Crítico cultural Henrique Wagner comenta o curta MUROS

Por Henrique Wagner

(…) um filme com lances a um só tempo de maturidade e força de juventude, de ousadia ao fazer uso desse ou daquele procedimento, sempre “corrigido” pelo bom senso, pelo comedimento, pela ideia de harmonia estética.

MUROS 4O tema é autoevidente e um velho truísmo dentro daquilo a que se convencionou chamar “questão social” e que se tornou cavalo de batalha de todo partido progressista brasileiro – não por acaso algumas cenas, sobretudo as que nos mostram imagens subitamente congeladas, em preto e branco, nos levem a pensar, imediatamente, em propaganda política de ano eleitoral –, mas o procedimento é invulgar, e faz com que o “objeto de estudo” do curta Muros [site do filme], de Fabrício Ramos e Camele Queiroz, acabe se tornando – e isso não é exatamente bom em um filme como esse, eminentemente “político” – um pano de fundo para quem tem um olhar mais experimentado, olhar de cinéfilo, e não de “comunidade’.

MUROS cartaz novo LEVEA figura longínqua, quase aérea em pleno chão de concreto e percalços do “protagonista”, o fotógrafo Rogério Ferrari, que vaga por entre os becos da populosa favela de Amaralina, bairro ao norte de Salvador, dá certo charme de neorrealismo italiano ao curta, com seu distanciamento que pode ser confundido com certa nonchalance europeia. Mas à medida que Ferrari vai se embrenhando por casas de madeirite construídas em beiras de precipícios, o fotógrafo vai saindo da cena muito naturalmente, porque somos tomados pela urgência de situações como a vivida por uma mulher que fala enquanto prepara o almoço, ou o homem que vive dentro de uma casa solidamente construída dentro da favela e reclama preservação de “sua” cultura afro – aliás, esse personagem é riquíssimo, e tanto, que merece um documentário só sobre ele; fez bem a dupla de diretores em não aproveitá-lo mais dessa vez. Filmar um fotógrafo e não filmar diretamente a favela mostra, de forma sutil, possível desejo dos diretores de fazer ficção – talvez não tenham feito ainda por não se sentirem seguros para tal, ou por falta de recursos financeiros. Difícil saber. O fotógrafo vira um elo provisório dos autores. E sua busca silenciosa por lugares ásperos nos convida a pensar no cinema iraniano, com suas ficções documentais sempre calcadas em buscas por alguma coisa – o amigo que esqueceu o caderno na escola, os sapatos do irmão, o sujeito que pode consertar o jarro, a mulher amada que ainda não se decidiu etc.

A foto dentro do filme, o fotógrafo sendo filmado, a tomada distante e aérea quando Ferrari entra em um ambiente novo da favela, a recepção persistente de uma espécie de cérbero para cada bairro – um desses cães se chama Favela –, a relação entre aldeias e quilombos urbanos e campos de concentração para refugiados – Ferrari passou quatro anos fotografando na Palestina – no Líbano, Cisjordânia e Faixa de Gaza, a tomada escolhida dentro da casa já citada, solidamente construída em uma favela tão cediça, a tomada que mostra um corredor sombrio e austero que nos leva a associá-lo a esquinas ásperas de uma cidade construída “a facão” – enfim, tudo isso faz parte de um plano de ação da dupla de cineastas que contribui para fazer de Muros um filme com lances a um só tempo de maturidade e força de juventude, de ousadia ao fazer uso desse ou daquele procedimento, sempre “corrigido” pelo bom senso, pelo comedimento, pela ideia de harmonia estética.

Infelizmente reside, a todo instante, de forma mais ou menos velada, o tema, um tema gasto de cidade traçada por muros – Tereza Caldeira publicou o livro “”Cidade de Muros” em 2000, excelente trabalho que aprofunda a discussão em torno da segregação racial e de classe em grandes centros urbanos –, de exclusão social, cidades invisíveis dentro da cidade etc. A videomaker baiana Mônica Simões, aliás, concebeu um vídeo explorando o mesmíssimo tema há mais de quinze anos.

Um tema que merece ser discutido, sem qualquer dúvida, mas com mais profundidade, com mais recursos epistemológicos do quilate de um David Harvey – isso para não falar em Irene Jacobs, que, a bem da verdade, não se mantém ortodoxa quanto à vicinal. E por que com mais profundidade, afinal, se sabemos que não é possível um vídeo ter a profundidade de um livro com suas tantas páginas e linhas? Ora, porque outros vídeos já foram feitos sobre o mesmo tema. Ou se mostra algo absolutamente novo ou se aprofunda no que já foi mostrado.

Entretanto, saímos da sessão de Muros marcados pela ressignificação do batuque de crianças da favela, em compasso alterado, imponente, entre uma foto e outra de pessoas e lugares de lá e de cá, todos cercados por muros culturais concretizados – saímos desse final arrebatados e um pouco menos duros.

Texto publicado originalmente no site Expoart.

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