Filmes de alma (até para quem não curte o surf)

À primeira vista, os filmes documentais sobre surf podem parecer desinteressantes para quem não curte o esporte que é também estilo de vida e e visão de mundo, mas muito pelo contrário:

Fábio Fabuloso (2004)

Fábio Fabuloso [trailer], filme-cordel em forma de fábula, traz uma história de superação e um divertido retrato de Fabinho Fabuloso, um dos maiores surfistas brasileiros de todos os tempos, tudo com excelente trilha sonora. Direção de Pedro Cezar, Ricardo Bocão e Antônio Ricardo.

Blue Horizon (2004)

Blue Horizon [trailer] , interessantíssimo, acompanha durante dois anos dois dos maiores surfistas do mundo: Andy Irons, altamente competitivo, e Dave “Rasta” Rastovich, um freesurfer de alma que escolheu não competir. No mesmo mundo do surf, duas visões distintas de mundo e de vida. Dirigido pelo diretor de fotografia mais famoso do mundo surf, Jack McCoy.

The Heart & The Sea (2015)

Agora quero ver esse “The Heart & The Sea” (2015), do australiano Nathan Oldfield, que tem a participação do mesmo Dave Rastovich enre outros grandes nomes, e que, segundo a Fluir, oferece um olhar aprofundado sobre a íntima relação entre surfistas de alma e o oceano.

Reitero, indico esses filmes mesmo para quem não curte ou não pratica o surf. São filmes de alma.

nota: “Dólares de Areia” (2014) de Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas

por fabricio ramos.

Em Dólares de Areia, cujo roteiro – assinado pelos diretores Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas – é livremente inspirado no livro Los Dólares de Arena, de Jean-Noel Pancrazi,  Geraldine Chaplin, aos 70 anos, encarna Anne, uma rica mulher francesa que escolhe viver na República Dominicana, onde se apaixona por Noeli (Yanet Mojica), uma jovem dominicana pobre que vive de pequenos ganhos obtidos com suas relações com turistas europeus, com certa cumplicidade de seu também jovem namorado (vivido por Ricardo Toribio). Apesar do enredo simples e linear do triângulo amoroso, a trama assume contornos mais complexos que ultrapassam o drama afetivo e o tema do turismo sexual.

Captura de Tela 2015-04-28 às 14.58.08A personagem Anne, quando defrontada com a personagem Noeli, parece carregar, com seus olhos cálidos e melancólicos, a própria decadência europeia que escolheu viver na colônia, mas já não coloniza a cultura e nem explora o trabalho, mas coloniza afetos e explora a pobreza, com ternura, solidão e amor. Anne é carente e triste ao mesmo tempo em que é rica e vívida.

O namorado de Noeli é o típico rapaz afrolatinoamericano, percussionista, também pobre como Noeli (dividem um casebre no vilarejo), mas que não consegue ganhar dinheiro com música. Obrigado a procurar um trabalho que lhe renda algum, aparece queimando a floresta num trabalho insalubre, enquanto em outra cena, amigos ricos de Anne, enquanto bebem um drink, conversam sobre como a floresta era antes da chegada dos hotéis e do desmatamento naquela região do norte da República Dominicana. Quando Anne propõe levar Noeli para a França, a história de amor se desenrola, com poucas palavras, mas com silêncios intensos, vivificados pela câmera próxima, às vezes inquieta e tensa, às vezes distante e fixa.

Com essas sutilezas, o filme consegue se sustentar sem maiores invenções e compensar certas quedas de intensidade dramática. Mas o tema se expande, sem precisar se aprofundar em questões paralelas, isto é, sem que os subtemas predominem sobre o tema que conduz a narrativa: o laço afetivo entre Anne e Noeli e entre esta e seu namorado. Diferenças de classes e de mundos, de valores simbólicos e morais, de perspectivas de futuro e de imediatismo (questões de gênero, sexualidade e raça nem são tratadas enquanto roteiro), todos esses temas são apenas aludidos mais ou menos claramente, mas participam da trama de forma subjacente (assim como a insinuada e tépida tendência suicida de Anne).

Captura de Tela 2015-04-28 às 14.54.11A direção do casal Israel Cárdenas e Laura Guzmán, ele mexicano, ela dominicana, é despretensiosa e segura. Passa longe de recursos emblemáticos, sejam estes temáticos ou estilísticos, mas parecem querer, de alguma forma muito sutil, demonstrar que a República Dominicana (que é uma Ilha caribenha dividida ao meio, cuja parte ocidental é o Haiti) começou – como tantos países de nossa latinoamérica – com a dominação de latifundiários que tinham poder econômico, e atravessou o século 20 enfrentando ditaduras, intervenções norte-americanas e eleições fraudulentas. O filme não pretende, claro, condensar em si a complexidade da experiência histórica latinoamericana, mas exprime, através de momentos de delicadeza artística, sentimentos que se ligam às nossas experiências históricas.

Nesse ponto é que o filme me interessa mais: sentir que a história que ele conta poderia se passar em qualquer praia do litoral do Nordeste brasileiro, inclusive visualmente falando. Incrível como o Brasil é um país virado de costas para a América Latina. As barreiras linguísticas, a geografia e a história explicam algumas de nossas diferenças e distâncias, mas não bastam para justificar todo esse desencontro. Noeli e seu namorado são gente nossa, afinal, e muitos também reconhecerão em Anne uma melancólica e carente mulher rica que não é nada estranha aos nossos olhos. Mas Anne, quando triste e frustrada, pode escolher para onde ir, Paris?, enquanto a Noeli e ao seu jovem namorado, a dúvida e a incerteza os fazem perguntar um ao outro: e agora?

Conforme pesquisei, Dólares de Areia é o terceiro longa que o casal Israel Cárdenas e Laura Guzmán dirigem juntos. Realizaram juntos Cochochi (2007), sobre as aventuras e desafios de dois garotos em busca de um cavalo no noroeste do México, e Jean Gentil (2010), drama sobre o desespero de um haitiano que vaga pela ilha caribenha à procura de emprego. Julgo que vale tentar ver esses filmes anteriores.

TRAILER:

O quanto perdemos enquanto olhamos somente para o “poder constituído” da cultura?

Captura de Tela 2015-04-27 às 11.06.46Digamos que você queira fazer um filme…

É uma competição: é uma competição pelos recursos públicos; é uma competição para participar de festivais; é uma competição para ganhar prêmios; é uma competição.
O mais grave: a competição é decidida por “especialistas” – é uma comissão pra determinar quem leva e quem não leva grana da sociedade e do estado; é um grupo de curadores obrigados a excluir 90% dos competidores de sua mostra; é um júri obrigado a premiar um ou dois filmes de uma mostra em detrimento de 90% dos filmes exibidos.

O que acontece com esses 90% dos projetos “meritocraticamente” excluídos de processos supostamente públicos? Com esses 90% dos filmes barrados de aparecerem na janela de um festival ou dois, festivais privados, mas, quase sempre, financiados com recursos públicos?

Se estes filmes forem bons (pense no que significa “bom” para você), eles vão procurar, e vão achar ou criar, um caminho para encontrar seu público, e seu público vai procurá-los (olha que a internet deu errado, mas subverte – antes esses filmes acabavam, morriam, sumiam, inexistiam). O quanto perdemos enquanto olhamos somente para o “poder constituído” da cultura?

Mas será que o modelo impositivo de competição é o mais salutar para ampliar, aprofundar e fortalecer toda a força de expressão cultural e artística de um povo, uma sociedade, um país, um planeta? Ou isso é apenas um modelo excludente de um sistema viciado, vertical e autoritário?

Competição, em suma, é quando todos perdem para que alguém ganhe. Mas, ubuntu!, existem dinâmicas vivas cuja Ética imanente é fazer com que ninguém perca, ainda que alguns filmes vivam mais do que outros, e que alguns filmes simplesmente permaneçam.
Quem deve decidir sobre permanência, nesse caso?
Todo mundo.

(todas as outras questões em torno disso – produção e acesso aos filmes – são importantes, porém secundárias…).

Arqueologia cinematográfica

Nicole Brenez, que tem sido reconhecida como uma das vozes mais influentes da cinefilia contemporânea, critica que 99,9 % da análise fílmica é dedicada a filmes do circuito comercial e, por isso, defende uma arqueologia de tesouros voltada para a produção que encontra na internet a sua vazão. Pensando no cinema direto político que se manifestou na difusão de imagens da Primavera Árabe, ela diz que “a principal tarefa de um historiador do cinema, talvez a mais emocionante e exigente, é tentar ver o que está realmente acontecendo na internet” (…) “Eu tenho certeza que existem tesouros cinematográficos que aparecem na internet todos os dias, em todos os lugares”.

Camille Paglia, controversa intelectual conhecida por abordar tantos outros temas, se diz também preocupada em “absorver a história completa do cinema”. Ela diz: “Adoro o YouTube e uso o site para assistir a clipes novos e antigos, além de virais feitos por jovens engenhosos do mundo inteiro”.

Mas de quê nos servirá (e de quê servirá ao cinema) uma internet hipercentralizada nas mãos de poucas corporações sediadas em um só país, como “poder constituído” de controle da informação? Fica uma pergunta política: o que nos reserva o século 21? – que, aliás, precisa começar logo…

uma nota sobre “Casa Grande”, o filme

Captura de Tela 2015-04-25 às 14.22.49“CASA GRANDE” (2015, primeiro longa de Fellipe Barbosa) começa um tanto morno, amaciando o terreno, e segue num crescendo de tensão dramática e de riqueza narrativa até um desfecho sensível e bonito, em seu conjunto, especialmente se desconsiderarmos alguns poucos exageros. A perspectiva é o olhar de Jean, garoto de 17 anos que mora com os pais numa mansão na Zona Sul do Rio e vê a sua vida afetada pela decadência financeira da família.

Pode-se fazer um certo paralelo temático entre Casa Grande e Branco sai, Preto fica (2014), de Adirley Queiroz, e também com o aclamado O Som ao Redor (2012), de Kléber Mendonça Filho. Entretanto, acho que Casa Grande é o mais simples cinematograficamente (narrativa realista, linear) e o que melhor se resolve no aspecto em que esses três filmes podem dialogar em algum nível: conflito cultural, econômico e político entre classes sociais no Brasil, referenciado pela história (do passado, em O Som, do futuro, em Branco sai, e atual, em Casa Grande). É o que melhor se resolve porque seu crescendo dramático prescindiu de desembocar no clichê explosivo em seu desfecho, respeitando a sensibilidade burguesa e despolitizada de Jean, o garoto protagonista.

Desconsiderando aqueles poucos exageros (como uma cena de trote de sequestro dramaticamente pobre, caricata, desnecessária e destoante do resto do filme), é um dos bons filmes que vi nos cinemas nos últimos meses e acho que vai agradar especialmente a classe média jovem progressista (e até nem tão progressista) que, no fundo, quer ver no cinema menos espetáculo e mais de si mesmos, sem dispensar a crítica política e social, nem tampouco o amor. Vale ver.

Nosso curta “As Cruzes e os Credos” está em votação no Festival Internacional Somos Afro. Participe!

Cruces afiche JPG 300dpiNosso curta “As Cruzes e os Credos”, gravado em Ilhéus e viabilizado através de financiamento coletivo nas redes sociais, está em votação na plataforma do Festival Virtual de curtas SOMOS AFRO, que é voltado para temas ligados às identidades afro-descendentes na América Latina e no Caribe. O nosso filme é um dos 50 pré-selecionados entre 179 curtas de 32 países. Os mais votados nessa etapa irão para a Mostra Competitiva principal do Festival, sediado na Colômbia. O curta “As Cruzes e os Credos” pode ser assistido na íntegra (legendado em espanhol).

VOTAÇÃO

Você pode assistir o filme na íntegra no link (legendado em espanhol) em http://festival.somosafro.org/video/2

Para votar, para votar é simples e rápido: basta se cadastrar no site, apenas colocando seu email e criando uma senha, neste link: http://festival.somosafro.org/registrate. Em seguida acessar a página do filme [clicando aqui] e clicar na mãozinha à direita, e o voto será computado. Pronto.

A votação está aberta por todo o mês de abril. O curta está disponível online na plataforma do Festival para ser assistido na íntegra. Aos que se sentirem motivados, pedimos que assistam, votem e, se quiserem, nos enviem algum feedback, suas críticas e impressões. Pedimos também que, se puderem, divulguem a votação em suas redes!

Ficaremos muito gratos e é muito importante para nós!

Todos os demais filmes pré-selecionados e mais informações sobre o Festival Somos Afro podem ser vistos na página principal do Festival.

SOBRE O CURTA

“AS CRUZES E OS CREDOS” foi gravado em Ilhéus, Sul da Bahia, e a realização do filme contou com recursos provenientes de financiamento coletivo através das redes sociais, e também com hospedagem solidária e ajuda de amigos de diversas formas, diretas e indiretas. Além do Somos Afro, o curta participou também da Muestra Oficial: Fenavid – Festival Internacional de Cine Santa Cruz, Bolivia 2014.

Cruzes Foto 1Sinopse:

A partir das mortes de um Bispo e de um Pai de Santo e de uma reflexão sobre conflitos e interações entre candomblé e catolicismo, o realizador volta a Ilhéus para revisitar o tema de um curta universitário feito por ele há 11 anos. Dessa vez, fazer o filme se torna uma descoberta e um encontro inesperado com o sagrado e o mistério.

Ficha Técnica:

Roteiro, Direção e Edição: fabricio ramos e camele queiroz
Produção:
juliana freire
Câmera e Direção de Fotografia:
fabricio ramos
Som Direto e Montagem:
camele queiroz
Finalização de áudio:
haydson de oliveira
Edição e Finalização:
fabricio ramos e camele queiroz