os curtas recentes feitos no Brasil: um “cinejovem” brazuca enfraquecido?

Texto meu publicado primeiro no Chic Pop: CINEMA É CACHOEIRA*

tumblr_nrr73tFPZg1tugpxyo1_500Acauam Oliveira escreveu um texto intitulado O fofo naufrágio humano da MPB neo-indie, publicado no site Chic Pop. Resumidamente, o que ele chama de “MPB neo indie” se manifesta como uma busca pela irrelevância como padrão estético e é um tipo de auto-falsificação, embora seus representantes não sejam alienados no sentido clássico, porque são informados, mas se auto-falsificam assim mesmo, porque são privilegiados e acomodados, mas conscientemente pagam de alternativos, de diferentes, sem confrontar nada, sem fazer diferença. Resumindo, são: “trilha sonora da integração conformista, vendida como alternativa” no mesmo universo da desintegração. No seu texto Acauam Oliveira cita exemplos, no campo da Música, claro. Enquanto eu lia o texto, eu ampliava, por minha conta e risco, as observações críticas de Acauam para o campo do cinema, mais precisamente do curta metragem feito no Brasil, considerando aqueles que têm alcançado e se projetado nos festivais de cinema mais expressivos ou conhecidos por aqui. Não ofereço exemplos pontuais (alguma coisa deve ser deixado para os comentadores e críticos de filmes, embora eles não demonstrem interesse significativo pelos curtas) porque meu intuito é manifestar apenas uma impressão panorâmica, geral. No meu caderno particular, com prazer e alegria, tomo nota das muitas exceções, mas recorro às tendências éticas e estéticas que vejo predominar nos curtas recentes. Para isso, ponho como referencial o cinema enquanto expressão autoral ou coletiva, livre de amarras ideológicas ou mesmo morais. No fundo, anseio para que algum leitor eventual se contraponha às minhas opiniões e me revele outras perspectivas. Enquanto isso…

Vejo predominar nos curtas recentes feitos no Brasil certas tendências narcísicas, cujas narrativas são desprovidas de qualquer tensão ideológica — o que chamo de tensão ideológica não se refere às tensões políticas, mas especialmente às tensões estéticas e às tensões emocionais, tensões próprias das linguagens artísticas e, em boa medida, do cinema de curta metragem. Percebo, portanto, que os realizadores desses curtas evitam incorrer em riscos formais ou temáticos que possam dar lugar a possíveis inconveniências nos caminhos e objetivos que são próprios do curta: integrar-se aos circuitos de festivais e de premiações, acontecimentos e janelas fundamentais para a difusão dos filmes e projeção dos respectivos realizadores através da imprensa e em certos nichos cinematográficos, culturais, simbólicos e/ou produtivos, e mesmo de mercado. Entretanto, cabe notar que, considerando a proporção da produção, não são muitos os curtas que adentram esses circuitos de festivais de cinema: a cada ano, os festivais anunciam recordes de inscrições e, em média, selecionam para suas mostras poucas dezenas em meio de várias centenas, ou até de milhares de inscritos. Outro ponto são as diferenças entre os diversificados circuitos de festivais: alguns estabelecem temáticas específicas, formatos determinados, alguns festivais estabelecem tendências prezando a experimentação e o ineditismo, outros revelam panoramas, prezando a exibição de curtas destacados em outros festivais. Não é incomum, portanto, que um mesmo filme percorra vários festivais em todo o país. Quando mencionei a moderação dos realizadores em incorrer em riscos formais e temáticos, temendo possíveis inconveniências em inserir o filme nesses circuitos, considere-se em questão até mesmo os festivais que valorizam a experimentação para compreendermos a reduzida energia para o questionamento de opiniões e atitudes sociais e culturais através do cinema.

O fato é que o universo dos curtas integra, em certa medida, o dos festivais de Cinema, e estes, independente de suas linhas curatoriais, temáticas ou estéticas, são eventos patrocinados (seja por empresas privadas, públicas ou por políticas governamentais), e tal como todo o campo do cinema no país, enfrentam dificuldades estruturais próprias para acontecerem a cada ano. Para os realizadores e curadores de festivais, as programações devem responder também, além de critérios estéticos e formais, às possíveis repercussões do evento na imprensa, junto ao público em geral (consolidação de uma marca) e em meios que influenciem possíveis apoiadores, o que viabilizará e mesmo favorecerá a realização de novas edições. Embora essa questão dos festivais seja bastante específica, o que me interessa é pensar se, por conta dessas desafiadoras condições estruturais e das variadas imposições que advém das dificuldades enfrentadas, os diferentes circuitos de festivais não acabam por, tacitamente, instituir no diversificado mundo dos criadores de curtas, padrões estéticos dominantes que duram não mais do que o tempo de uma moda, mas que são capazes de prejudicar e atravancar, arrefecer em potência, um dos vetores mais propriamente ricos do campo do curta metragem: a experimentação livre de imposições e amarras, sejam técnicas, estéticas, formais ou temáticas. O circuito dos festivais, tão diversificado, anima a produção de curtas ao mesmo tempo em que, em parte, depende deles. Esse contexto complexo mas evidente não vem retroalimentando uma dinâmica de criação e produção suscetível de vícios estéticos que resultam em enfraquecimento de potência estética, dramática, narrativa e ética? Comparemos curtas dos anos 1990, por exemplo, com aqueles que vêm tendo maior projeção no país hoje.

Falando mais pontualmente dos curtas mais recentes destacados em importantes festivais (de dois ou três anos para cá, por exemplo), não vemos um ciclo produtivo recente de propensões quase sempre narcísicas (tipo intimistas, mas sem alcance real para além do sentimentalismo típico de uma classe, de um estereótipo, de um clichê), ou com vocação visivelmente publicitária? E se um curta aborda questões sociais e/ou políticas (o que é frequente), não incorre em paternalismo classista, em maniqueísmo ideológico ou superficial e, na maioria dos casos, reflete o desejo politicamente correto de não conflito que predomina no senso comum privilegiado, aquele dos bem nascidos que, comodamente, desejam um mundo melhor? Junte-se a isso serem esses filmes, conjunturalmente, isentos de críticas de alcance mais profundo ou de repercussão mais ampla (em comparação com os longas, claro), e também o fato de contarem com boa aceitação em festivais e, não raro, com premiações e mesmo louvores em certos nichos específicos e delimitados— mas que são influentes, às vezes determinantes de carreiras.

Mas há também, no caso dessa tendência estética dos curtas, uma diluição das imposições do pseudoacademicismo transposto para um cinema juvenil desprovido de energia que, para não se ver totalmente desviado e deturpado de suas potências estéticas, agarra-se ao narcisismo desesperado de não muitas almas dispostas a fazer cinema e que encontram facilmente às mãos os meios de produção, simbólicos e materiais (quem são esses cineastas? de onde vêm? por que fazem cinema? perguntas que dariam bons e controversos debates…), e depois, o acesso aos canais quase imediatos de aceitação no volátil universo dos curtas que, diferentemente dos longas, é um universo relativamente não industrial, não mercadológico e não exposto à crítica. É um universo, portanto, de menor Poder no campo do cinema, mas também muito mais subjetivista e arbitrário, suscetível em maior grau às contingências do momento. Curadores têm muitas vezes tarefas ingratas em meio a uma enorme enxurrada de inscrições, e os júri técnicos enfrentam sérios dilemas, imagino, para eleger os melhores filmes que concorrem entre si em mostras heterogêneas. Mas se observamos aqueles curtas que têm sido premiados e reverenciados, embora inquestionavelmente exista essa heterogeneidade, existe também certos denominadores comuns que prevalecem — o caso de ser diferente sem fazer diferença — que se ligam às tendências estéticas já mencionadas. Tais denominadores comuns nem sempre são formais ou estéticos, mas sim de grau de superficialidade dramática, temática e também política, quando o tema ou a forma arriscam se enveredar nesse campo.

Aprofundando o exemplo: embora esses filmes destacados não raro apresentem um acabamento técnico rigoroso, ou mesmo algumas propostas mais ou menos criativas de sentido estético ou narrativo (que eu chamo de sacadinhas), no que se refere ao conjunto essencial do curta, que é justamente a linguagem que orienta forma e conteúdo, falta aprofundamento crítico e dramático, vontade de contradição e problematização dos temas e de suas relações com o próprio lugar do cinema, com a consciência do lugar de fala, com a vontade de expressão e com a consciência do ambiente e público ao qual se dirige. A sensação de irrelevância como padrão estético que Acauam Oliveira acusou no que ele chamou de MPB neo indie, parece ser um reflexo do mundo pós-industrial que vai além do ambiente da produção musical (a música, aliás, em outras vertentes que não a neo indie, segue engendrando potências criativas mais ousadas), alcançando uma dimensão geracional urbana, pós indústria fonográfica, mas também pós televisão e neouniversitária (uma universidade focada nos mercados profissionais convencionais e não no pensamento crítico, focada em certa organização do trabalho em modelos alternativos, mais flexíveis e dados à inovação, o que é ainda mais discernível nos cursos de Cinema, cujos mercados estão em permanente disputa diante do grande potencial de mutação e de ciclos produtivos mais ou menos diferenciados, rearticulando periodicamente os gargalos de distribuição e acesso).

Creio que, num mundo ordenado para o narcisismo, os jovens artistas tendem a não se posicionar, a se opor a qualquer enfrentamento mais profundo (por medo de ruir psiquicamente se perderem a aprovação de seu público e mais ainda de seus legitimadores consagrados? por uma obsessão pelo sucesso, pelo elogio e pela vaidade? enfim, por medo?), e tendem a uma recusa mais ou menos consciente de olhar criticamente para o mundo, refugiando-se numa adesão às tendências estéticas do momento, sacrificando ou vendo solapadas possíveis propensões artísticas e expressivas. A já tantas vezes acusada diluição da estética publicitária no cinema, já quase institucionalizada como padrão estético mais aceitável, se mistura agora a uma espécie de fórmula, uma indicação sub-reptícia de modo de fazer, que tacitamente se liga àquelas imposições estruturais que atingem todo o campo do curta: ensino, criação, produção, festivais, prêmios, tendências estéticas, catarses, limitações técnicas, carreiras e mesmo possibilidades de financiamento. Aparece aí uma questão Política no sentido mais amplo, que impacta o âmbito criativo e produtivo do Cinema, com nada irrelevantes implicações Éticas e culturais — e os curtas mais destacados nos festivais mais expressivos no Brasil atualmente nos dão uma dimensão desse impacto.

As contratendências, as subversões técnicas, éticas e estéticas, e mesmo de classe — coletivos da periferia que passam a produzir filmes de forte teor denuncista, tão criativo quanto urgente e agressivo, como é de se esperar, tudo isso se vê nesse universo dos curtas, e servem para alimentar o discurso de diversidade de um sistema que vem se tornando criticamente engessado e servem também para legitimar os discursos de relevância política e ética através da aceitação — quase enquanto gesto de tolerância — desses filmes incômodos em todos os sentidos e não raro destoantes da atmosfera predominante dos festivais. É ou não é de bom tom em certos setores esclarecidos “dar espaço” para “filmes feitos por realizadores ou coletivos da periferia”? É bom para todo mundo, embora tais escolhas se liguem mais às curadorias do que aos júris técnicos especializados, que não se deixam pautar politicamente em seus julgamentos, e nisso têm toda razão, visto que a arte, nem tampouco o cinema, tem que se comprometer com a precisão na identificação das intenções dos discursos.

Por fim, o que me preocupa e me motiva a escrever refletindo sobre tais temas e contextos, com uma ou outra colocação que pode soar provocativa, não é propriamente o conteúdo ou a forma dos curtas. Não sinto que o cinema ou nenhuma arte deva voltar-se para qualquer predicação social, política ou estética, mas ao contrário: o que me move é um sentimento contra o Cinema de adesão — adesão às vezes inconsciente, adesão quase naturalizada ao que quer que seja, adesão como passividade criativa que sucumbe diante das imposições, nem sempre conscientes ou planejadas, que resultam da junção das dificuldades e facilidades, e das complexidades, enfrentadas pelo fazer cinema no Brasil, seja fazendo curtas, longas, festivais ou qualquer atividade ou função cinematográfica. O que me motiva a lançar essas questões se liga, talvez, aí sim, a uma predicação pessoal minha: a de que o artista — e o cinema — são importantes e intervêm enquanto sujeitos, constituindo e interferindo, criando e destituindo, afirmando e questionando, incomodando ou encantando, pondo em dúvida ou comunicando, com abstrações, irracionalidades, incongruências e verdades (e farsas) diferenciadas no nível social ou do indivíduo. Mas nunca somente aderindo ou se deixando levar, o que é sinal de impotência, de superficialidade e de adequação. Volto-me para o realizador independente de cinema e para sua forma de expressão mais comum: o curta metragem, cuja duração é sequer consensual (1) — são filmes e pronto. É cinema. E se tem uma coisa que o cinema transborda — é potência, como a vida mesma, como cachoeira.

Por fabricio ramos, realizador independente. salvador/ba.

* Cinema é Cachoeira é frase de Humberto Mauro. Revela uma bela visão de que o cinema é movimento, tal como a vida.

(1) eu tenho uma vaga impressão de que o formato curta metragem tem, virtualmente, um enorme potencial de mercado e de público (virtualmente porque não há nada hoje que favoreça isso concretamente, embora possamos questionar se alguém pagaria um ingresso para ver uma sessão com dois curtas, por exemplo. Eu acho que sim, desde que fosse barato e as salas fossem em locais facilmente acessíveis e que favorecessem os encontros depois da sessão, meio como um festival permanente). Tire-se pelo Youtube, onde a curta duração é determinante para o sucesso dos acessos e para onde, presumimos, escoa a enorme quantidade de filmes que não chegam aos festivais de cinema. Claro que, para se criar um circuito comercial efetivo de curtas, é preciso uma nova, ousada e imensa estratégia em torno da visão do que é cinema. Estratégias criativas, não leis. Leis como a lei do curta não ajudariam em nada, aliás, depõem contra os curtas.

MUROS no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema

O curta-metragem MUROS, dirigido por mim (Fabricio Ramos) e por Camele Queiroz, participa da Mostra Nacional do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, que acontece em Salvador e em Cachoeira, de 28 de outubro até 4 de novembro.

EM SALVADOR, MUROS passa no dia 3 de novembro às 19h30, no ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA GLAUBER ROCHA – SALA 1, que fica na Praça Castro Alves.

Na mesma sessão serão exibidos também “Em Paz”, de Clara Linhart (RJ) e “Boi Neon”, longa de Gabriel Mascaro (PE).

Captura de Tela 2015-10-19 às 20.17.12EM CACHOEIRA, MUROS passa no dia 01/11 (Domingo) às 16h30 no CINE THEATRO CACHOEIRANO:

Captura de Tela 2015-10-19 às 20.39.39Para informações sobre compra de ingressos e para conferir a programação completa, acompanhe o site do XI Panorama: http://coisadecinema.com.br/xi_panorama/

No mesmo período do Panorama, o MUROS participa dos festivais:

MiradasDocFestival Internacional de Cine Documental de Guía de Isora. Mostra Oficial. 1 a 7 de novembro de 2015. Espanha.

Cinefest Gato Preto – 11ª edição. De 29 de outubro a 1 de novembro. Lorena-SP

Acompanhe no site do curta os caminhos que o filme trilhou em vem trilhando: Festivais e premiações.

Nesse início de outubro, “Muros” passa em Vitória da Conquista/Ba e em Goiânia

até o fim do ano, MUROS participará do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador/Ba; do X Miradas Docs, na Espanha; e do CineFest Gato Preto, em Lorena-SP.

BAHIADOC

Cartaz_Mostra Conquista 2015Nesse início do mês, MUROS, filme de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, participa da Mostra Cinema Conquista, que acontece entre os dias 4 e 9 de outubro em Vitória da Conquista/BA; e da 15ª Goiânia Mostra Curtas, que acontece de 6 a 12 de outubro na capital goiana.

Em sua 11ª edição, a Mostra Cinema Conquistaum olhar para o novo cinema exibirá 45 filmes brasileiros entre longas, médias e curtas metragens, consolidando um espaço de experimentação cinematográfica, que democratiza o acesso à produção nacional e o debate sobre os mais diversos temas do cinema e do audiovisual. Na Mostra, MUROS passa dia 6 de outubro, às 18h, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima.

Já o Goiânia Mostra Curtas, em sua 15ª Edição, constitui-se como um dos festivais mais expressivos de curtas do país. Serão 51 filmes na Mostra Brasil, que busca revelar…

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