O que é feito da política na internet pós-facebook?

Não seria a hora de revisar as tendências políticas em rede, tanto em suas pautas quanto em suas dinâmicas, e especialmente quanto às suas formas e plataformas?

Captura de Tela 2015-05-29 às 12.26.56Em meados dos anos 2000 até recentemente, englobando, entre outros casos, a lei SOPA, a lei Sinde, a SGAE, leis cujas imposições refletiram no Brasil principalmente através do Senador Azeredo, do PSDB-MG (Lei Azeredo) e do Governo Dilma que, em contraposição aos Governos Lula, instrumentalizou o MinC pondo-o à serviço do ECAD e dos interesses de lobbys como o MPAA. E as resistências: os impactantes vazamentos do WikiLeaks, a morte de Aaron Swartz criminalizado por seu afã heróico de difundir livremente o conhecimento humano, as denúncias de Snowden acerca da hipervigilância ilegal e criminosa do Estado, as campanhas contra as prisões dos criadores do Pirate Bay, Megaupload etc. Todas essas leis de controle e de proteção dos interesses de grupos privilegiados e lobbys econômicos industriais não lograram, até aqui, se efetivar (a questão da neutralidade da internet continua em debate, e a infraestrutura da internet é uma questão subvalorizada, mas crucial). Todas essas leis visavam a solapar o potencial de energia criativa inerente à humanidade, que brota nas bases, nos lastros, e que atua transversalmente nas múltiplas realidades culturais em diversos níveis: locais, regionais e globais, com consequências incertas e explosivas, assustadoras para qualquer poder constituído.

Ou seja, a Política acontecia numa escala global a partir de ações reais e virtuais locais, numa interseção tão poderosa quanto bastou, por exemplo, para barrar a SOPA, fazer eclodir a primavera árabe e as acampadas pelo mundo, e muito mais coisas em escalas e experiências diversificadas.

Mas o quê acontece agora?

Os desdobramentos do Podemos e da Syriza, respectivamente na Espanha e na Grécia (ambos os países em meio de graves crises econômicas), embora importantes, conduziram tais lutas ao afã de se institucionalizarem na forma de partidos para lograrem graus de efetividades políticas dentro do sistema político estabelecido, para de dentro dele realizarem mudanças estruturais possíveis. Em paralelo, a política passou a acontecer em níveis nacionais, dificultando as interseções visto que cada país enfrenta seus contextos políticos próprios, limitados por legislações específicas e por situações econômicas e culturais peculiares em cada país ou região. A ação Política libertária e contestatória se dissipou e a Ética e Atitude hacker deu lugar à dinâmica, predominantemente, institucional e fragmentada.

O Facebook, corporação privada, passou a ser o vetor principal de articulações diversas (para articular desde ocupações, até protestos e rolezinhos), ao mesmo tempo em que governos cujas estruturas de controle e de vigilância, na maioria das vezes ilegais e autoritárias, requisitam o Facebook como principal colaborador para cerceamento, vigilância e controle de ações políticas. No Brasil, perigosamente, a corporação Facebook participa de projeto de inclusão digital, fruto de parceria do Governo Federal com corporações do Vale do Silício.  [http://migre.me/q3RCV]

Não sei se estou enganado, pois não estou antenado com o mundo da tecnologia (não uso zapzap, por exemplo, nem sequer celular com conexão à internet). Mas a internet, gradualmente, nesses últimos anos, tem reduzido o seu papel como ambiente anárquico e potente para a efervescência de uma emergente subcultura cujos valores fundem anti-autoritarismo punk com fascínio pelas tecnologias informacionais de ponta, embasados numa Ética colaborativa de livre e irrestrito acesso a tudo o que é produzido na esfera do conhecimento e da cultura.

Ocorre-me (me corrijam se for o caso) que essa redução da potência política da internet enquanto ambiente anárquico, contestatório e política e tecnologicamente inovador coincide proporcionalmente com a escalada do Facebook como vetor de tagarelices políticas e concentrador de polarizações e filtramento de informações.

Alternativas há, como o Diáspora, mas não alcançaram ainda o patamar do face. Não seria a hora de revisar – efetivamente e em maior escala – as tendências políticas em rede, tanto em suas pautas quanto em suas dinâmicas, e especialmente quanto às suas formas e plataformas?