nota sobre TROPYKAOS (2015), de Daniel Lisboa

Captura de Tela 2015-11-17 às 15.52.54O primeiro longa de Daniel Lisboa suscitou expectativas, seja pela trajetória do diretor, cuja verve inicial expôs violentamente, com “O fim do homem cordial”, o autoritarismo do carlismo em pleno início dos anos dois mil, seja pela melancólica carência de longas produzidos na Bahia (e por baianos) que logram chegar às salas de cinema. E ainda tinha o tema instigante, o calor “ultraviolento” contra um poeta (marginal?), e a forma, que trazia a promessa de uma estética marginal.

Se pensarmos o cinema marginal como um “cinema de invenção”, hermético, escrachado e não convencional na forma, subversivo e provocador na temática, e, no que se refere às condições de produção, precário e improvisado, então fica difícil localizar Tropykaos nesse campo. O filme se parece mais com uma soma de fragmentos, alguns fora de lugar, que orbitam as perambulações de Guima, o poeta “burguês”, branco, enfraquecido e violentado pelos raios solares “ultraviolentos”, pelas ruas de uma Salvador praiana, negra e popular, em busca de um ar condicionado. Mas o roteiro linear, a superficialidade narrativa (falta de densidade dramática e de estilo) e a estrutura de produção deslocam o filme de uma proposta marginal, exceto enquanto inspiração ou sátira.

Se a metáfora climática do calor excessivo e insuportável poderia incitar variadas provocações (assim como a do frio de “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho, o fez), Tropykaos não a explora dramaticamente. Metaforicamente, o personagem impotente parece, inicialmente, sugerir uma tentativa de escapar dos problemas do presente, de seu tempo, de sua cidade cujo calor o agride e com cuja “baianidade” folclorizada ele não se identifica. A literalidade narrativa, no entanto, nubla a possibilidade dessas sugestivas leituras.

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Outras subnarrativas, entretanto, acabam saltando à vista. Por exemplo, numa abordagem ambígua da questão do mecenato estatal e do patrimonialismo, o poeta marginal é cobrado pelo Estado por não realizar a obra financiada com recursos públicos e, no mesmo instante, um funcionário do estado convida o poeta a declamar num evento palaciano, convite que o poeta aceita à contragosto, mas aceita. Uma passagem que depõe contra o artista e favorece uma aceitação acrítica, por parte do poeta, do paternalismo do estado, que funciona bem e cumpre seu papel de patrocinador responsável e eficiente, pelo menos para com o artista “burguês”. Enfraquece o personagem que era fraquíssimo. Outra subnarrativa, a que nos informa que a incapacidade de Guima de escrever se deve ao calor excessivo (e à sua “falta de estrutura genética” para suportar esse calor), remete àquelas velhas pseudoteorias reducionistas que apregoavam que o calor dos trópicos era incompatível com o pensamento (eurocêntrico), que o clima tropical não favorecia o pensamento filosófico ou poético. Aí é perceptível a influência inconsciente de um pseudoelitismo preconceituoso.

Desde sempre os filmes exploram fórmulas através das quais o cinema transmuta contradições sociais, culturais ou políticas em fábulas de sucessos individuais, aventuras exóticas e sentimentalismo. Tropykaos não se afasta disso, e até ganha com isso oferecendo um “discurso” contra as pretensões do filme de arte e do drama histórico, flertando com a caricatura e com certa estética HQ. Entretanto, o filme não nos convence da angústia do protagonista, interpretado por Gabriel Pardal (que é poeta) nem a metáfora do calor alcança intensidade dramática ou narrativa que justifique a tentativa de crítica à “baianidade”, que poderia ser válida, se melhor construída.

Em Tropykaos, Daniel Lisboa parece querer falar a uma parcela do público que, como ele (segundo algumas entrevistas suas à imprensa), se sente deslocada dos clichês definidores de uma Salvador mistificada. Trata-se de um mérito de Tropykaos que, inegavelmente, tenta fazer outras exigências ao público, subvertendo os temas típicos do cinema que, quase sempre, refletem o modo como a sociedade quer ver a si mesma ou se distrair de si mesma. Mas não é fácil obter êxito em tão arriscado empreendimento que exige do filme (logo, de quem faz o filme), além da indispensável dose de coragem (que Lisboa teve), uma potência mais viva à altura da poesia que é mote ausente do filme, e uma capacidade maior de expressar cinematograficamente o dilema e a experiência “ultraviolenta” de se viver numa Salvador quente pra caralho, cabendo nesse “quente” todas as metáforas boas ou más, violentas ou amorosas, negativas ou afirmativas, insuportáveis e maravilhosas.

Por fabricio ramos

(Vi o filme na Competitiva Nacional do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador).

Na Cisjordânia: “As favelas brasileiras ocupadas me vinham à mente” (Caetano Veloso)

Cabe colocar o MUROS como um filme que dialoga com sentimentos que Caetano expressa no texto. Em visita à Cisjordânia junto com Gilberto Gil:

“As favelas brasileiras ocupadas me vinham à mente. (…) Era impossível não fazer paralelo com situações que vivemos no Brasil.”

Caetano Veloso, Hoje (8/nov), na Folha, no artigo “Visitar Israel para não mais voltar a Israel” [link]

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Foto: Folha de São Paulo

No entanto, embora o texto de Caetano ultrapasse muito o paralelo, compõe um relato confortavelmente distanciado da dimensão do drama palestino e evitando prudentemente qualquer reducionismo comparativo (e expressando uma certa “mea culpa”, importante ressaltar, por ter aceitado fazer o show em Israel depois de campanhas para que ele recusasse, e agora diz que não volta mais lá…). Para nós, cabe colocar o MUROS como um filme que dialoga com os temas que Caetano aborda, pontualmente.

[Para quem ainda não viu, no filme, seguem trailer, infos e site do MUROS]:

 Os diretores Fabricio Ramos e Camele Queiroz acompanham o fotógrafo Rogério Ferrari percorrendo os bairros do Calabar e do Nordeste de Amaralina, em Salvador, Bahia, motivados pela impressão de Rogério de que os campos de refugiados palestinos no Oriente Médio são parecidos com favelas brasileiras sob vários aspectos sociais, urbanísticos e arquitetônicos.

MUROS põe em diálogo o olhar do fotógrafo e o olhar dos diretores, ritmando fotografia e cinema, direcionando as escolhas Estéticas para o sentimento de afirmação da vida e de resistência cotidiana. MUROS é um curta metragem de 25 minutos cuja estrutura identifica-se com a maneira escolhida pelos diretores Fabricio e Camele para percorrer os espaços em que o filme acontece (favelas), e com a forma como se relacionam com Rogério, que mantém sua autonomia característica de suas vivências fotográficas pelo mundo, buscando refletir sobre o lado desconhecido de conhecidos conflitos: Palestinos sob ocupação israelense em campos de refugiados no Líbano e na Jordânia; Curdos, na Turquia; Zapatistas, no México; Saharauís no norte da África; Ciganos no interior da Bahia, entre outros.

https://curtamuros.wordpress.com/

Notas sobre longas que vi no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema

Breves notas sobre alguns bons longas que vi no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador.

Captura de Tela 2015-11-06 às 19.20.20Dentre os brasileiros:

“Big Jato”, de Cláudio Assis, que parte de um livro autobiográfico de Xico Sá (que não li e não gostei), poderia explorar melhor os personagens como o filho gay e caricaturar menos as personagens femininas. Transpõe bem alguns clichês meio roliudianos para as vicissitudes dos rincões nordestinos e pode, por isso, ter algum sucesso comercial nos cinemas.

“Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, foi o melhor dentre os que vi. Subvertendo as imposições sociais normativas de gênero, os atores convencem em seus papeis, tem um humor na medida certa e é plasticamente belíssimo. Vemos uma discreta crítica social (os empregados podem ser remanejados como rebanho) e à coisificação dos animais, mas prevalece o estilo poético clássico (a cena com homens nus no banho não remete aos banhos romanos?).

“O Olmo e a gaivota”, de Petra Costa, acompanha a gravidez de um casal de atores. A vida, o corpo e a carreira da atriz são impactados pela gestação e o filme mostra as reflexões sobre os medos e sensações de uma mulher prestes a se tornar mãe pela primeira vez. O filme é bom, mas o ator (o papai), embora viva também as expectativas da paternidade, aparece dramaticamente diminuído (talvez para enfatizar de forma justa a condição feminina da gravidez).

“Rogério Duarte, o Tropikaoslista”, de José Walter Lima, – já falei por aqui – é bonito e simples, sua forma em harmonia com seu personagem cativante, inteligente e vívido. O filme faz um recorte importante e fluido daquele por muitos considerados o mentor do tropicalismo e consegue também oferecer à uma nova geração um olhar acerca de um Brasil cultural e politicamente efervescente dos anos 1950 aos 1970.

Dois longas da Mostra Italiana:

“N-Capace”, de Eleonora Danco, faz uma experiência de linguagem ao conversar com adolescentes e com idosos – extremos etários da vida – sobre temas universais, como a morte e a sexualidade. Interessante o quanto nos identificamos, aqui no Brasil e na Bahia, com as palavras e sentimentos das pessoas comuns italianas.

“Per Amor Vostro”, de Giuseppe Gaudino, mostra Ana, uma mulher, mãe de três filhos e vítima da violência de um marido agiota, superar seus medos e encarar a vida abrindo-se para renovadas possibilidades. Sensível porque mostra uma “heroína” com contradições, embora, esteticamente, as inserções de imagens animadas infantilizem essas suspensões que querem ilustrar o estado psicológico de Ana.