nota sobre “Cavalo Dinheiro”, filme de Pedro Costa

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“Cavalo Dinheiro” (2014) é esteticamente belo e politicamente forte. Mas me incomodou significativamente uma melancolia excessivamente europeia transposta para pessoas que vivem em um Portugal que quer remeter à África para pensar-se a si mesmo como país (e pensar o país de outra forma seria impossível, creio). Faço essa ressalva sobre um filme potente e difícil que aborda, no interior da melancolia de Ventura e Vitalina, a guerra colonial, a revolução dos Cravos, a descolonização e os traumas políticos e sociais portugueses e, sutilmente através dos personagens, os caboverdianos. Desenvolvo a ressalva:

Ventura, um trabalhador imigrante oriundo do insular Cabo Verde, só por ser Ventura, sabendo-se, portanto, um sujeito real, um “não-ator” vindo de outros filmes realidades de Costa e, mais ainda, sabendo-se protagonista de um filme de um diretor relevante, já teria força suficiente para subverter essa melancolia monotônica encenada com um rigor formal admirável de luz e sombras, gritos e sussurros, pausas e tensões.

Até mesmo a musicalidade aparece na forma de breve inserções conflituosas, interrompidas, exceto no clip em que pessoas de Fontainhas aparecem em suas casas fotograficamente (a música é “Alto Cutelo”, de Os Tubarões, grupo de Cabo Verde). Sinto, portanto, que faltou a ousadia de dimensionar na performance de Ventura a trágica dimensão da alegria desventurada de tanta gente como ele: imigrantes, africanos, trabalhadores, que não são amigos de Pedro Costa numa relação mediada pelo cinema.

Não se trata de uma crítica que faço ao filme, mas de um anseio que a trajetória de Pedro Costa me inspirou. Ele mesmo disse, quando ganhou o prêmio de melhor realizador no 67.ª edição do Festival de Locarno, na Suíça, que não se trata de “um filme de ruínas”, e realmente não é. O rigor pictórico e a dramaturgia seca de Ventura, assim como o desfecho afirmativo, elevam o filme a uma experiência de impacto que transcende o recorte histórico em que ele se apoia.

Mas afinal, o grau de formalismo, seja de ritmo ou de fotografia, temático ou (não)narrativo, poderia fazer exigências mais potentes para explorar as especificidades de um cinema tão bonito e de uma amizade revolucionária para o cinema – a de Ventura e Pedro Costa. Por isso a minha ressalva mais pessoal do que crítica. Por isso a minha sensação de que, como diria Nietzsche, a alegria é mais profunda do que a dor: a tragédia de Ventura supera a melancolia que quer, através da arte, redimir parte da Europa – e do ocidente – de suas próprias catástrofes históricas.

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