nota sobre “Tour de France” (França, 2017), filme de Rachid Djaïdani

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O convívio circunstancial entre Far’Hook (Sadek), um jovem rapper, filho de imigrantes árabes, que vive na periferia de Paris, e Serge (Depardieu) um homem mais velho, francês rancoroso que manifesta sua xenofobia e racismo a todo momento, constitui o núcleo dramático do filme que, inicialmente, me pareceu verdadeiramente uma obra “Tour de force” pelo potencial do tema, pelo estilo documental cheio de beleza, pela simplicidade dramática e pela eficácia narrativa da primeira fase do filme. Infelizmente, a partir de sua segunda metade, o drama perde força, a narrativa sucumbe a peripécias tolas e os diálogos não resistem aos clichês mais dispensáveis diante da intensidade dramática que vinha se desenhando.

Um filme que parte de um tema árduo e urgente, necessário de ser abordado no cinema e na arte, especialmente na França. Que, em seu início, seduz com a sensibilidade formal (fotografia documental, boas atuações, ritmo equilibrado) e narrativa (um mote verossímil, realista e de forte impacto dramático e temático). Enfim, um filme que começa insinuando um possível “tour de force” temática a formalmente arriscado em sua fábula. Porém, assumo a minha decepção, acaba por se revelar um panfleto que flerta com o maniqueísmo político (bem intencionado, é certo), ao confrontar, de forma literal e nada sutil, o “velho” e o “novo” como emblemas, respectivamente, do passado (do ultrapassado) e do futuro (do progresso) socialmente promissor, respondendo claramente a um clamor ideológico disseminado, mas sem o substanciar minimamente em seu drama complacente, nem arriscar ir além da superfície na construção dos personagens.

“Tour de France” promove, portanto, um discurso de fácil aceitação (o da reflexão sobre populações excluídas, do problema do racismo e propondo o convívio respeitoso em meio às diferenças), capaz de tocar um público de um amplo e variado espectro ideológico, mas que, para isso, simplifica demasiadamente os problemas que emergem do encontro entre os personagens, cujos mundos sensíveis tão diferentes, dividindo o mesmo território e partilhando a companhia um do outro, representam grandes conflitos sociais, políticos e éticos.

De toda forma, é um filme bom de ver: abstraindo certos momentos de forçação de barra e a decepcionante perda de intensidade dramática na medida em que se aproxima do fraco desfecho, é um filme bonito, cujo estilo é marcado pela simplicidade, que traz bons momentos de humor e uma mensagem edificante.


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