nota: “Dólares de Areia” (2014) de Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas

por fabricio ramos.

Em Dólares de Areia, cujo roteiro – assinado pelos diretores Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas – é livremente inspirado no livro Los Dólares de Arena, de Jean-Noel Pancrazi,  Geraldine Chaplin, aos 70 anos, encarna Anne, uma rica mulher francesa que escolhe viver na República Dominicana, onde se apaixona por Noeli (Yanet Mojica), uma jovem dominicana pobre que vive de pequenos ganhos obtidos com suas relações com turistas europeus, com certa cumplicidade de seu também jovem namorado (vivido por Ricardo Toribio). Apesar do enredo simples e linear do triângulo amoroso, a trama assume contornos mais complexos que ultrapassam o drama afetivo e o tema do turismo sexual.

Captura de Tela 2015-04-28 às 14.58.08A personagem Anne, quando defrontada com a personagem Noeli, parece carregar, com seus olhos cálidos e melancólicos, a própria decadência europeia que escolheu viver na colônia, mas já não coloniza a cultura e nem explora o trabalho, mas coloniza afetos e explora a pobreza, com ternura, solidão e amor. Anne é carente e triste ao mesmo tempo em que é rica e vívida.

O namorado de Noeli é o típico rapaz afrolatinoamericano, percussionista, também pobre como Noeli (dividem um casebre no vilarejo), mas que não consegue ganhar dinheiro com música. Obrigado a procurar um trabalho que lhe renda algum, aparece queimando a floresta num trabalho insalubre, enquanto em outra cena, amigos ricos de Anne, enquanto bebem um drink, conversam sobre como a floresta era antes da chegada dos hotéis e do desmatamento naquela região do norte da República Dominicana. Quando Anne propõe levar Noeli para a França, a história de amor se desenrola, com poucas palavras, mas com silêncios intensos, vivificados pela câmera próxima, às vezes inquieta e tensa, às vezes distante e fixa.

Com essas sutilezas, o filme consegue se sustentar sem maiores invenções e compensar certas quedas de intensidade dramática. Mas o tema se expande, sem precisar se aprofundar em questões paralelas, isto é, sem que os subtemas predominem sobre o tema que conduz a narrativa: o laço afetivo entre Anne e Noeli e entre esta e seu namorado. Diferenças de classes e de mundos, de valores simbólicos e morais, de perspectivas de futuro e de imediatismo (questões de gênero, sexualidade e raça nem são tratadas enquanto roteiro), todos esses temas são apenas aludidos mais ou menos claramente, mas participam da trama de forma subjacente (assim como a insinuada e tépida tendência suicida de Anne).

Captura de Tela 2015-04-28 às 14.54.11A direção do casal Israel Cárdenas e Laura Guzmán, ele mexicano, ela dominicana, é despretensiosa e segura. Passa longe de recursos emblemáticos, sejam estes temáticos ou estilísticos, mas parecem querer, de alguma forma muito sutil, demonstrar que a República Dominicana (que é uma Ilha caribenha dividida ao meio, cuja parte ocidental é o Haiti) começou – como tantos países de nossa latinoamérica – com a dominação de latifundiários que tinham poder econômico, e atravessou o século 20 enfrentando ditaduras, intervenções norte-americanas e eleições fraudulentas. O filme não pretende, claro, condensar em si a complexidade da experiência histórica latinoamericana, mas exprime, através de momentos de delicadeza artística, sentimentos que se ligam às nossas experiências históricas.

Nesse ponto é que o filme me interessa mais: sentir que a história que ele conta poderia se passar em qualquer praia do litoral do Nordeste brasileiro, inclusive visualmente falando. Incrível como o Brasil é um país virado de costas para a América Latina. As barreiras linguísticas, a geografia e a história explicam algumas de nossas diferenças e distâncias, mas não bastam para justificar todo esse desencontro. Noeli e seu namorado são gente nossa, afinal, e muitos também reconhecerão em Anne uma melancólica e carente mulher rica que não é nada estranha aos nossos olhos. Mas Anne, quando triste e frustrada, pode escolher para onde ir, Paris?, enquanto a Noeli e ao seu jovem namorado, a dúvida e a incerteza os fazem perguntar um ao outro: e agora?

Conforme pesquisei, Dólares de Areia é o terceiro longa que o casal Israel Cárdenas e Laura Guzmán dirigem juntos. Realizaram juntos Cochochi (2007), sobre as aventuras e desafios de dois garotos em busca de um cavalo no noroeste do México, e Jean Gentil (2010), drama sobre o desespero de um haitiano que vaga pela ilha caribenha à procura de emprego. Julgo que vale tentar ver esses filmes anteriores.

TRAILER:

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