“Muros” e “Mater Dolorosa”: tutus do Brasil

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frame de “Muros”, filme de Fabricio Ramos e Camele Queiroz que ficou entre os 10+ favoritos do público em São Paulo

No 26º Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo – Kinoforum, à exibição do “Muros” (BA) se seguia a do “Mater Dolorosa” (RJ), de Daniel Caetano e Tamur Aimara. Em uma das sessões em especial, por estar menos ansioso, eu fiquei fortemente impactado: o final de “Muros” de alguma forma antecipa os primeiros ruídos de “Mater Dolorosa”, ou pelo menos assim o senti naquela sessão: os filmes se ligavam pelo tutu.

Tutu. O historiador Dilton Araújo, em seu surpreendente livro “O Tutu da Bahia: transição conservadora e formação da nação (1838-1850)” [PDF], explica que o tutu, no vocabulário político da época, era o “bicho papão”, “algo que incutia medo”, aterrorizava e inquietava a sociedade; tudo aquilo que ameaçasse o projeto político das elites da província baiana era um “Tutu”. O autor pondera que, para o Governo Imperial, considerando as realidades da Bahia e do Rio de Janeiro, existia um elevado perigo de aparecimento de novas inquietações de africanos naquela fase abordada pelo livro. As pesquisas de Dilton também se concentraram nos arquivos das duas cidades: Rio e Salvador.

De onde viriam as possíveis rebeliões? Por que poderiam eclodir? qualquer tambor que soasse nas periferias e enclaves de pobreza da capital baiana (e no Rio), ressoava como uma enorme ameaça: podia ser sinais de grupos se articulando para a revolta; e a imprensa tratava de arregimentar esse medo para cobrar a repressão prévia por via da violência de estado.

Nada disso consta explicitamente nos filmes em questão. E a ligação que faço entre os dois curtas é pessoal e baseada mais em uma sensação do que em qualquer observação formal. Mas ambos os filmes, naquela sessão, em um aspecto, sob certo olhar, me atingiram como se estivessem ligados um ao outro pelo tutu do Brasil.

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