O quanto perdemos enquanto olhamos somente para o “poder constituído” da cultura?

Captura de Tela 2015-04-27 às 11.06.46Digamos que você queira fazer um filme…

É uma competição: é uma competição pelos recursos públicos; é uma competição para participar de festivais; é uma competição para ganhar prêmios; é uma competição.
O mais grave: a competição é decidida por “especialistas” – é uma comissão pra determinar quem leva e quem não leva grana da sociedade e do estado; é um grupo de curadores obrigados a excluir 90% dos competidores de sua mostra; é um júri obrigado a premiar um ou dois filmes de uma mostra em detrimento de 90% dos filmes exibidos.

O que acontece com esses 90% dos projetos “meritocraticamente” excluídos de processos supostamente públicos? Com esses 90% dos filmes barrados de aparecerem na janela de um festival ou dois, festivais privados, mas, quase sempre, financiados com recursos públicos?

Se estes filmes forem bons (pense no que significa “bom” para você), eles vão procurar, e vão achar ou criar, um caminho para encontrar seu público, e seu público vai procurá-los (olha que a internet deu errado, mas subverte – antes esses filmes acabavam, morriam, sumiam, inexistiam). O quanto perdemos enquanto olhamos somente para o “poder constituído” da cultura?

Mas será que o modelo impositivo de competição é o mais salutar para ampliar, aprofundar e fortalecer toda a força de expressão cultural e artística de um povo, uma sociedade, um país, um planeta? Ou isso é apenas um modelo excludente de um sistema viciado, vertical e autoritário?

Competição, em suma, é quando todos perdem para que alguém ganhe. Mas, ubuntu!, existem dinâmicas vivas cuja Ética imanente é fazer com que ninguém perca, ainda que alguns filmes vivam mais do que outros, e que alguns filmes simplesmente permaneçam.
Quem deve decidir sobre permanência, nesse caso?
Todo mundo.

(todas as outras questões em torno disso – produção e acesso aos filmes – são importantes, porém secundárias…).

Arqueologia cinematográfica

Nicole Brenez, que tem sido reconhecida como uma das vozes mais influentes da cinefilia contemporânea, critica que 99,9 % da análise fílmica é dedicada a filmes do circuito comercial e, por isso, defende uma arqueologia de tesouros voltada para a produção que encontra na internet a sua vazão. Pensando no cinema direto político que se manifestou na difusão de imagens da Primavera Árabe, ela diz que “a principal tarefa de um historiador do cinema, talvez a mais emocionante e exigente, é tentar ver o que está realmente acontecendo na internet” (…) “Eu tenho certeza que existem tesouros cinematográficos que aparecem na internet todos os dias, em todos os lugares”.

Camille Paglia, controversa intelectual conhecida por abordar tantos outros temas, se diz também preocupada em “absorver a história completa do cinema”. Ela diz: “Adoro o YouTube e uso o site para assistir a clipes novos e antigos, além de virais feitos por jovens engenhosos do mundo inteiro”.

Mas de quê nos servirá (e de quê servirá ao cinema) uma internet hipercentralizada nas mãos de poucas corporações sediadas em um só país, como “poder constituído” de controle da informação? Fica uma pergunta política: o que nos reserva o século 21? – que, aliás, precisa começar logo…

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