nota: “Depois da Chuva” (2014)

Captura de Tela 2015-01-26 às 14.59.18 Filme político, mas que não reduz o cinema à política, “Depois da Chuva” explora um drama existencial juvenil, ambientado em 1984, num Brasil que, depois de uma ditadura civil/militar que se prolongou por vinte anos, dava seus primeiros passos na direção de uma abertura democrática.

Caio (Pedro Maia), adolescente que vive o clima das transformações políticas no país no seu universo escolar, nas ruas de Salvador junto com seus amigos anarquistas e, menos, no seio de sua pequena família afetivamente destroçada, de classe média, cujo pai, sempre viajando ocupado “correndo atrás de dinheiro”, sequer aparece nem em casa nem no filme, e a mãe é uma lacônica e distante dona de casa. Na escola, Caio conhece Fernanda (Sophia Corral) e na companhia dela vive parte de suas descobertas tipicamente adolescentes: rebeldia e afirmação, amor, carência e angústias.

Não obstante a boa atuação do casal de protagonistas (Pedro maia e Sophia Corral, atores não profissionais estreantes!), “Depois da Chuva” aborda um tema forte, mas no fim das contas, é um filme fraco. Os diretores Claudio Marques (que é também o roteirista) e Marília Hughes têm uma reconhecida e premiada carreira no campo dos curtas, com os filmes “Carreto” e “Nego Fugido”, ambos de 2009, entre outros. “Nego Fugido”, aliás, é uma impressionante reflexão sobre a imagem e o imaginário através do tradicional folguedo em Santo Amaro. Mas em “Depois da Chuva”, os diretores baianos não conseguiram fazer dos fragmentados bons momentos do filme, um longa.

A mãe de Caio, a personagem lacônica e distante, nos parece caricatural. Sua angústia, embora patente, não convence dramaticamente e acaba enfraquecendo a personagem do filho Caio, nas cenas em que contracenam. Há um melancólico núcleo anarquista (cuja angústia também não convence) que só aparece para perambular niilismo e cujo desfecho é um suicídio um tanto grosseiro e previsível.

Já as cenas em que Caio contracena com Fernanda são férteis em sutilezas, especialmente na forma como retrata as mudanças de caráter do jovem protagonista anarquista que, talvez por amor, passa a moderar seu radicalismo político juvenil e a acreditar na via eleitoral na disputa pelo grêmio estudantil. Caio passa até mesmo a desejar ser popular na escola.

A cena da apresentação do grupo de Caio num festival escolar, com os amigos tocando punk travestidos de mulheres, chocando a professora mas animando vários alunos na plateia – é um dos bons momentos do filme, bem construído no ritmo e com força dramática, assim como as cenas de Caio e Fernanda, momentos favorecidos pela boa fotografia e pela trilha sonora que permeia o filme como um todo. Na narrativa, Salvador é visualmente apenas insinuada, mostrando as ruas quase sempre vazias e sem vida, escapando de estereótipos e enfatizando o drama interior de Caio.

Captura de Tela 2015-01-26 às 15.05.53Em que pese alguns clichês (jargões panfletários, os conflitos entre Caio e seus amigos anarquistas, Caio e Fernanda esgrimam romanticamente com galhos num jardim e, sobretudo, o da cena inicial, com alunos discutindo política na sala de aula), o tema do filme é relevante e aborda o período de abertura política, como já foi dito aqui e também por inúmeros críticos e jornalistas, período que, embora definidor do país, é pouco tematizado por nosso cinema. Cabe salientar, aliás, que o filme foi muito bem recebido por vários críticos e em festivais nacionais e internacionais, premiado, inclusive, no Festival de Brasília e no Harlem International Film Festival, de Nova York.

De todo modo, é um filme que vale ser visto por algumas ousadias formais ( a icônica inserção do comercial de jeans Starup, o Poema em Linha Reta musicado, embora descontextualizado) e pelo tema que, além de tudo, mostra Salvador em sua versão punk. Tema que deve voltar a ser explorado, espero.

Trailer oficial:

Camille Paglia e Nicole Brenez – controvérsias: Arte, Star Wars, internet e arqueologia do cinema

Captura de Tela 2015-01-14 às 12.59.12Interessante. Camille Paglia é controversa intelectual “ganhou notoriedade analisando as representações da arte na cultura ocidental e suas inevitáveis associações com política, sexo, religião e sociedade”, e que se diz também preocupada em “absorver a história completa do cinema”. Paglia diz que ‘Star Wars’ é a última obra-prima da História da Arte (entrevista a O Globo, out/2014).

Já Nicole Brenez, que tem sido reconhecida como uma das vozes mais influentes da cinefilia contemporânea, considera Star Wars “péssimo”. São dela, Nicole, as palavras:

“É um dos casos mais estranhos da história do cinema é George Lucas. Porque ele fez uma obra-prima absoluta, THX 1138, que é um dos filmes mais maravilhosos e radicais de todos os tempos; o filme mais visionário, crítico, plasticamente e formalmente perfeito de todos os tempos. E então, ele também foi aquele que matou toda a criatividade dos anos 1970 fazendo Star Wars e outros filmes péssimos. Me pergunto como ele lida com sua própria consciência, sendo a melhor e pior coisa que já aconteceu em Hollywood. Evidentemente, THX 1138 foi feito de forma independente, com a energia criada por Coppola para inventar maneiras economicamente independentes de criar filmes. De qualquer forma, é bastante estranho: como você pode fazer Star Wars depois de fazer aquilo?”

(Em entrevista ao site Cinética, em fev/2014).

Arqueologia cinematográfica

Interessante também notar a relação da produção de cinema que acontece de todas as formas na internet com o pensamento das duas controversas críticas.

Camille: “Adoro o YouTube e uso o site para assistir a clipes novos e antigos, além de virais feitos por jovens engenhosos do mundo inteiro”.

Nicole: “Hoje, acho que a principal tarefa de um historiador do cinema, talvez a mais emocionante e exigente, é tentar ver o que está realmente acontecendo na internet”, comenta ela, pensando no cinema direto político que se manifestou na difusão de imagens da Primavera Árabe, por exemplo, com formas estilísticas desconhecidas. E completa “Eu tenho certeza que existem tesouros cinematográficos que aparecem na internet todos os dias, em todos os lugares”, criticando que 99,9 % da análise fílmica é dedicada a filmes do circuito comercial e, por isso, defendendo uma arqueologia de tesouros voltada para a produção que encontra na internet a sua vazão.

Interessante o que nos reserva o século 21 que, aliás, precisa começar logo…