nota sobre “Vazante”, de Daniela Thomas

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“Vazante”, dirigido por Daniela Thomas, foi pivô de debates polêmicos em Brasília e alvo de duras críticas por parte, também, de pessoas ligadas aos movimentos negros.

O tema do filme gira em torno do drama de uma elite agrária em formação no interior de Minas Gerais, no estertor do Brasil colonial. A história começa mostrando uma família escravocrata em decadência com o fim do ciclo da mineração, para depois se concentrar em Beatriz (Luana Nastas), a filha mais nova dessa família, que — mesmo antes de “ter as regras” — é entregue pelo pai para se casar com o tropeiro português Antônio (Adriano Carvalho), um homem muito mais velho, que tinha se casado com a tia de Beatriz. Esta morrera durante o parto, junto com a criança, legando à Antônio as posses da família, o que impôs uma relação de subordinação total do pai de Beatriz para com Antônio.

Essa elite agrária em formação e em decadência, ou seja, em transição, se mostra ontologicamente alienada em relação à calamidade da escravidão, alienação que, na perspectiva do filme, situa os personagens negros como tipos humanos, que funcionam como “elenco de suporte” do drama do casal de protagonistas, Beatriz e Antônio, proprietários escravocratas.

Os protagonistas, durante largos trechos do filme, pouco ou nada falam. Uma cenografia funcional, tanto nos interiores austeros quanto nos exteriores telúricos, junto com a visualidade, ponto forte do filme, marcada por paisagens exuberantes, enquadramentos instigantes e a fotografia em preto-e-branco (visualidade atrapalhada por uma projeção que deixava entrever tons esverdeados nos contornos das imagens), indicam que “Vazante”, cinematograficamente, tem pretensões estéticas e dramáticas, além de históricas, por conta do seu tema. Mas nenhuma dessas pretensões se realiza, o que, decisivamente, enfraquece o filme enquanto cinema de propensões realistas.

Dramaticamente, “Vazante” falha. A história simples e potencialmente pungente — o sofrimento mudo de uma menina branca que se apaixona por um menino de sua idade, que é um escravo, em relação com a angústia rústica de um tropeiro que se torna proprietário escravocrata depois da perda da mulher durante o parto — não logra transmitir a carga que seus dramas nos prometem.

Os personagens estão, quase todo o tempo, sob a mira de uma câmera severa, vivendo um cotidiano árido, carregado de um peso invisível, mas presente. Contudo, a tensão dramática nunca se realiza. E não se trata da desdramatização bressoniana, nem dos tempos mortos de Antonioni. Trata-se de uma fragilidade dramatúrgica que não se deve aos atores, que atuam bem, mas à própria estrutura narrativa, que não lhes dá tempo de imprimir sentido dramático aos seus olhares, expressões e lágrimas.

Em termos narrativos, o filme produz bons ganchos, mas que que são desperdiçados. Por exemplo, a relação entre senhores e escravos é marcada por uma distância terrível, cuja expressão máxima aparece na cena em que os escravos negros revoltosos falam uma língua incompreensível (que uma mulher, escrava, entende parcialmente), que o filme tem a felicidade de não traduzir.

A cena remeteria, se quiséssemos abordá-la à luz da filosofia, à justificativa ética e política de Aristóteles para legitimar a existência dos escravos na Grécia Antiga. Aristóteles distingue os seres dotados de phonè (fala) daqueles dotados de logos (discurso), ou seja, o filósofo separa as identidades de um ser cuja fala é a expressão de seu lugar desprovido de discurso, das outras identidades que dominam o discurso, ou que ditam o que é visível ou não, o que é ou não dizível e, logo, pensável . Dito de outro modo, Aristóteles separa o ser portador do discurso (e ele o é por conta do regime de dominação e exclusão que vigora em uma sociedade), do ser dotado de fala, mas de uma fala desprovida de inteligibilidade, fala percebida como mero ruído por conta daquela “alienação” ontológica (que no fundo é meramente política, no sentido lato do termo) em relação à calamidade da escravidão. Por essa ótica, a diretora Daniela Thomas é portadora do discurso, agenciado pelo próprio cinema, embora ela não possa ser responsabilizada sozinha por refletir uma estrutura de poder tal como a que define historicamente o campo do cinema no país.

O problema, portanto, é que o filme ignora as subjetividades desses seres falantes, mas sem discurso, que embora apareçam como mero elenco de apoio para o drama factual dos senhores, é parte constituinte desse drama. Não se trata, como se viu nas polêmicas sobre o filme, de reivindicar o protagonismo dos personagens negros. Mas, antes, de o filme revelar uma estreiteza narrativa, já que recorre, tematicamente, a um pano de fundo histórico de forte presença no imaginário brasileiro, mas segue as coordenadas das abordagens televisivas sobre o tema da escravidão, embora busque dirimir o apelo melodramático sob uma sofisticação formal apenas eficiente.

Nesse sentido, a reação intensa de militantes dos movimentos negros ganha legitimidade, porque o filme introduz um gancho narrativo rico, mas o exclui de seu drama, tornando invisíveis os sujeitos escravizados e diminuindo a sua presença dramática, para valorizar o mal desenvolvido dramalhão dos senhores e sinhás, abordado com um verniz gilbertofreyreano, evidenciado no previsível desfecho do filme, que se encerra com os partos da sinhá e da escrava, ambas dando à luz a crianças mestiças, uma fruto da violência, a outra do amor inocente.

É nesses termos que, por razões transversas, eu me sinto inclinado a concordar com a parte que interessa da leitura do crítico Juliano Gomes sobre o filme (ele protagonizou o debate com a diretora Daniela Thomas), que pode ser sintetizada na sua frase que diz que, de “Vazante”, “o que resulta afinal é somente a manutenção do status quo”. O filme se apoia numa abordagem esteticamente matizada do período da escravidão, mas que não traz nada de novo ou disruptivo em relação ao que as telenovelas já ofereceram amplamente ao imaginário do espectador brasileiro. O filme se deixa esvair no regime do status quo tanto nos campos político e histórico, quanto nos campos estético e cinematográfico.

(Vi o filme no Espaço Itaú Glauber Rocha, durante o 13º Panorama Internacional Coisa de Cinema).

 

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