Cinematógrafo na Saladearte de fevereiro (sáb, 24) exibe “Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood” (2010)

Obra de forte expressão poética constrói uma história de amor em torno da tragédia e da sexualidade como dimensões da vida. O Cinematógrafo exibe filmes mensalmente, na Saladearte Cinema do Museu (Corredor da Vitória, Ssa), sempre no último sábado do mês, às 16h30. As sessões são seguidas de conversas ao pé da mangueira, com café e cerveja à venda.

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Nota dos curadores do Cinematógrafo sobre o filme do próximo sábado:

Música, literatura e cinema: uma célebre canção dos Beatles empresta seu nome ao best-seller do escritor japonês Haruki Murakami, obra que o diretor franco-vietnamita Tran Anh Hung adapta para o cinema. Norwegian Wood (traduzido no Brasil como ‘Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood’), lançado em 2010, foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza daquele ano e, desde então, vem causando impressões controversas na crítica e no público.

Se a proposta do Cinematógrafo na Saladearte é ensejar boas conversas sobre as relações do cinema com a vida e com as outras artes, Norwegian Wood nos oferece um leque exuberante de motivos: se leitores de Murakami questionam a força dramática da adaptação cinematográfica da obra literária, cabe aos amantes do cinema reclamar a especificidade da obra cinematográfica e as razões do diretor, considerado um esteta que, marcadamente, valoriza a intensidade visual, a presença da sensualidade na narrativa e o rigor na composição dos quadros, mis-èn-scene e dramaturgia.

Narrada por Watanabe, a trama se passa no Japão do efervescente ano de 1967 e se inicia a partir da relação triangular entre o protagonista narrador e um casal de amigos, Naoko e Kisuki, que se conhecem desde a primeira infância e se convertem em amantes desde cedo. Um acontecimento trágico transtorna a relação entre Watanabe e a sua amiga Naoko, que se separam para depois se reencontrarem e, juntos, redescobrirem a sexualidade, o sentido do amor e, cada um a sua maneira, enfrentarem a tragédia que se abateu sobre eles.

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O que Tran Anh Hung nos oferece é um filme conscientemente moderno que se desvirtua dos clamores pós-modernos, por assim dizer, construindo personagens trágicos que vivem dramas existenciais alheios às conturbações estudantis de jovens que declinam discursos ideologizados, armados de certezas e que rechaçam as nuanças individuais em nome das lutas efetivamente políticas. O pano de fundo das vigorosas manifestações estudantis nas ruas de Tóquio contra a guerra do Vietnã, participando de um movimento globalizado de contestação política e de transformação de valores, substancia metaforicamente o processo drástico de transformação individual de Watanabe. Trata-se de um filme sobre amadurecimento emocional a partir do sofrimento, da experiência mesma de viver entre o afã de comunhão e de solidão, entre o erotismo transcendental e o desejo sexual que resulta de uma necessidade misteriosa e produz prazer, mas também frustração, medo e dor.

Norwegian Wood reflete, esteticamente, um tipo de realismo imaterial, com pouco ou nenhum espaço para a fantasia, mas carregado de sensorialidade musical e visual. A direção e composição da trilha sonora é assinada por Jonny Greenwood, guitarrista da banda inglesa Radiohead, e a fotografia ficou a cargo do experiente taiwanense Mark Lee Ping-bing. O resultado do conjunto do trabalho sonoro e fotográfico, aliado ao naturalismo da dramaturgia, é uma obra de forte impacto poético e emocional.

Aliás, no que se refere ao impacto emocional, este se impõe e exige um lugar especial que motivará, em nossa opinião, conversas enriquecedoras, controversas e vitais: afinal, o que Norwegian Wood nos propõe é uma reflexão poética e trágica sobre os modos como absorvemos as nossas próprias dores, como enfrentamos as nossas dúvidas e anseios, como convivemos com as fatalidades que fazem reluzir as difíceis realidades com as quais nos deparamos e que precisamos inescapavelmente enfrentar, em meio aos nossos ardentes desejos de comunhão constituintes de nossa vida ontologicamente solitária. Em suma, o filme nos leva a refletir sobre como a vida nos torna o que somos, a cada momento.

TRAILER:

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.

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