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“Quarto Camarim” tem estreia internacional em Vancouver e em Santo Domingo

“Quarto Camarim”, nosso primeiro longa, teve estreia internacional em Vancouver e em Santo Domingo.

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Quarto Camarim” (2017), longa de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, estreou no dia 22 de novembro, no Canadá, participando do Vancouver Alternative Cinema Festival. No dia 5 de dezembro, foi exibido na República Dominicana, na mostra oficial do Santo Domingo OutFest – Festival Internacional de Cine GLBT.

24879908_1953094964715720_4237496083568247201_oQuarto Camarim (2017) é o primeiro longa-metragem dos diretores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. O filme, por meio de uma abordagem documental, mostra o reencontro entre uma sobrinha, que é a própria diretora, e sua tia, com quem não manteve nenhum contato desde a sua infância. É um filme de mise-en-scène compartilhada entre a diretora e a tia que, sem abrir mão da abordagem temática sensível de impacto político e social, elabora cinematograficamente um testemunho de vivência pessoal e íntima.

A realização do filme teve o apoio do programa Rumos – Itaú Cultural 2016-2017.

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nota sobre “Vazante”, de Daniela Thomas

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“Vazante”, dirigido por Daniela Thomas, foi pivô de debates polêmicos em Brasília e alvo de duras críticas por parte, também, de pessoas ligadas aos movimentos negros.

O tema do filme gira em torno do drama de uma elite agrária em formação no interior de Minas Gerais, no estertor do Brasil colonial. A história começa mostrando uma família escravocrata em decadência com o fim do ciclo da mineração, para depois se concentrar em Beatriz (Luana Nastas), a filha mais nova dessa família, que — mesmo antes de “ter as regras” — é entregue pelo pai para se casar com o tropeiro português Antônio (Adriano Carvalho), um homem muito mais velho, que tinha se casado com a tia de Beatriz. Esta morrera durante o parto, junto com a criança, legando à Antônio as posses da família, o que impôs uma relação de subordinação total do pai de Beatriz para com Antônio.

Essa elite agrária em formação e em decadência, ou seja, em transição, se mostra ontologicamente alienada em relação à calamidade da escravidão, alienação que, na perspectiva do filme, situa os personagens negros como tipos humanos, que funcionam como “elenco de suporte” do drama do casal de protagonistas, Beatriz e Antônio, proprietários escravocratas.

Os protagonistas, durante largos trechos do filme, pouco ou nada falam. Uma cenografia funcional, tanto nos interiores austeros quanto nos exteriores telúricos, junto com a visualidade, ponto forte do filme, marcada por paisagens exuberantes, enquadramentos instigantes e a fotografia em preto-e-branco (visualidade atrapalhada por uma projeção que deixava entrever tons esverdeados nos contornos das imagens), indicam que “Vazante”, cinematograficamente, tem pretensões estéticas e dramáticas, além de históricas, por conta do seu tema. Mas nenhuma dessas pretensões se realiza, o que, decisivamente, enfraquece o filme enquanto cinema de propensões realistas.

Dramaticamente, “Vazante” falha. A história simples e potencialmente pungente — o sofrimento mudo de uma menina branca que se apaixona por um menino de sua idade, que é um escravo, em relação com a angústia rústica de um tropeiro que se torna proprietário escravocrata depois da perda da mulher durante o parto — não logra transmitir a carga que seus dramas nos prometem.

Os personagens estão, quase todo o tempo, sob a mira de uma câmera severa, vivendo um cotidiano árido, carregado de um peso invisível, mas presente. Contudo, a tensão dramática nunca se realiza. E não se trata da desdramatização bressoniana, nem dos tempos mortos de Antonioni. Trata-se de uma fragilidade dramatúrgica que não se deve aos atores, que atuam bem, mas à própria estrutura narrativa, que não lhes dá tempo de imprimir sentido dramático aos seus olhares, expressões e lágrimas.

Em termos narrativos, o filme produz bons ganchos, mas que que são desperdiçados. Por exemplo, a relação entre senhores e escravos é marcada por uma distância terrível, cuja expressão máxima aparece na cena em que os escravos negros revoltosos falam uma língua incompreensível (que uma mulher, escrava, entende parcialmente), que o filme tem a felicidade de não traduzir.

A cena remeteria, se quiséssemos abordá-la à luz da filosofia, à justificativa ética e política de Aristóteles para legitimar a existência dos escravos na Grécia Antiga. Aristóteles distingue os seres dotados de phonè (fala) daqueles dotados de logos (discurso), ou seja, o filósofo separa as identidades de um ser cuja fala é a expressão de seu lugar desprovido de discurso, das outras identidades que dominam o discurso, ou que ditam o que é visível ou não, o que é ou não dizível e, logo, pensável . Dito de outro modo, Aristóteles separa o ser portador do discurso (e ele o é por conta do regime de dominação e exclusão que vigora em uma sociedade), do ser dotado de fala, mas de uma fala desprovida de inteligibilidade, fala percebida como mero ruído por conta daquela “alienação” ontológica (que no fundo é meramente política, no sentido lato do termo) em relação à calamidade da escravidão. Por essa ótica, a diretora Daniela Thomas é portadora do discurso, agenciado pelo próprio cinema, embora ela não possa ser responsabilizada sozinha por refletir uma estrutura de poder tal como a que define historicamente o campo do cinema no país.

O problema, portanto, é que o filme ignora as subjetividades desses seres falantes, mas sem discurso, que embora apareçam como mero elenco de apoio para o drama factual dos senhores, é parte constituinte desse drama. Não se trata, como se viu nas polêmicas sobre o filme, de reivindicar o protagonismo dos personagens negros. Mas, antes, de o filme revelar uma estreiteza narrativa, já que recorre, tematicamente, a um pano de fundo histórico de forte presença no imaginário brasileiro, mas segue as coordenadas das abordagens televisivas sobre o tema da escravidão, embora busque dirimir o apelo melodramático sob uma sofisticação formal apenas eficiente.

Nesse sentido, a reação intensa de militantes dos movimentos negros ganha legitimidade, porque o filme introduz um gancho narrativo rico, mas o exclui de seu drama, tornando invisíveis os sujeitos escravizados e diminuindo a sua presença dramática, para valorizar o mal desenvolvido dramalhão dos senhores e sinhás, abordado com um verniz gilbertofreyreano, evidenciado no previsível desfecho do filme, que se encerra com os partos da sinhá e da escrava, ambas dando à luz a crianças mestiças, uma fruto da violência, a outra do amor inocente.

É nesses termos que, por razões transversas, eu me sinto inclinado a concordar com a parte que interessa da leitura do crítico Juliano Gomes sobre o filme (ele protagonizou o debate com a diretora Daniela Thomas), que pode ser sintetizada na sua frase que diz que, de “Vazante”, “o que resulta afinal é somente a manutenção do status quo”. O filme se apoia numa abordagem esteticamente matizada do período da escravidão, mas que não traz nada de novo ou disruptivo em relação ao que as telenovelas já ofereceram amplamente ao imaginário do espectador brasileiro. O filme se deixa esvair no regime do status quo tanto nos campos político e histórico, quanto nos campos estético e cinematográfico.

(Vi o filme no Espaço Itaú Glauber Rocha, durante o 13º Panorama Internacional Coisa de Cinema).

 

Cinematógrafo no Cine XIV de novembro, dia 11, exibe “A Ghost Story”, de David Lowery

Cinematógrafo de Novembro – nossa nota sobre o filme:

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Nota dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Ela (Rooney Mara) e ele (Casey Affleck) são um jovem casal separados pela morte dele, num banal acidente de carro. Ela busca seguir em frente, enquanto vive o luto e a aflição da perda repentina. Ele, entretanto, retorna à casa em que viviam na forma de um fantasma passivo e silencioso, que ela não pode ver. O tempo passa, mas o fantasma se prende à casa em que moravam e, mesmo depois que ela se muda, ele permanece lá, à espera de algo, permanecendo como uma testemunha silenciosa do sofrimento dela e de sua própria condição de fantasma.  Através de deslocamentos temporais, o filme expande o drama pessoal do fantasma até um nível de relação cósmica com a vida e o mundo, oscilando entre o apego às histórias de uma vida e a dimensão inefável da eternidade.

Difícil de classificar, “A Ghost…

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“Muros” será projetado na fachada do Forte Santa Maria

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Curta-metragem “Muros” será projetado na fachada do Forte Santa Maria (Porto da Barra), durante a inauguração da expo “Nosoutros”, de Rogério Ferrari. Sexta (dia 20/10), às 18h.

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O curta “Muros” será projetado na fachada do Forte Santa Maria, no dia 20 de outubro, às 18h, na inauguração da exposição “Nosoutros”, do fotógrafo Rogério Ferrari, que já pode ser vista na parte externa do Espaço Pierre Verger, no Forte Santa Maria (Porto da Barra, Salvador).

A mostra exibe 23 fotografias em preto-e-branco, que relacionam os campos de refugiados palestinos com os bairros periféricos de Salvador, reunindo fotografias de Rogério Ferrari tiradas durante as filmagens de “Muros” (2015), filme dirigido por Camele Queiroz e Fabricio Ramos, e de suas vivências anteriores na Palestina, Líbano e Jordânia.

“Muros” ganhou o Prêmio de Melhor Filme pelo Júri do V Feciba – Quinta edição do Festival de Cinema Baiano, em 2015. Foi premiado também como…

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[Salvador] O Cinematógrafo no Cine XIV de outubro exibe “A Liberdade é Azul”

Cinematógrafo de OUTUBRO

Nota dos curadores:

Julie Vignon (Juliette Binoche) sobrevive ao acidente de carro que vitimou seu marido e sua filha pequena. Diante da dor da perda, ela decide enfrentar a tragédia experimentando uma liberdade radical em sua vida, recusando o luto e o choro, livrando-se de seus bens e patrimônio, evitando se ligar ao próprio passado e se afastando definitivamente das pessoas com as quais mantinha vínculos afetivos.

Em A Liberdade é Azul (1993), a Música e cor cumprem uma função narrativa mas, sobretudo, compõem a estética do filme, que proporciona uma experiência sensorial impactante, imprescindível de ser vivenciada num ambiente que somente a sala de cinema oferece. O tema da liberdade aparece sob uma abordagem existencial e trágica, mas evoca questões que se ligam a uma ampla variedade de problemas contemporâneos.

O diretor polonês Krzysztof Kieslowski completou a sua trilogia das cores com A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1995), títulos que fazem clara referência aos ideais iluministas encampados pela Revolução burguesa na França. A acepção demasiado óbvia dos títulos poderia sugerir uma leitura apressada, relacionando o filme à preponderância de razões políticas e históricas. Entretanto, em A Liberdade é Azul, a história e a política só aparecem enquanto substrato de uma experiência individual trágica que, como um corpo que se afoga, busca na própria crise dos ideais, se não uma tábua de salvação, uma maneira possível de ficar submerso. — (Por Fabricio e Camele).

O quê: sessão de A Liberdade é Azul no Cinematógrafo
Quando: dia 7 de outubro, sábado, às 16h.
Onde: no Cine XIV, no Pelourinho (veja mapa mais abaixo)
(A contribuição é de R$ 5,00)

O CINEMATÓGRAFO:

O Cinematógrafo no Cine XIV exibe filmes, mensalmente, de variadas formas e temas, sempre no primeiro sábado do mês, às 16h. O intuito é instigar conversas sobre os mais diversos problemas contemporâneos, nos campos da política, da estética e da arte em suas relações com a vida. A curadoria é de Camele Queiroz e Fabricio Ramos e os filmes programados são divulgados a cada mês em nossas redes (curta a página no Facebook).  A contribuição é de R$ 5,00 por sessão. Apoie a iniciativa se tornando um membro associado através da anuidade (sessenta reais) que garante acesso às doze sessões anuais.  Fale conosco e participe!

nota sobre “Tour de France” (França, 2017), filme de Rachid Djaïdani

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O convívio circunstancial entre Far’Hook (Sadek), um jovem rapper, filho de imigrantes árabes, que vive na periferia de Paris, e Serge (Depardieu) um homem mais velho, francês rancoroso que manifesta sua xenofobia e racismo a todo momento, constitui o núcleo dramático do filme que, inicialmente, me pareceu verdadeiramente uma obra “Tour de force” pelo potencial do tema, pelo estilo documental cheio de beleza, pela simplicidade dramática e pela eficácia narrativa da primeira fase do filme. Infelizmente, a partir de sua segunda metade, o drama perde força, a narrativa sucumbe a peripécias tolas e os diálogos não resistem aos clichês mais dispensáveis diante da intensidade dramática que vinha se desenhando.

Um filme que parte de um tema árduo e urgente, necessário de ser abordado no cinema e na arte, especialmente na França. Que, em seu início, seduz com a sensibilidade formal (fotografia documental, boas atuações, ritmo equilibrado) e narrativa (um mote verossímil, realista e de forte impacto dramático e temático). Enfim, um filme que começa insinuando um possível “tour de force” temática a formalmente arriscado em sua fábula. Porém, assumo a minha decepção, acaba por se revelar um panfleto que flerta com o maniqueísmo político (bem intencionado, é certo), ao confrontar, de forma literal e nada sutil, o “velho” e o “novo” como emblemas, respectivamente, do passado (do ultrapassado) e do futuro (do progresso) socialmente promissor, respondendo claramente a um clamor ideológico disseminado, mas sem o substanciar minimamente em seu drama complacente, nem arriscar ir além da superfície na construção dos personagens.

“Tour de France” promove, portanto, um discurso de fácil aceitação (o da reflexão sobre populações excluídas, do problema do racismo e propondo o convívio respeitoso em meio às diferenças), capaz de tocar um público de um amplo e variado espectro ideológico, mas que, para isso, simplifica demasiadamente os problemas que emergem do encontro entre os personagens, cujos mundos sensíveis tão diferentes, dividindo o mesmo território e partilhando a companhia um do outro, representam grandes conflitos sociais, políticos e éticos.

De toda forma, é um filme bom de ver: abstraindo certos momentos de forçação de barra e a decepcionante perda de intensidade dramática na medida em que se aproxima do fraco desfecho, é um filme bonito, cujo estilo é marcado pela simplicidade, que traz bons momentos de humor e uma mensagem edificante.


Cinematógrafo no Cine XIV exibe “O Segredo das Águas”

O Cinematógrafo de agosto exibe filme da diretora japonesa Naomi Kawas. Sábado, dia 5, no Cine XIV, Pelourinho.

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Cinematógrafo_AGOSTONota dos curadores:

O Segredo das Águas (2014), longa de ficção da diretora japonesa Naomi Kawase, uma experiência poética e dramática que realiza uma síntese muito própria da universalidade da vida. Ambientado nas Ilhas do sul do Japão, a exuberância serena das florestas e a instabilidade bela e desafiadora do mar ora calmo ora agitado, nos aparecem como metáforas próprias do nosso imaginário praiano tropical. O estilo, câmera na mão e ritmo sutil, aliado a um olhar poético existencial, compõe uma visão de mundo sobre a vida: seus medos e desafios, a descoberta da impetuosa e inquietante sexualidade juvenil, a sábia melancolia da velhice, e a morte – a morte como uma presença que assusta e liberta, que entristece e anima.

O CINEMATÓGRAFO:

O Cinematógrafo no Cine XIV exibe filmes mensalmente, sempre no primeiro sábado do mês, às 16h. A curadoria é de Camele Queiroz e Fabricio Ramos e as sessões…

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Entrevista com Camele Queiroz, diretora de “Quarto Camarim”

Entrevista de Camele Queiroz sobre o processo de fazer o filme “Quarto Camarim” (que eu co-dirijo). O filme, que teve o apoio do Rumos – Itaú Cultural, será lançado em breve. A entrevista completa e mais infos sobre o longa podem ser acessados no site do filme.

Poster Quarto Camarim

Camele Queiroz, diretora de Quarto Camarim, comenta as vivências e o processo de fazer o filme.  A entrevista foi concedida em março de 2017 à jornalista Patrícia Colombo, do Blog Rumos – Itaú Cultural e originou a nota publicada no site do Itaú Cultural em 19/7/2017. Leia a entrevista completa:

Patrícia: Como surgiu a ideia de produzir o filme? Gerou um conflito familiar?

Camele: Sempre tive cabelo comprido e decidi cortá-lo bem curto, por razões minhas, o que foi uma decisão difícil. Creio que enquanto cortava o cabelo a lembrança de meu tio me veio à mente e lembrei também do quarto que ficava com a porta sempre fechada, exceto por uma brecha por onde eu o olhava, às escondidas, movida pela curiosidade infantil. Esse quarto se assemelhava muito a um camarim. Eu via uma espelho, via muitos objetos sobre a penteadeira, muitos sapatos coloridos e perucas. Não…

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