Carnaval: tatuagem e cicatriz

Captura de Tela 2015-02-12 às 23.19.58Estou na Barra, a 15 metros de onde passam os trios, e mesmo assim não sei como está a festa. Vejo a alegria dos passantes trajando abadás e fantasias, coisa e tal, e a gente percebe que algo está mudando, a configuração do carnaval, me parece, vai reconfigurando as formas de alegria. O que advirá dessa mudança? Não sei.  Mas eu acabei mesmo foi de ver Tatuagem, o filme (trailer).

Não quero incorrer em comparações esdrúxulas, mas basta pensar no filme baiano do momento tendo em mente o filme pernambucano para perceber: culturalmente, a vida mais viva vai se transferindo da Bahia para Pernambuco, e tanto o cinema quanto o carnaval são apenas pequenas mostras disso.

Se o filme feito na Bahia, ambientado no período de nossa abertura política, termina com um clima desistido, o filme feito em pernambuco termina com um desafio cheio de vida. O primeiro desiste às portas da “democracia”, o último se renova no enfrentamento da ditadura através da atitude libertária. Um transforma anarquismo em nihilismo, o outro transforma cicatriz em tatuagem.

Aliás, esse carnaval vai passar, mas o carnavalismo cinemateatral do filme de Hilton Lacerda, esse fica – como tatuagem.

João Carlos Rodrigues sobre Almendros, dois filmes cubanos e liberdade de expressão:

Enquanto eu discutia com alguns amigos sobre  liberdade de expressão, do ponto de vista da esquerda e pensando também no atentado contra a Charlie Hebdo, me deparei com esse post do crítico João Carlos Rodrigues, publicado em seu facebook, que veio ampliar historicamente o alcance da discussão no âmbito do cinema e da arte, e tornar o nosso debate, portanto, mais interessante e livre. Aproveito para dizer que João Carlos Rodrigues é autor do ótimo Cine Danúbio, livro que reúne escritos do crítico publicados ao longo de quatro décadas, abordando diferentes aspectos do cinema brasileiro com a inteligência, fluidez e polêmica que marcam a escrita do autor. Mas, voltando ao post em questão, ele foi publicado no domingo, 25 de janeiro de 2015, seguido de um dos filmes que o texto menciona. Reproduzo-o. Com a palavra, João:

“Leia com atenção para entender o que vai ver.

Uma semana atrás postei aqui o curta cubano “P.M.” de Orlando Jiménez-Leal e Sabá Cabrera, de 1961, proibido pelo governo mesmo tendo sido produzido pelo Lunes de la Revolucion, um grupo de intelectuais revolucionários encabeçado por Guilherme Cabrera Infante e Carlos Franqui, que terminou no exílio.

Foi o primeiro claro sintoma da malfadada influência soviética no regime castrista, impondo a censura, etc. Quem viu o filme pode verificar que nada tinha de reacionário, e deduzir que foi um mero pretexto na luta pelo poder, com a derrota dos intelectuais diante dos burocratas chefiados por Alfredo Guevara (hay gobierno? soy a favor!). A única pessoa que defendeu o filme em toda ilha foi Nestor Almendros, jornalista e também fotógrafo e cineasta formado em Nova York.

Muito bem. O filme de Almendros “Gente en la playa”, do mesmo fatídico ano de 1961, foi também confiscado por ter sido feito de modo independente e a produção ter sido estatizada. O diretor conseguiu a princípio liberá-lo com novo título (“La playa del pueblo”) mas logo foi novamente interditado.

Assista e julgue você mesmo. O que há de contra revolucionário nessas imagens? Nada. Deve ser horrível viver sob um regime desses, onde as decisões são tão subjetivas.

Almendros, é claro, pulou fora de lá e fez brilhante carreira como fotógrafo na Europa e Hollywood, trabalhando com Eric Rohmer, François Truffaut e Terence Malik, e conquistando até um Oscar. Dirigiu também importantes documentários contra o regime castrista na questão dos direitos humanos e perseguição aos homossexuais. Lembremos dele com admiração e ternura.

Bom domingo.

[texto de João Carlos Rodrigues]