Cinematógrafo na Saladearte de abril exibe “O Ódio”, de Kassovitz. Leia a nota dos curadores sobre o filme

A sessão do Cinematógrafo de abril será no sábado, 28 de abril, às 16h30, na Saladearte – Cinema do Museu, que fica no Corredor da Vitória, em Salvador.

Captura de Tela 2018-04-17 às 12.23.27

Nota dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Mathieu Kassovitz tinha 28 anos quando dirigiu La Haine (O Ódio) em 1995. O filme segue, ao longo de 24 horas pelas ruas de Paris, o itinerário de três jovens parisienses, Vinz (Vincent Cassel), Hubert (Hubert Koundé) e Said (Said Taghmaoui), o primeiro de ascendência judaica, o segundo de ascendência africana e o terceiro de origem árabe. Um trio de amigos que expressa um distópico melting pot de sobreviventes das sociedades pós-industriais imersos na crise do estado nação. Trata-se de um filme sobre jovens, mas também de um filme, em si, jovem, preocupado com os contextos imediatos de seu tempo e lugar: os distúrbios urbanos que incendiaram Paris em 1991 compõem o eixo temático do filme.

Vinz, Hubert e Said (note-se que os três atores emprestam seus nomes reais aos personagens), vivem o cotidiano de seu bairro periférico onde, durante os distúrbios recentes, um jovem morreu vítima da violência da repressão policial. Vinz, inconformado com a situação, tenta convencer Hubert e Said de que algo precisa ser feito para mostrar ao estado e à polícia que eles “não estão para brincadeira”. Hubert e Said, entretanto, embora habitem o mesmo lugar e sofram os impactos da mesma violência que causa revolta em Vinz, não lhe fazem côro e enfrentam, cada qual à sua maneira, as adversidades de suas vidas marginalizadas. Durante a repressão policial aos distúrbios no bairro, um policial perdeu a sua arma, que foi encontrada por Vinz. Ele hesita, mas depois revela aos amigos que tem a posse do revólver e que pretende agir para vingar a morte do jovem! Em sua deriva por uma Paris geograficamente demarcada pelas tensões entre centro e periferia, as peripécias dos três jovens traduzem, em contraste com a crescente e imediata ameaça da violência, um esforço desesperado de acreditar numa vida digna. Entre o ódio e a esperança de viver, o drama juvenil dos três amigos reflete menos a revolta do que a impossibilidade da revolta.

A temática urgente em 1995, que mantém a mesma urgência hoje, aliada ao dinamismo formal – “O Ódio” é soberbamente filmado – e à fotografia em preto-e-branco, sugerem uma vontade documental de Kassovitz, que realiza um filme realista, político e que tem o êxito de não incorrer em panfletarismos. O ritmo enérgico reflete o olhar inquieto da juventude. A narrativa temporalmente linear (há um relógio que sempre retorna a mostrar as horas), não narra algum mote sobre a vida, mas nos torna cúmplices de um filme que acontece com a vida – ele não a transfigura, ele a expande no interior dos limites do cinema.

Em uma breve entrevista que Godard, um dos mais radicais inventores da Nouvelle Vague, concedeu ao diretor Alexander Kluge, um dos nomes expressivos do novo cinema alemão, este pergunta como Godard definiria o cinema a um eventual extraterrestre que lhe aparecesse. Godard reflete por um momento e começa por dizer que falaria ao extraterrestre de um aparelho, a câmera, inventado no início do século XX, que, tal como o telescópio servia para enxergar os distantes astros do universo, ou o microscópio nos auxiliava a ver o mundo tão próximo e invisível que os nossos olhos não alcançam, a câmera nos servia para ver a própria humanidade.

Em “O Ódio”, a câmera de Kassovitz nos oferece um ponto de vista sobre essa humanidade que somos, um ponto de vista jovem, enérgico, carregado de um ódio que, se infesta toda a nossa atmosfera social, nem sempre consegue destruir o que há de amor em nós. É esse amor – abstrato, inconsciente, profundo – que torna Vinz um personagem cindido entre a revolta violenta e o anseio de dignidade. É esse amor, talvez, que o impede, não sem um grande custo emocional, que ele mate um jovem neo-nazista que agredia os seus amigos. Mas “O ódio” é implacável, a catástrofe é anunciada, a violência e o assassinato não retrocedem. O filme nos situa no desconfortável lugar entre o impacto de dois “aparelhos”: o revólver explícito e a câmera que oculta a si mesma, mas nos revela algo dessa nossa humanidade.

TRAILER:

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

Captura de Tela 2018-02-16 às 07.47.20

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. Os ingressos custam R$ 12,00. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.

 

Uma resposta em “Cinematógrafo na Saladearte de abril exibe “O Ódio”, de Kassovitz. Leia a nota dos curadores sobre o filme

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s