Roraima: viagem ao mundo perdido

No meio de um território belíssimo e desconhecido, caiu a noite. Havíamos passado alguns dias no topo do Monte Roraima.

 

O vídeo é um registro poético, feito por Mel Queiroz com a minha colaboração, que embora não resuma a experiência de conhecer o Roraima, tenta traduzir as sensações da viagem mais do que registrar a viagem em si. Mais abaixo, o relato de uma aventura…

Roraima: “Verde Azulado” ou “La Madre de Todas las Águas”… Esse ambiente mágico da América do Sul, localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, é protegido no território venezuelano pelo Parque Nacional Canaima, na Grand Sabana, e no território brasileiro pelo Parque Nacional do Monte Roraima. O imponente Roraima, ladeado pelo não menos impressionante Kukenan, parece nos lançar o tentador e magnético desafio de nunca mais sair dali, passando os dias a viver e decifrar os silêncios e ruídos, a inconstância do clima, as variações de luz e cor, as quedas dágua que crescem e diminuem, os rios…Não à toa, as histórias sobre os Tepuys inspirou Sir Arthur Conan Doyle a escrever o seu clássico “O Mundo Perdido“.

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A trilha. As cores revelam um dos significados possíveis do nome Roraima: verde-azulado. [foto: fabricio r.]

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“La madre de Todas las Águas” é outra tradução possível para o nome Roraima. [foto: fabricio r.]

UMA AVENTURA

Desde Caracas, cruzamos a Venezuela até Kumarakapay, povoado indígena próximo de Santa Helena, cidade mais próxima da fronteira com o Brasil. De Kumarakapay seguimos de carro para Paraitepui – daí em diante, somente caminhadas. O primeiro acampamento é no Rio Tek, depois seguimos até o acampamento do Rio Kukenan e de lá até a “Base”. Subimos o monte pela Rampa e no topo dormimos duas noites. No regresso, sob muita chuva na Grand Sabana, os rios crescidos pareciam querer sinalizar os riscos de tão poderoso lugar que guarda os insondáveis mistérios do Tepuy. Fomos guiados, excelentemente, por Imeru Alfonzo, em companhia dos Pemóns Taurepangs, indígenas cujo grupo étnico-linguístico pertence à família linguística Caribe.

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Rio Kukenan. Ao fundo, Parte do Monte Roraima [foto: fabricio r.]

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A rampa. [foto: fabricio r.]

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Subida. Base do Tepuy Roraima. [foto: fabricio r.]

Os Taurepangs carregavam a comida e boa parte da carga de acampamento. Andavam muito rápido e iam muito à frente do grupo. Algumas pessoas do grupo enfrentavam um forte desgaste físico e o nosso guia retardou o passo para dar suporte elas. Fomos orientados, eu, Mel (minha companheira) e o restante do grupo (quatro pessoas), a apressar o passo rumo ao próximo acampamento no Rio Kukenan, sob risco de ter que caminhar em meio a escuridão da noite e com muita água na trilha.

O grupo se separou, cada um andando em ritmos diferentes. Eu e Mel, que nos mantivemos juntos, claro, conseguimos chegar ao rio Kukenan ainda sob o último fiapo de luz do dia, já recorrendo às lanternas acesas nas mãos. Cada um que ia chegando comemorávamos nos abraçando. Até que, enfim, chega o nosso heroico guia dando suporte às duas pessoas que vinham mais cansadas (elas vinham caminhando com dificuldades, mas caminhando)… Já eram então 21h.

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Chuvas na Grand Sabana. [foto: fabricio r.]

Um novo problema: a inconstância do clima e as chuvas que vão e vêm fazem com que as quedas dágua cresçam e diminuam, e também com que os rios encham e esvaziem repentinamente, ao cabo de poucas horas. O rio Kukenan, então, não quis que o atravessássemos assim tão facilmente, fazendo jus ao nome (o mesmo do Tepuy Kukenan, que ladeia o Tepuy Roraima, porém é menos escalado devido a dificuldade de acesso).

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Acampamento do Rio Tek. O Tepuy Kukenan ao fundo, parte do Roraima à direita. [foto: fabricio r.]

Os Pemóns Taurepangs, entretanto, mantinham outra relação com o rio e, claro, caminhavam muito mais rápido. Atravessaram o Kukenan horas antes. Quando chegamos, o rio já estava muito mais cheio, estávamos famintos e exaustos, encharcados e felizes, até descobrirmos que os Pemóns passaram para o outro lado do rio com toda a nossa comida…

Armamos as barracas, nos aquecemos, trocamos as roupas molhadas. A chuva diminuiu até passar completamente e torcemos para que na manhã seguinte pudéssemos cruzar o rio Kukenan, se Canaima assim nos permitisse.

Nessa noite, houve um momento de profunda comunhão naquele pequeno grupo. No meio da escuridão (optamos por desligar as lanternas), perguntei a cada um a razão de estarem ali, vivenciando aquela jornada de encantos e desafios na companhia de desconhecidos uns dos outros. Foi tocante. Em meio dos silêncios e ruídos da savana ao redor, as pessoas eram capazes de uma sinceridade quase magnética. A gente presta toda a nossa atenção quando temos verdadeira companhia.

Um dos Pemóns que havia saído bem depois lá da base do Roraima, chegou ao acampamento e trazia um pedaço de beiju que seria o seu jantar. Ele insistiu em repartí-lo com todos nós: éramos nove, dez com ele. De mão em mão o beiju foi passando e cada um tirava um pequeno pedacinho. Se a fome foi aplacada, não me lembro, mas estávamos plenos de alguma coisa mais que nem só de pão ou de beiju… o barulho do rio Kukenan ia diminuindo…

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Difícil deixar o Roraima para trás. [foto: fabricio r.]

Ao amanhecer, foi uma ousadia e uma aventura cruzar o rio, mas essa é outra história. O vídeo postado é um registro poético que tenta transmitir em pequena medida a sensação de conhecer de perto o Monte Roraima.

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