Brasil e China fakes, Ai Weiwei e cultura marginal nas Bienal (sem concordância)

Captura de Tela 2015-08-06 às 10.24.49Eu ia dizer outra coisa, que envolvia um comentário pensando, paralelamente, a trajetória de Ai Weiwei, artista chinês de forte impacto político e presença nas mais importantes bienais do mundo, com as intervenções dos pichadores brasileiros que, claro, picharam uma igreja na qual dariam um workshop, participando da Bienal de Berlim em 2012 (os mesmos que picharam o espaço vazio da Bienal de São Paulo em 2010). O elo de ligação, a razão de comentar lado a lado (mas apenas pontualmente) esses artistas era: Bienais, política e arte (transgressão e crítica ao sistema).

Mas desisti de comentar sobre isso. A trajetória de Weiwei faz com que a intervenção dos pichadores brasileiros na Bienal de Berlim se esvazie de qualquer importância política e artística, não obstante o discurso dos pichadores.(Há vários filmes sobre ou com Weiwei, um dos que assisti é Ai Weiwei: The Fake Case (2013), documentário de Andreas Johnsen [trailer no Youtube].

A China que Weiwei enfrenta (ora sendo preso e vigiado, ora fazendo acordos para poder existir e resistir) não é tão diferente do Brasil, considerando não a cultura e a arte, obviamente, mas a posição atual dos dois países no capitalismo globalizado. Embora a China seja potência militar e nuclear, e o Brasil ainda não tenha degenerado a esse ponto, embora se esforce muito para isso, ambos os países funcionam meio que como reservas naturais e como escravos disponíveis para a exploração do mundo desenvolvido (é dizer, o domínio do Ocidente em decadência). O trabalho (mão de obra) barato da China e o regime estatal autoritário da economia e da política torna o país competitivo em vários setores produtivos. No Brasil é a exportação de Commodities, tradição histórica mesmo em meio à variação dos ciclos produtivos, que determina o poder econômico e político e seus efeitos e defeitos, seus vícios, por assim dizer, também de tradição histórica, sem desconsiderar os importantes avanços políticos, sociais e econômicos do país. Ai Weiwei, mesmo transitando pelo sistema cultural que lhe permitiu construir um ateliê particular de 1 milhão de euros (que o governo chinês derrubou) e participando de “obras” monumentais como a construção do estádio “Ninho de Pássaro” em Pequim, consegue, através de seu trabalho, sustentar uma crítica mais consistente e profunda dos problemas de seu país do que os pichadores brasileiros que, também convidados para importantes bienais (no caso, a de Berlim), reproduzem a cultura periférica globalizada como se fosse contestação e rebeldia, mas – quando inserida no circuito oficial das bienais – aparece mais como produto comercial calcado no grande negócio da contracultura, que utiliza o inconformismo como vetor, sem com isso subverter concretamente os motivos alegados do inconformismo: injustiça social e o cerco à individualidade libertária. Sem prolongamentos, resumo: trata-se de agitação cultural contra as normas estabelecidas, mas sem ameaçar tais normas, mas antes, condicionando-se a elas – como parte do  show bienal.

Particularmente, eu tendo a endossar sempre as posições libertárias e contestatórias. Mas sugiro pensarmos sobre os extratos das classes produtoras de análises e pensamentos políticos e de ideias artísticas dominantes que operam na China e no Brasil (extratos que são, com efeito, globalizados, mas mantenho o meu superficial cotejo entre os dois países). Tais extratos não têm nada de libertários, sabemos, e, se precisam tolerar estrategicamente um Ai Weiwei, ou mesmo convidar uns pichadores de estética periférica (vejam bem, pichadores, não grafiteiros) para bienais, é porque o sistema não promove a conformidade, mas se sustenta do estímulo ao inconformismo, desde que não ameace suas bases e tendências, mas antes as fortaleça e consolide. Afinal, a propagação da cultura periférica globalizada (funk, hip-hop, grafite, pichação) resulta em expansão de demandas de mercado, convertendo a cultura marginal em moda e integrando-a plenamente no modelo de consumo capitalista, inclusive, industrial e mainstream.

Eu não gosto de muros nem de muralhas, nem em Berlim nem aqui nem na China. Acho boa a participação dos pichadores brasileiros em qualquer bienal. Mas no que se refere à contestação e subversão dos relatos dominantes, são mais eficazes os pichadores que povoam os muros anônimos urbanos e confrontam as muralhas simbólicas, do que aqueles que, para serem alternativos, precisam se incorporar – de bom grado, ainda que agressivamente.

Abaixo, na Bienal de Berlim, Djan Ivson, ou Cripta Djan, picha o curador da Bienal em meio à pequena confusão. Veja matéria na Folha.

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