, nem mesmo do cinema.